Novo aparelho melhora a locomoção de vítimas de AVC

Preso ao tornozelo e à cintura, aparelho robótico melhora a locomoção de vítimas de acidente vascular cerebral. Como pesa menos de 1kg, o dispositivo criado por pesquisadores dos Estados Unidos poderá beneficiar principalmente os idosos

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postado em 27/07/2017 06:00

O acidente vascular cerebral (AVC) é um problema de saúde grave e frequente na população mundial, com o risco de sequelas que comprometem a qualidade de vida, como a perda de movimentos em um lado do corpo. Para ajudar na locomoção desses pacientes, pesquisadores dos Estados Unidos desenvolveram um dispositivo eletrônico similar a uma peça de roupa que consegue otimizar o ritmo dos passos dos usuários. Apresentado na edição desta semana da revista Science Translational Medicine, o aparelho movido por pequenos sensores e uma bateria se destaca também pela leveza, o que pode beneficiar principalmente os idosos.

 

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Os exoesqueletos desenvolvidos para a recuperação motora geralmente são volumosos e pesados. A equipe liderada por Lou Awad, pesquisador da Universidade de Boston, decidiu apostar em uma solução que ajudasse ainda mais os pacientes. “Pensamos que pessoas que tiveram um AVC se beneficiariam mais com um ‘robô’ menos pesado e discreto. Por isso, adaptamos um aparelho criado em nosso laboratório para ajudar os soldados a transportar cargas pesadas com menos esforço”, detalha Lou Awad.

O aparelho pesa 0,9kg — aproximadamente duas vezes mais que uma bola de futebol — e tem um cinto ajustável, que agrega uma bateria, uma tornozeleira e duas cintas usadas para vestir a perna comprometida. Dentro da tornozeleira, os cientistas instalaram sensores robóticos, que têm como função principal exercer força na palmilha do sapato usado pelo paciente, fornecendo, assim, propulsão para a frente e corrigindo problemas na dorsiflexão (movimento da articulação do tornozelo) por meio de uma corrente elétrica que percorre todo o traje.

“Nós  nos concentramos na articulação do tornozelo, já que pesquisas anteriores demonstram o papel importante que ele desempenha na geração das forças que impulsionam o corpo para a frente durante a caminhada, bem como na redução de tropeções e quedas. Esse é um problema que atinge a maioria das pessoas que sofrem de AVC e estão em reabilitação”, ressalta Lou Awad.

Ao longo de dois dias, nove voluntários com idade entre 30 e 67 anos que utilizavam outros aparelhos de auxílio para a locomoção testaram o dispositivo. Os criadores do equipamento detectaram grandes avanços tanto em caminhadas feitas em uma esteira quanto em passos dados livremente no chão. Em outro teste, pacientes que apresentaram velocidades de caminhada não assistida (sem aparelhos de auxílio) mais lentas também demonstraram melhoras com o uso do dispositivo.

O design do aparelho permitiu os benefícios, avaliam os criadores. “Uma lição para tirar do nosso trabalho é que a entrega de pequenos níveis de assistência ativa por meio de uma interface leve e que não restringe o usuário pode ter um efeito positivo na mobilidade de pessoas com deficiências físicas. Mostramos que um robô unilateral e ‘macio’ pode complementar a capacidade de locomoção do membro. Ele gera propulsão para a frente, causando um caminhar mais normal”, detalha Conor Walsh, um dos autores e pesquisador da Universidade de Harvard.

Alavanca externa


Helio Ismael, ortopedista do Hospital Brasília, cogita alguns impactos do dispositivo norte-americano no dia a dia dos usuários. “Esse tipo de aparelho poderá ajudar os pacientes a ter uma rotina mais ativa, com mais independência. Temos outros dispositivos que utilizam um impulso elétrico diretamente nos músculos, mas, muitas vezes, eles perdem a possibilidade de gerar estímulo porque já estão debilitados; com o tempo, se atrofiam. Esse aparelho não foca apenas nesse músculo, usa uma corrente elétrica que atravessa todo o traje, criando uma força adicional, uma espécie de alavanca externa que gera o suporte necessário”, avalia.

Para o médico, que não participou do estudo, a escolha do tornozelo também chama a atenção. “Não nos vem primeiro à cabeça o tornozelo quando pensamos na força para a caminhada, mas ele é essencial para a marcha ser eficiente”, explica. A continuidade do trabalho norte-americano prevê a interferência em outras partes do corpo. “Estamos trabalhando no desenvolvimento de módulos robóticos que possam ajudar o joelho e o quadril durante a caminhada e se integrar a esse modelo que criamos para o tornozelo. Também estamos estudando como usar melhor os sensores durante a reabilitação da marcha e, dessa forma, gerar mudanças que sejam duradouras ao paciente”, adianta Lou Awad.


