Análise do muco cervical acusa o risco de parto prematuro, mostra pesquisa

Se é muito permeável, a secreção não protege o útero de infecções bacterianas, aumentando as chances de a mulher ter o filho antes do recomendado

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 12/09/2017 06:00 / atualizado em 11/09/2017 22:35

Reprodução


O parto prematuro pode causar danos ao bebê, como deficiência auditiva e visual, problemas cardíacos e pulmonares e deficiências cognitivas. Monitorá-lo e preveni-lo, no entanto, ainda não é tão simples. Há poucos testes que avaliam, por exemplo, as chances de uma mulher ter o filho antes do recomendado. A análise do muco cervical, segundo pesquisadores norte-americanos, poderá sanar esse problema, se tornando uma espécie de referência nos consultórios ginecológicos. Detalhes do trabalho foram divulgados na edição desta semana da revista Scientific Reports.


Leia mais notícias em Ciência e Saúde

"Queremos ser capazes de identificar o risco de nascimento precoce bem antes de ele ocorrer, porque sabemos que ferramentas de diagnóstico com essa capacidade estão em falta", explica, em comunicado à imprensa, Katharina Ribbeck, professora-associada de engenharia biológica no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, pela sigla em inglês) e autora principal do estudo. A estimativa global, segundo os autores, é de que 18% dos bebês nascidos no planeta vêm antes do período indicado: após 37 semanas de gestação.

Ribbeck trabalhava com as mudanças no muco cervical antes de iniciar a pesquisa atual. Em um estudo divulgado em 2013, ela descobriu que, nas gestantes com alto risco de parto precoce, essa secreção vaginal é mecanicamente mais fraca e mais elástica do que nas mulheres com gravidez de baixo risco. Para o novo estudo, a pesquisadora e os colegas decidiram investigar a permeabilidade do muco.

“Ele é formado a partir de polímeros conhecidos como mucinas, e a composição e a disposição dessas mucinas determinam o poro do gel. Entre 25% e 40% dos partos precoces são causados por infecções que ocorrem quando micróbios atingem o útero através do muco, que normalmente bloqueia o acesso desses micro-organismos”, explica a cientista.

Para o novo estudo, foram coletadas amostras de muco cervical de dois grupos de mulheres durante a gestação e após o parto. Um foi composto por voluntárias classificadas como de baixo risco: gestantes que tiveram os filhos após 37 semanas de gestação. O outro, por mulheres que entraram no trabalho de parto entre a 24ª e a 34ª semana. Ao analisar a composição das secreções vaginais, os investigadores concluíram que, significativamente, as amostras das mulheres do primeiro grupo eram mais permeáveis.

Para os pesquisadores, essa constatação sugere que o muco cervical de grávidas de alto risco, por razões ainda não conhecidas, pode ser mais suscetível à invasão por bactérias e micróbios potencialmente prejudiciais ao útero, aumentado as chances de elas experimentarem uma infecção que leve ao parto prematuro. Segundo Ribbeck, a suspeita é de que isso ocorra devido a mudanças na estrutura molecular das mucinas, que compõem a parte estrutural do muco cervical. “Além disso, o muco alterado pode ser menos capaz de reter componentes úteis do sistema imunológico, como anticorpos ou péptidos antimicrobianos, o que normalmente ajudaria a combater as infecções”, completa.

Parâmetro clínico

João Serafim Neto, coordenador do Ambulatório de Obstetrícia e Especialidades Ginecológicas do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, avalia que o trabalho norte-americano embasa informações conhecidas na área médica. “A principal causa dos partos prematuros está ligada a fatores infecciosos. Por isso é feita uma análise do muco cervical, que é uma barreira mecânica para esse tipo de problema. O diferencial é que, nesse estudo, esses pesquisadores conseguiram mostrar dados relacionados ao nível de permeabilidade desse material. O ponto principal é que eles mostram valores estatísticos para corroborar essa relação.”

O especialista ressalta que ainda é cedo para dizer que o método proposto do pelos cientistas do MIT seria mais confiável e eficaz do que os usados atualmente. “Eles estão com um estudo inicial que precisa ser aperfeiçoado. Com estudos futuros, será possível desenvolver uma detecção mais adequada. Por isso, ainda não podemos dizer que ele seria mais confiável”, explica. Serafim Neto ressalta ainda que, detectado o maior risco de prematuridade, é possível fazer intervenções para evitá-lo. “O objetivo é diagnosticar precocemente e impedir que possíveis danos sejam causados. Quando você detecta bem antes, as chances de minimizar esses problemas aumentam.”

A intenção dos pesquisadores é que o teste seja aplicado justamente no início da gravidez, com outros exames de rotina. Ribbeck cogita outras aplicações para o dado constatado. Segundo ela, através de estudos sobre a composição química do muco, poderão surgir novas maneiras de restaurar a função normal dessa secreção. “Se o muco é mais fino ou menos adesivo do que o natural, então, podemos começar a pensar sobre os fatores a serem adicionados para melhorar essas propriedades de barreira”, resume.

Neto também avalia que uma etapa importante a ser seguida pelos cientistas do MIT é avaliar as causas de alterações do muco cervical. “Acredito que seja importante determinar os fatores que aumentam a permeabilidade, sejam hormonais, inflamatórios ou ligadas a valores nutricionais. Dessa forma, também poderá se saber como isso pode ser revertido.”

Opções limitadas

 
A maneira mais comum de tentar prever o risco de parto prematuro é medir o comprimento do colo do útero, mas, embora um colo “encurtado” esteja correlacionado com maior risco do nascimento precoce do bebê, em muitos casos, as mulheres que apresentam essa característica não têm filhos prematuramente. Outro teste envolve medir níveis de fibronectina fetal, material que “cola” as membranas fetais na parede uterina, mas esse parâmetro também não é completamente confiável.

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.