Plástico: mundo produziu 8,3 bi de toneladas em 65 anos e reciclou só 9%

O uso do material revolucionou a indústria, mas também gerou acúmulo de lixo

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postado em 22/07/2017 08:00

Produtos feitos de plástico estão incorporados ao cotidiano das pessoas em todo o mundo: embalagens, brinquedos, móveis, tecidos e automóveis são apenas alguns exemplos. O uso do material revolucionou a indústria, mas também gerou um grande desafio para o planeta: o acúmulo de lixo. Cientistas americanos descobriram que, de 1950 — data em que a produção em larga escala dos materiais sintéticos começou — até 2015, os seres humanos geraram 8,3 bilhões de toneladas métricas de plástico. Desse número, 6,3 bilhões de toneladas se tornaram resíduos. Menos de 10% desse montante foi reciclado. E a situação pode se agravar. Os pesquisadores preveem que cerca de 12 bilhões de toneladas métricas de resíduos plásticos terminarão em aterros sanitários ou no ambiente natural até 2050.

A pesquisa, publicada na última edição da revista americana Science Advances, é a primeira análise global sobre produção, uso e destino de todo plástico já produzido no mundo. Os cientistas compilaram dados estatísticos de geração de resinas, fibras e aditivos, em várias fontes da indústria, que foram sintetizados de acordo com o tipo e o consumo. Os resultados da análise mostraram um cenário alarmante. A produção anual de plástico subiu de 2 milhões de toneladas métricas, em 1950, para 400 milhões de toneladas métricas, em 2015. Os pesquisadores destacam que esse aumento recente foi o que mais espantou os especialistas. “Foi surpreendente ver que a metade de todos os plásticos já produzidos globalmente surgiu apenas nos últimos 13 anos”, explicou ao Correio Roland Geyer, principal autor do estudo e professor-associado da Escola de Ciências e Gestão Ambiental da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

Outro aspecto que preocupou os especialistas foi o destino dos resíduos gerados pela produção abundante de plástico. Das 6,3 bilhões de toneladas de lixo plástico produzidas de 1950 até 2015, apenas 9% foram reciclados. Segundo o levantamento,  12% terminaram incinerados e 79% estão acumulados em aterros sanitários ou no ambiente natural. Caso esse cenário não mude, os especialistas acreditam que, nos próximos 33 anos, a quantidade de plástico atingirá a marca de 34 bilhões de toneladas métricas. Desse número, segundo as estimativas, 12 bilhões de toneladas métricas se transformarão em resíduos que terão como destino aterros sanitários ou o ambiente natural.

Os pesquisadores esperam que o levantamento possa servir como uma ferramenta para impedir que essa previsão negativa se torne realidade. “O que tentamos fazer é criar bases para o gerenciamento sustentável de materiais. Simplificando, você não consegue gerenciar o que você não mede, pensamos que as discussões sobre políticas serão mais completas agora que temos esses números”, explicou Geyer. O pesquisador destaca que mudanças no gerenciamento do lixo também são necessárias. “Espero que nossos números mostrem que apenas continuar a reciclar e incinerar plásticos — alternativas que usamos atualmente — não é o suficiente. Precisamos repensar fundamentalmente a forma como produzimos e utilizamos esse material. Esse estudo levou muitos anos e finalmente está completo. O próximo passo deve ser discutir as implicações políticas de nossas descobertas, mas isso deve ser feito por todos, não só por nós”, complementou.

Para Ana Maria Domingues Luz, ambientalista e presidente do Instituo GEA – Ética e Meio Ambiente, o estudo americano possui como principal trunfo mostrar o quanto o acúmulo do plástico pode ser maléfico ao meio ambiente. “Com esses dados, conseguimos ver como essa produção é abundante e pode causar impactos ao planeta, mas, infelizmente, vejo poucas saídas para mudar esse cenário. O plástico ainda é uma das melhores opções para a indústria, nenhum outro material consegue ter a transparência e a elasticidade que ele possui. Outro ponto contra é que a criação de opções biodegradáveis desse produto artificial não tem evoluído”, ressaltou a especialista, que não participou do estudo.

Luz disse acreditar que uma das saídas para o problema de acúmulo do plástico está na forma como as indústrias trabalham. “Acredito que as empresas deveriam planejar o descarte de suas embalagens e produtos antes de eles serem produzidos. Eles fabricam, mas não levam em conta qual será o destino final de sua produção. É o que chamamos de economia circular, você tem que pensar no caminho que o produto vai fazer desde a prateleira até a hora do descarte. A indústria precisa pensar em alternativas para que seu produto não vá para o lixo, como parcerias com cooperativas de reciclagem, por exemplo”, destacou.

A especialista enfatizou que a medida é extremamente importante porque, mesmo com os esforços dos consumidores para diminuir a quantidade de resíduos, o problema do acúmulo não será resolvido. “As pessoas comuns podem reduzir a utilização e pensar em reciclagem também, essas atitudes não deixam de ser importantes, porém não resolvem tudo. Por exemplo, compramos um carro que tem um para-choque feito de plástico, não temos muitas opções para lidar com ele. Como iremos reaproveitá-lo?”, detalhou.


Oceanos poluídos

O estudo americano é a continuação de uma investigação realizada pela mesma equipe. Em 2015, o grupo publicou uma pesquisa na revista Science com cálculos relativos a magnitude dos resíduos de plástico no oceano. “Estimamos 8 milhões de toneladas de plástico nos oceanos mundiais em 2010. Agora, queríamos entender toda a imagem da produção e uso a nível mundial”, explicou Geyer. “Ainda há pessoas vivas que se lembram de um mundo sem plásticos, mas esse material se tornou tão onipresente que não existem lugares onde você possa ir sem encontrar resíduos provenientes dele, incluindo nossos oceanos”, frisou Jenna Jambeck, coautora de estudo e professora-associada da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos.

Os cientistas destacaram que, em questão de acúmulo, o plástico superou a maioria dos outros materiais artificiais, à exceção dos usados no setor de construção, como o aço e o cimento. “Metade de todo o aço que fabricamos entra na construção e terá décadas de uso. Com o plástico, é o oposto. Metade se torna resíduo após quatro anos ou menos de uso”, ressaltou Geyer. “A maioria dos plásticos não se biodegrada em nenhum sentido significativo, de modo que o material desperdiçado pode estar conosco por centenas ou milhares de anos. Temos que pensar criticamente sobre os materiais que usamos e nossas práticas de gerenciamento de resíduos”, reforçou Jambeck.
 
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