Paciente em coma há 15 anos tem nervo vago estimulado e surpreende médicos

Para os autores do experimento, detalhado na revista Current Biology, a abordagem pode render resultados ainda melhores

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postado em 26/09/2017 06:30

Seja por acidentes ou por problemas graves de saúde, como um derrame, indivíduos podem acabar presos a um estado de mínima consciência ou vegetativo. Não há alternativas na medicina para reverter esses quadros clínicos, limitação que desafia cientistas. Uma equipe da França aposta na técnica de estimulação do nervo vago — órgão que faz a ponte entre o coração e o cérebro — e comemora resultado promissor. Submetido ao tratamento, um homem em coma há 15 anos apresentou sinais de consciência. Para os autores do experimento, detalhado na revista Current Biology, a abordagem pode render resultados ainda melhores.
 

A estratégia surgiu com base em estudos mostrando a ligação do nervo vago com o sistema nervoso central. “Sabemos que esse nervo modula uma atividade cerebral importante que nos ajuda a ficar acordados e muitas outras regiões importantes para funções vitais, como o núcleo dorsal da rafe, também ligado ao sono, e o tálamo, que é uma importante estrutura de retransmissão de informações. Além disso, a atividade do nervo vago aumenta a neurotransmissão dentro da via noradrenérgica, que é importante para excitação, alerta e resposta de luta ou fuga”, detalha ao Correio Angela Sirigu, pesquisadora do Instituto de Ciências Cognitivas Marc Jeannero e principal autora do estudo.

Os pesquisadores implantaram um estimulador do nervo vago no peito de um homem de 35 anos que estava em estado vegetativo desde os 20 anos, após sofrer um acidente de carro. Depois de um mês de estimulação elétrica, a atenção, os movimentos e a atividade do cérebro do paciente melhoraram significativamente. Ele também realizou movimentos que antes não conseguia, como seguir um objeto com os olhos e virar a cabeça, quando solicitado. “Sua capacidade de manter a atenção, como ficar acordado ao ouvir seu terapeuta ler um livro, também foi aprimorada”, complementa Angela Sirigu.

Respostas à ameaça também foram constatadas após a intervenção médica. “Por exemplo, quando a cabeça do examinador se aproximava repentinamente do rosto do paciente, ele reagia com surpresa ao abrir os olhos, o que indica que estava plenamente consciente de que o examinador estava muito perto dele”, explica a pesquisadora.
 
Outro ponto destacado pelos cientistas foram as mudanças cerebrais detectadas por técnicas de monitoramento. O sinal chamado TETA EEG, um ritmo cerebral usado para distinguir pacientes vegetativos de indivíduos minimamente conscientes, aumentou significativamente em áreas cerebrais importantes para o movimento, as sensações corporais e a conscientização. “A terapia aumentou a comunicação entre essas regiões cerebrais através do fortalecimento de sua conectividade funcional. Em suma, mostramos que, ao estimular uma das principais aferências cerebrais, o nervo vago, é possível aumentar a presença do paciente no mundo”, diz a autora.

Escolha estratégica

A escolha de um participante que estava em coma por mais de uma década foi proposital, para dar mais validade ao trabalho experimental e colocar em xeque a crença geral de que transtornos da consciência que persistem por mais de 12 meses são irreversíveis. “Escolhemos um paciente que estava em estado vegetativo há 15 anos, não mostrando sinais de mudança desde o acidente de carro. Portanto, nós nos colocamos em um desafio difícil selecionando um paciente com o pior resultado. Isso mostra que os resultados atingidos não são questão de sorte ou acaso”, ressalta Angela Sirigu. “A plasticidade cerebral e o reparo do cérebro ainda são possíveis mesmo quando a esperança parece ter desaparecido.”

A estimulação do nervo vago é usada para o tratamento de depressão e epilepsia. No caso da retomada da consciência, a abordagem havia sido testada em animais. “Encontramos exatamente o que previmos com base no padrão de alterações cerebrais observadas após a estimulação do nervo vago em cobaias. Foi também particularmente reconfortante descobrir que as mudanças que observamos após a estimulação combinam perfeitamente com o que é relatado em pacientes humanos quando seu estado clínico muda espontaneamente de vegetativo para minimamente consciente. Isso sugere que nossa técnica ativou um mecanismo fisiológico natural”, frisa a autora.

Nasser Alan, neurologista e pesquisador associado do Laboratório de Neurociências e Comportamento da Universidade de Brasília (UnB), explica que o nervo vago tem conexões diversas com o sistema nervoso e outros órgãos. Um indivíduo pode perder a consciência devido a lesões que fazem com que seja interrompida a comunicação com regiões abaixo do cérebro. “Quando você estimula esse órgão, ele faz com que as conexões perdidas sejam retomadas, mesmo que poucas, numa melhora progressiva”, diz.

Para o médico, o trabalho francês surge como opção terapêutica nova e necessária. “É um estudo muito interessante, porque traz uma outra perspectiva de abordagem para pacientes que, por sequelas causadas por acidente ou por derrames, por exemplo, perderam a consciência. Hoje, temos apenas o uso de estimulação magnética transcraniana como terapia de recuperação”, ressalta.

O especialista acredita, inclusive, que o uso das duas técnicas é um passo a ser explorado. “Unir as duas formas de estimulação seria uma outra forma interessante de avaliar a eficácia dos tratamentos, além de avaliar pacientes com características diferentes, como os que estão há pouco tempo nesse estado. Sabemos que, depois de um ano em coma, as chances de retomada da consciência caem bastante”, justifica.

Mais testes

Angela Sirigu e a equipe pretendem se dedicar inicialmente à ampliação do experimento.  “Penso que, após esse relato de caso, devemos considerar testar um número maior de pessoas. Especificamente, acredito que esse tratamento pode ser importante para pacientes minimamente conscientes, dando-lhes mais chances de se comunicar com o mundo externo. Alterações, mesmo em pacientes clínicos graves, são possíveis quando a intervenção certa é apropriada e poderosa”, frisa a autora do estudo. 

Para isso, ela planeja conduzir um estudo colaborativo envolvendo vários centros de pesquisa clínica. “Mas, como neurocientista cognitiva, meu objetivo é também compreender os mecanismos neurais envolvidos. Então, mais pesquisas básicas também serão importantes para avançar a nossa compreensão dessa fascinante capacidade de nossa mente em produzir consciência”, pondera.
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