Novas pesquisas apontam declínio cognitivo em idosos

O teste foi construído de forma que os participantes pudessem tomar decisões baseadas em recompensa

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postado em 10/09/2017 08:00

 

Rotineira, a caminhada pela rua não é a única situação que pode colocar a autoproteção de idosos em xeque. Golpes por telefone e pela internet e o oferecimento de prêmios gratuitos estão cada vez mais corriqueiros, e, nesses casos, as pessoas mais velhas parecem se sair mais prejudicadas com mais regularidade. Pesquisadores norte-americanos resolveram investigar as razões dessa vulnerabilidade e descobriram alguns fatores cerebrais ligados a ela.



Eles analisaram 25 adultos com idade entre 21 e 85 anos enquanto realizavam uma tarefa de aprendizagem monetária. O teste foi construído de forma que os participantes pudessem tomar decisões baseadas em recompensa. “Esse é um tipo comum de tomada de decisão que usamos todos os dias. Sempre que tentamos escolher a melhor alternativa com base na experiência anterior e não temos certeza do resultado, estamos confiando na aprendizagem probabilística da recompensa”, explica Gregory R. Samanez-Larkin, pesquisador da Universidade de Vanderbilt e um dos autores do estudo, publicado no Journal of Neuroscience.

Durante a atividade, os participantes tiveram o cérebro escaneado por um aparelho de ressonância magnética. Como resultado, os pesquisadores descobriram que as pessoas mais velhas sentiam mais dificuldade de tomar decisões novas, quando comparadas às mais jovens. Nesse contexto, registrou-se nos idosos uma diminuição de duas vias cerebrais que conectam a região do córtex pré-frontal medial com a massa branca, parte cerebral ligada à velocidade de processamento neural e à atenção, entre outras funções cognitivas.

No caso das ameaças digitais, Paula Natalino, professora de psicologia do Centro Universitário Iesb de Brasília, credita a maior vulnerabilidade a uma possível falta de experiência de idosos com a tecnologia. “Eu tenho 38 anos e lembro que, quando o computador chegou a minha casa, foi um grande adianto, já que, para enviar um trabalho para a faculdade, era uma dificuldade. Muitos idosos de hoje não tiveram esse contato, essa experiência. Uma parcela deles é analfabeta, o que torna mais difícil ainda identificar essas trapaças”, explica.


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Declínio leve

A psicogeriatra Helena Moura explica que o estudo constata uma condição detectada nos consultórios: o declínio cognitivo mesmo em idosos que não têm demência. “Nos últimos anos, passamos a nos preocupar mais com o que chamamos de comprometimento cognitivo leve, que é quando a pessoa se queixa de dificuldade de memória e rendimento em algumas tarefas, sem ter um comprometimento mais grave em atividades da vida diária, como ocorre nas demências”, diferencia.

A especialista destaca que essas mudanças podem prejudicar a capacidade de realizar tarefas monetárias, como ocorreu no experimento. “Na prática, o que acontece é que a pessoa pode continuar realizando as tarefas mais simples, como identificar as notas, saber para que servem etc., mas as mais complexas, como transferências e atribuição de valores, ficam comprometidas. Isso pode fazer com que a pessoa dê uma gorjeta de R$ 100 para o taxista, por exemplo. Assim, os idosos acabam se tornando alvos fáceis para golpistas”, explica.

Para a psicogeriatra, a descoberta dessas informações pode ajudar a desenvolver maneiras que evitem danos aos idosos. “O interessante do estudo é sugerir um mecanismo biológico para esse declínio. A questão do treinamento cognitivo para ajudar a reverter o quadro e/ou manter as habilidades que ainda não foram perdidas é outra questão importante. Vários métodos estão em estudo, mas, infelizmente, ainda não temos uma técnica definitiva para tratamento”, ressalta.

A saída é a população entender melhor sobre o processo de envelhecimento e aprender a reconhecer os sinais do comprometimento cognitivo o mais breve possível. “Vale para os filhos e os cônjuges, principalmente pela convivência mais próxima e porque é difícil para o próprio indivíduo perceber o que está acontecendo. Muitas vezes, a família se irrita, acaba brigando com o idoso e acha que, assim, prevenirá novos golpes. Mas o ideal é levá-lo a um psicogeriatra para avaliar se há algum comprometimento e em que grau está”, sugere. (VS)

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