Técnica combate em 30% as alucinações auditivas da esquizofrenia

O envio de pulsos magnéticos para o cérebro se destaca, ainda, por ser indolor e não invasivo

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postado em 05/09/2017 06:00

Universidade de Caen/Divulgação


Um dos sintomas mais comuns da esquizofrenia, as alucinações auditivas são motivo de grande sofrimento para o portador desse transtorno psiquiátrico. Embora medicamentos antipsicóticos consigam controlar, em grande parte das vezes, as manifestações da doença, eles nem sempre são capazes de calar as vozes que insistem em penetrar a mente dos pacientes. Agora, um estudo preliminar apresentado no Congresso Europeu de Neuropsicofarmacologia, em Paris, mostrou que a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT), uma técnica não invasiva e praticamente sem efeitos colaterais, combate esse problema. O trabalho será publicado, ainda sem data definida, no Schizophrenia Bulletin. 
Descrita há um século, a esquizofrenia caracteriza-se por uma variedade de sintomas que podem incluir delírios e alucinações. No curso do transtorno, cerca de 70% dos pacientes sofrerão algum episódio da alucinação auditiva-verbal, o popular “ouvir vozes”. Em alguns casos, esses sons podem ser contínuos, gerando uma alta carga de sofrimento. Em outros, as vozes colocam em risco a vida de quem tem o distúrbio e das pessoas em redor. Não existe, atualmente, um tratamento que tenha como alvo específico esse tipo de perturbação mental.

A aposta de uma equipe de pesquisadores da Universidade de Caen, na França, para atacar a alucinação auditiva-verbal é a EMT, que tem se tornado bastante popular no tratamento de uma variedade de condições neurológicas e psíquicas. Regulamentado pela Agência Brasileira de Vigilância Sanitária (Anvisa) para tratamento de depressão, a técnica também tem se mostrado eficaz no combate a doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Huntington, e de condições como transtorno pós-traumático, compulsão alimentar, drogadição e ansiedade, além de auxiliar na recuperação de pacientes que sofreram acidente vascular cerebral (AVC). “No PubMed (banco de dados de artigos científicos), há mais de 12 mil publicações sobre a EMT”, conta o neurocientista Nasser Allam, membro da Academia Brasileira de Neurologia e um dos pioneiros do uso da estimulação magnética transcraniana.

Essa técnica consiste no envio de pulsos magnéticos para o cérebro que, dependendo da frequência, podem aumentar ou diminuir a atividade na região alvo. Dessa forma, o médico consegue modular os neurônios, equilibrando seu funcionamento. Indolor, a aplicação é feita com o paciente acordado. Segundo Sonia Dollfus, pesquisadora da Universidade de Caen e principal autora do trabalho francês, apesar da variedade de estudos atestando a eficácia da técnica para o tratamento de condições neuropsiquiátricas, ainda não havia evidências de que ela poderia beneficiar pacientes de esquizofrenia com alucinação auditiva-verbal.

Para se endereçar a essa questão, a equipe realizou um pequeno teste com 59 pessoas, divididas em dois grupos. Vinte e seis pacientes receberam o tratamento verdadeiro, e o restante foi submetido ao placebo. Todos foram entrevistados, seguindo um protocolo padrão — a escala de alucinação auditiva —, revelando as principais características das vozes que ouviam. Os que de fato foram tratados receberam pulsos magnéticos de alta frequência (20Hz) em duas sessões diárias, realizadas em dois dias. Guiados pelo exame de ressonância magnética cerebral, que mostra a atividade das regiões do cérebro, os cientistas direcionaram os estímulos para uma área do órgão localizada no lobo temporal que está associada à linguagem.

Duas semanas depois, os pacientes foram avaliados novamente, com o mesmo questionário padrão. Entre os tratados com a estimulação transcraniana, 34,6% tiveram melhora significativa, apresentando um decréscimo de mais de 30% na pontuação na escala de alucinação auditiva. Já no grupo do placebo, esse percentual foi de apenas 9,1%. “Esse é o primeiro teste controlado a mostrar uma melhora nos pacientes, tendo como alvo uma área específica do cérebro e utilizando a EMT em alta frequência”, diz Dollfus.


Alta frequência


O neurocientista Nasser Allam, de Brasília, explica que, usualmente, os trabalhos que investigaram essa técnica no tratamento de alucinação auditiva foram realizados com baixa frequência, abaixo de 5Hz. Isso porque já se verificou que a região do cérebro implicada com esse tipo de devaneio é extremamente aumentada nos pacientes. Em tese, seria necessário inibi-la, em vez de excitá-la, “Mas sabemos, hoje, que nem sempre um estímulo inibitório inibe, e nem sempre um estímulo excitatório excita o cérebro”, conta.

De acordo com Dollfus, embora a sugestão de se usar baixa frequência para, assim, induzir uma resposta inibitória seja a mais lógica, os estudos experimentais mostraram pouco efeito no tratamento da alucinação auditiva: “Apenas cinco de 21 estudos controlados demonstraram eficácia”. Além disso, pesquisas recentes feitas em pacientes com depressão mostraram que a estimulação em uma alta frequência resultou em rápido declínio dos sintomas. Com base nisso, a equipe francesa decidiu testar esse protocolo nos indivíduos com esquizofrenia. “Embora ainda tenha um longo caminho antes de sabermos se a EMT é o melhor caminho para tratar esses pacientes em longo prazo, mostramos, aqui, que a estimulação em alta frequência fez diferença ao menos para algumas pessoas”, observa.

Em um comentário divulgado em nota, o professor Andreas Meyer-Lindenberg, pesquisador do Instituto Central de Saúde Mental de Manheim, na Alemanha, destacou que a pesquisa da colega francesa é um passo importante na investigação da EMT como tratamento para alucinação auditiva em pacientes com esquizofrenia. “Embora as taxas de resposta sejam moderadas, a EMT é uma adição bem-vinda ao repertório terapêutico, especialmente para pacientes que não respondem à medicação”, avaliou.

Restrições no Brasil


Em fevereiro, o neurocientista Nasser Allam, membro da Academia Brasileira de Neurologia, publicou na revista Brain Stimulation o relato de caso de uma paciente de 64 anos, tratada por ele com estimulação magnética transcraniana, que sofria de alucinação cenestésica. A mulher não sofria de esquizofrenia, mas era perseguida pela sensação constante de que havia pregos em sua gengiva.

 “Ela ficava passando a língua o tempo inteiro”, relata o médico. A paciente já havia se consultado com psiquiatras e neurologistas, sem uma resposta eficaz. Um dos pioneiros no tratamento com EMT no Brasil, Allam resolveu tratá-la com a estimulação em baixa frequência. “Ela melhorou quase 100%”, observa. Agora, a paciente volta à clínica a cada três ou quatro meses para refazer o tratamento.

O médico brasileiro lamenta que ainda não haja regulamentação da Anvisa para o tratamento de outras condições, além da depressão, com a estimulação magnética transcraniana. “Inúmeras doenças neuropsiquiátricas são passíveis de tratamento. Por que não utilizá-la?”, questiona.

Segurança


 De acordo com Allam, eventualmente, por razões humanitárias, pacientes de distúrbios psiquiátricos e males neurodegenerativos são submetidos à técnica, que não tem efeitos colaterais e é segura, quando aplicada por profissionais habilitados. Ele destaca, porém, que, com a popularidade da estimulação magnética transcraniana, pessoas que não são credenciadas para tratar pacientes estão oferecendo as sessões. (PO)
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