Milhões de mortes


Também chamado de derrame, o acidente vascular cerebral é a segunda maior causa de morte no Brasil, perdendo apenas para o infarto. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é a principal causa de incapacidade no mundo e causa 6 milhões de mortes por ano globalmente. Levantamento recente do Ministério da Saúde indica a ocorrência de cerca de 100 mil mortes de brasileiros por ano provocadas por essa complicação.

Tecido no lugar de metalRobótica, a tornozeleira criada por pesquisadores dos Estados Unidos chama a atenção ainda pela flexibilidade. Segundo os criadores, o uso de tecidos no lugar de estruturas rígidas, como metais, pode fornecer maior praticidade aos usuários. “A principal diferença entre o nosso aparelho robótico macio e os exoesqueletos usáveis atualmente é que o uso de têxteis nos membros torna nosso sistema imperceptível quando não está ligado. Em contraste, os exoesqueletos são pesados e difíceis de mover quando não estão ligados”, compara Lou Awad, líder do projeto.
A formação é um dos principais fatores para o peso reduzido do dispositivo. Característica que, para Cláudia Barata Ribeiro, neurologista do Hospital Santa Lúcia em Brasília e presidente regional da Sociedade Brasileira de Medicina Física e Reabilitação, torna a tecnologia direcionada principalmente a pessoas mais velhas. “Idosos têm um fator limitante. Na maioria das vezes, há um condicionamento físico que não é o ideal e, com isso, fica ruim até para fazer a fisioterapia. Esse aparelho parece ajudar a poupar energia — auxilia na respiração, por exemplo —, e essa redução de esforço é um grande ganho para os pacientes mais velhos”, justifica.

A neurologista também ressalta que o aparelho poderia ser usado como um auxílio em tratamentos que buscam retomar a caminhada completamente. “No estudo, eles não utilizaram esse dispositivo como uma ferramenta de treinamento, mas ela pode gerar vantagens nessa área. Sabemos que, ao estimular o cérebro das pessoas constantemente, ele passa a reconhecer aquela ação repetida como correta e, com o tempo, pode se reabilitar totalmente”, explica.  (VS)

Esse aparelho parece ajudar a poupar energia — auxilia na respiração, por exemplo —, e essa redução de esforço é um grande ganho para os pacientes mais velhos”

Cláudia Barata Ribeiro, neurologista do Hospital Santa Lúcia em Brasília e presidente regional da Sociedade Brasileira de Medicina Física e Reabilitação

Novo exame para inflamação vascular


Todos os anos, 17,5 milhões de pessoas morrem por doenças cardiovasculares. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, são 70 mil óbitos por infarto. Hoje, o que há de mais moderno para a detecção dessas enfermidades é o escore de cálcio coronário (EC). Esse exame de imagem identifica calcificações da parede vascular, um marcador do processo aterosclerótico, que se caracteriza pelo acúmulo de gordura e pela consequente diminuição de fluxo sanguíneo para o coração. Porém, o método só detecta o problema quando ele está irreversível e não  acusa quais as placas mais propensas a se romper.

Agora, pesquisadores da Universidade de Oxford desenvolveram um exame não invasivo que mede o nível de inflamação dos vasos sanguíneos, permitindo a aplicação de medidas preventivas para os pacientes em maior risco de doença coronariana. De acordo com os cientistas, caso os resultados sejam replicados, a tecnologia vai revolucionar o manejo clínico das enfermidades cardíacas. O resultado da pesquisa foi publicado neste mês, na revisa Science Translational Medicine.

“O novo método, que chamamos de índice de atenuação de gordura (FAI), detecta a inflamação vascular em vez da calcificação. Essa inflamação aparece primeiramente em um estágio no qual a doença coronariana ainda é suscetível a intervenções para reduzir o risco”, diz o principal autor do trabalho, Alexios Antonopoulos, da Divisão de Medicina Cardiovascular da Universidade de Oxford. 

Método 3D


No FAI, o paciente é submetido a uma tomografia computadorizada simples, e o resultado é avaliado por um método tridimensional que investiga alterações no tecido adiposo perivascular. Essas mudanças visíveis estavam associadas a diversos marcadores de inflamação dos vasos sanguíneos de 453 pacientes que tiveram de fazer cirurgia cardíaca. Os pesquisadores também quantificaram o índice em 273 pessoas (156 com placas e 117 sem aterosclerose significativa) e demonstraram que, de fato, o FAI elevado tem relação com o nível de danos nos vasos sanguíneos.

“O FAI será testado em estudos clínicos e tem o potencial de aliviar enormemente a carga no sistema de saúde. Ele pode ser realizado prospectivamente ou mesmo aplicado retrospectivamente em exames já prontos dos pacientes”, diz Antonopoulos. O médico explica que, atualmente, o método está sendo validado para identificação de placas suspeitas em outras áreas anatômicas do corpo humano, como as artérias carótidas, onde a ruptura pode levar a acidente vascular cerebral.
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