Células que sustentam sistema nervoso também ajudam na criação de neurônios

Conhecidas como células da glia, elas também estão envolvidas na formação dos neurônios, segundo estudo norte-americano; descoberta abre portas para novos tratamentos contra doenças cognitivas

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postado em 01/09/2017 06:00

Valdo Virgo/CB/D.A Press
 
 
Órgão mais complexo do corpo humano, o cérebro é composto por duas grandes categorias de células: as nervosas e as não nervosas, também chamadas células da glia. Já se sabe que as últimas dão suporte ao funcionamento do sistema nervoso. Agora, em um experimento com moscas-da-fruta, uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos identificou que essas estruturas podem estar ligadas a um mecanismo anterior e ainda mais preponderante para o funcionamento cerebral: elas têm papel fundamental na criação de neurônios.
 
 
Vilaiwan Fernandes, pesquisadora do Departamento de Biologia da Universidade de Nova York e uma das autoras do estudo, divulgado na edição desta semana da revista Science, conta que o potencial das células da glia passou despercebido pelos cientistas durante um bom tempo. Mas descobertas como a da sua equipe têm as colocado em um papel importante para, por exemplo, o desenvolvimento de tratamentos médicos contra doenças cognitivas. “As células nervosas são as excitáveis eletricamente, que formam circuitos que processam informações. As da glia são mais misteriosas e, por muito tempo, foram consideradas como peças de suporte entendiante. Por isso, seu desenvolvimento foi muito pouco estudado”, explica.

Por causa da presença excessiva no cérebro, os cientistas desconfiaram que a glia poderia ser fundamental no desenvolvimento do órgão. Para isso, resolveram analisar o sistema visual da moscas-da-fruta. A espécie é considerada um modelo importante para esse tipo de estudo porque tem mecanismos de visão semelhantes ao dos humanos, como os minicircuitos que detectam e processam a luz em todo o campo visual. Essa dinâmica é de vital importância porque, à medida que o cérebro se desenvolve, ele deve coordenar o aumento de neurônios na retina com os neurônios que estão em regiões mais distantes dele.

Ao longo das observações, os pesquisadores descobriram que essa coordenação do desenvolvimento das células nervosas é realizada pelas células da glia. Elas retransmitem as informações da retina para que o cérebro consiga fazer com que essas pistas se tornem células nervosas, os neurônios. “Ao atuar como um intermediário de sinalização, a glia exerce controle preciso não apenas quando e onde um neurônio nasce, mas também sobre o tipo de neurônio que será desenvolvido”, explica, em um comunicado, Claude Desplan, principal autor do estudo e professor de biologia da Universidade de Nova York.

Para a equipe, essa função detectada sinaliza o quanto as células da glia são importantes na busca por um maior entendimento do funcionamento do cérebro. “Esse trabalho torna evidente que as células gliais são críticas para o desenvolvimento do cérebro, e que não podemos continuar ignorando o papel delas se queremos entender esse órgão”, destaca Vilaiwan Fernandes. A pesquisadora também ressalta que mais investigações sobre essa estrutura podem ajudar a entender doenças que possivelmente estão relacionadas a ela. “Existe um consenso crescente de que muitas patologias cerebrais podem ser causadas ou agravadas por disfunções da glia. Portanto, é útil saber o que essas células estão fazendo durante o desenvolvimento normal, a fim de entender suas possíveis disfunções e enfermidades”, justifica.


Sistema complexo

Amauri Araújo Godinho, neurocirurgião do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, destaca que os resultados reforçam uma suspeita existente na área neurológica. “Sempre consideramos a glia como uma célula de preenchimento, sabemos também que a maioria dos tumores cerebrais está localizada nela, como o glioblastoma, o mais comum. Mas outras pesquisas como essa americana têm mostrado que outras funções podem estar relacionadas a ela. Já acreditávamos que ela estivesse ligada ao desenvolvimento do cérebro, mas nesse estudo vemos isso de forma mais detalhada”, explica.

Mesmo com a constatação, o neurologista acredita que o papel da glia no desenvolvimento de neurônios é apenas uma pequena peça de um sistema complexo e ainda muito misterioso. “Temos que deixar claro que outros muitos mecanismos estão envolvidos, diversos fatores estão relacionados ao surgimento dos neurônios, não é somente a glia que atua nessa tarefa”, ressalta. Ainda assim, o médico acredita que o trabalho norte-americano abre campos para novos avanços na área médica.

“A esperança que surge com esse tipo de achado é que ele pode ajudar na produção de um tecido novo, que possa ser usado no caso de lesões. Seria uma analogia às células-tronco. Você pega uma célula que tem potencial e a estimula para se tornar outra com função específica, que possa substituir a visão perdida de um paciente, por exemplo, ou outro tipo de perda”, detalha. “Acredito que um próximo passo seria tentar refazer essas células nervosas em laboratório para conseguir criar um neurônio específico e confirmar essa função.”

Vilaiwan Fernandes adianta que essa será justamente a próxima etapa do estudo. “Queremos entender exatamente como fazer esses diferentes tipos de células nervosas. Essa é uma questão importante para construir um circuito cerebral, além de um grande desafio nesse campo de pesquisa”, detalha.

“Esse trabalho torna evidente que as células gliais são críticas para o desenvolvimento do cérebro, e que não podemos continuar ignorando o papel delas se queremos entender esse órgão”
Vilaiwan Fernandes, pesquisadora do Departamento de Biologia da Universidade de Nova York e uma das autoras
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