Concentração de CO2 na atmosfera pode reduzir nutrientes em vegetais

Os nutrientes em vegetais hoje são fonte de proteína de 76% da população mundial. O fenômeno pode levar 148 milhões de pessoas a, em 2050, entrar em risco de deficiência alimentar

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postado em 05/08/2017 08:00

Carnes, ovos e laticínios são alimentos considerados comumente fontes de proteína. Porém, para 76% da população mundial, as plantas desempenham esse papel, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Afinal, elas são mais baratas e podem ser cultivadas no quintal de casa. O problema é que, em alguns anos, a quantidade de proteínas presente em muitos vegetais poderá diminuir, colocando cerca de 148 milhões de pessoas em risco de deficiência alimentar e morte precoce, particularmente as que vivem em áreas mais pobres. É o que mostra um estudo da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, divulgado, nesta semana, na revista Environmental Health Perspectives.


Segundo a pesquisa, o aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera diminui a quantidade de nutrientes em diversas espécies de planta. A previsão dos investigadores é de que, em 2050, caia a quantidade de proteínas presente no arroz (em 7,6%), no trigo (7,8%), na cevada (14,1%) e nas batatas (6,4%). Como grande parte do mundo depende das fontes vegetais de proteínas, o estudo prevê também que as populações de 18 países perderão mais de 5% da quantidade do nutriente em suas dietas.

Apenas na Índia, 53 milhões de pessoas podem entrar em risco de deficiência proteica devido à emissão de poluentes. “Em Bangladesh, por exemplo, as populações pobres tiram 75% da sua energia do arroz”, complementa Marie Ruel, diretora da Divisão de Pobreza, Saúde e Nutrição do Instituto Internacional de Pesquisa em Política Alimentar, o IFPRI. “Quanto mais pobre o país, maior a proporção de energia consumida que é derivada de plantas”, complementa.

Causa desconhecida

Atualmente, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera está na casa das 400 partes por milhão. Até 2050, as projeções sugerem um aumento de 150 partes por milhão caso seja mantida a taxa atual de emissão do poluente. Um estudo publicado por Samuel Myers em 2014, na revista Nature, mostrou que a alta concentração de carbono na atmosfera diminui a quantidade de proteínas, ferro e zinco em vegetais cultivados.

Samuel Myers é pesquisador no Departamento de Saúde Ambiental de Harvard e também um dos autores do estudo divulgado nesta semana. Ele e colegas repetiram os experimentos e confirmaram o impacto sobre as plantas. A pesquisa baseou-se em dados de experimentos de campo em que os vegetais foram expostos a altas concentrações de CO2. Informações nutricionais da Organização das Nações Unidas foram usadas para calcular o impacto dessa redução de proteínas nas pessoas vulneráveis.

Apesar da confirmação dos resultados, o que exatamente causa a perda de nutrientes nas plantas ainda não é conhecido. “A resposta curta é que nós não sabemos, apesar de gastarmos muito tempo explorando isso”, diz Samuel Myers. “Nós sabemos que é mais complicado do que uma simples diluição de nutrientes com carboidratos porque descobrimos que nutrientes diferentes mudaram em proporções diferentes.”

Mais vulneráveis

Segundo Marie Ruel, que não participou da pesquisa, dentro da população atingida, crianças e mulheres em idade reprodutiva são as mais vulneráveis. Os meninos e as meninas precisam de energia e nutrientes adicionais para crescer e se desenvolver, e as mulheres, de mais nutrientes quando estão grávidas ou amamentando. “A desnutrição causa mortalidade infantil, infecções repetidas e atraso no desenvolvimento cognitivo e motor”, alerta a especialista.

E os impactos da alimentação deficiente não se limitam aos indivíduos afetados. “Crianças desnutridas se tornam adultos pouco desenvolvidos, com baixa escolaridade, habilidades cognitivas reduzidas, oportunidades de trabalho limitadas e, por consequência, com baixa renda, perpetuando a transmissão de desnutrição e pobreza entre as gerações”, ressalta Marie Ruel.

Para evitar o problema, o passo mais importante é investir na diminuição das emissões de carbono, mas Samuel Myers aponta algumas alternativas. “Promover dietas mais variadas, fortificar biologicamente as plantações, suplementação de nutrientes e, possivelmente, criar plantas menos sensíveis ao gás carbônico”, lista o pesquisador. “A maioria dessas intervenções já existe há um longo tempo, mas ainda temos bilhões de pessoas sofrendo de deficiências nutricionais. Então, não existe uma solução mágica.”

Marie Ruel chama a atenção também para a importância de se considerar as transformações nutricionais que as populações vêm conduzindo, incluindo as mais vulneráveis. “Eu acho que esse é um estudo importante e que suas implicações são válidas de se mencionar nos debates de políticas contra a desnutrição. Porém, essas estimativas não levam em conta que as dietas mudam constantemente”, ressalta. “Com o crescimento econômico e a urbanização, as pessoas tendem a ter mais renda, o que muda de forma importante suas dietas, inclusive com a redução da dependência de fontes vegetais de proteínas. Logo, apesar desse declínio nas proteínas em plantas ser preocupante, é provável que as estimativas do número de pessoas que sofrerão com isso estejam superestimadas.”


* Estagiário sob a supervisão de Carmen Souza
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