Limite de 1,5ºC no aumento da temperatura ainda pode ser atingido até 2100

Estudo publicado na Nature Geosciences mostra a possibilidade; pesquisadores reconhecem entraves políticos, como os fomentados pelos EUA, mas afirmam que, com comprometimento global, meta será cumprida

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postado em 19/09/2017 06:00

AFP / John MACDOUGALL

Apesar de tudo parecer contrário à consolidação do Acordo de Paris, um estudo publicado ontem na revista Nature Geosciences indicou que o objetivo principal do compromisso ainda tem potencial de ser alcançado. Os autores, porém, avaliaram modelos geocientíficos e não consideraram as intempéries políticas que rondam o texto consolidado na capital francesa. Segundo o artigo, liderado por pesquisadores da Universidade de Oxford, o mundo ainda pode emitir 240 bilhões de toneladas de dióxido de carbono — o equivalente a 20 anos das emissões atuais — e conseguir chegar a 2050 com a temperatura limitada a 1,5ºC daquela registrada na era pré-industrial.


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De acordo com Myles Allen, professor do Instituto de Mudanças Ambientais da Universidade de Oxford, para isso, o mundo “terá de seguir as reduções ambiciosas” do acordo, contudo. Em uma teleconferência de imprensa, o principal autor do trabalho, Richard Millar, também de Oxford, afirmou que os países podem cumprir o Acordo de Paris, caso se mostrem bastante comprometidos. “Algo que não estamos vendo até agora”, ressaltou.

Segundo os pesquisadores, as estimativas pessimistas de que não seria possível alcançar a meta se baseavam em modelos e projeções já ultrapassadas. Um deles, produzido pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo, estimava que em cinco anos, o limite de 1,5ºC já seria atingido. “Muita gente disse que 1,5ºC simplesmente não seria possível”, disse Myles Allen. “Mas nosso trabalho mostra que há uma chance de 66% de se alcançar a meta em 2100, caso o orçamento de carbono (quantidade que se pode emitir para se chegar a determinada temperatura) seja de 240 bilhões de toneladas e carbono e assumindo que outros gases de efeito estufa, como metano, também estão sob controle”, afirma.


Ambição


Os cientistas explicaram que um cenário usado frequentemente para medir a ambição nos cortes de carbono, chamado RCP2.6 pelo IPCC, projeta cortes cada vez maiores de CO2 à medida que o tempo passa. Contudo, outro autor do estudo, Michael Grubb, da Universidade College London, diz que isso é praticamente impossível, e que reduções como as esperadas por esse modelo só foram viáveis em momentos de crise política e econômica, como a depressão de 1930, a Segunda Guerra Mundial e o fim da União Soviética. Ele defende cortes menores, contudo iniciados de imediato.

Para Grubb, o movimento de saída dos EUA do Acordo de Paris não deve provocar o impacto negativo sob as metas, conforme se imagina. De acordo com ele, outros países, assim como cidades e estados norte-americanos estão colocando pressão no corte de emissões, principalmente devido ao atrativo econômico oferecido por meios de energia renovável, cada vez mais barata. Ainda assim, Grubb avisa: “A começar pela revisão global das metas no próximo ano, os países têm de deixar a economia do carvão e fortalecer metas existentes para manter as portas abertas aos objetivos de Paris. O quanto antes as emissões começaram  a cair, menor o risco não apenas de crises climáticas maiores, mas também de crises econômicas que podem ocorrer, caso seja necessário fazer reduções a taxas sem precedentes”.

Trump volta a atacar

 
O governo norte-americano voltou a dizer, ontem, que os Estados Unidos devem abandonar o Acordo de Paris, celebrado em dezembro de 2015. O principal conselheiro econômico de Donald Trump, Gary Cohn, reiterou a ministros do meio ambiente reunidos em Montreal, no Canadá, que o presidente continua firme na decisão de virar as costas aos objetivos e metas acordados por 195 países na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP) ocorrida na capital francesa. Em junho, o presidente norte-americano disse, em um discurso, que, “sendo uma pessoa extremamente preocupada com o meio ambiente como eu sou, acho inadmissível que os Estados Unidos permaneçam em um acordo 
que os prejudicarão”.
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