Em novo teste, coquetel de anticorpos bloqueia totalmente o vírus zika

Aplicadas em macacos, moléculas retiradas de paciente infectado apresentam índice de proteção de 100%. Em dois ou três anos, a fórmula poderá se usada para imunizar mulheres grávidas

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postado em 06/10/2017 06:00

AFP / Apu Gomes


Uma estratégia de tratamento anticancerígena pode render proteção contra o zika. Pesquisadores brasileiros, em parceria com cientistas norte-americanos, identificaram, em amostras sanguíneas de um paciente infectado, três anticorpos monoclonais que se mostraram promissores no combate ao vírus. Ao serem aplicadas em macacos, as moléculas do sistema de defesa impediram que os animais fossem infectados. Os autores do estudo, publicado na edição desta semana da revista Science Translational Medicine, acreditam que os resultados poderão ser transformados em uma estratégia preventiva, principalmente para gestantes.



Os anticorpos monoclonais foram retirados de um paciente em fase aguda de infecção pelo vírus zika graças à engenharia genética. Em laboratório, os cientistas identificaram 91 anticorpos nas amostas, que foram extraídos, isolados e purificados. Ao expor as substâncias ao vírus, três delas — SMZAb1, SMZAb2 e SMZAb5 — se mostraram altamente promissoras quanto ao critério preventivo.

“Quando a pessoa tem o zika, o organismo dela começa a montar uma resposta imune contra o vírus, e parte dessa resposta é gerar anticorpos. Alguns deles vão se ligar bem ao vírus para combatê-lo, e outros, não. O que fizemos foi encontrar quais eram os mais eficientes”, explica ao Correio David Watkins, imunologista da Universidade de Miami e um dos autores do estudo.

O coquetel foi testado em quatro macacos rhesus, que foram expostos a uma amostra do vírus zika um dia depois de receber a terapia. A amostra foi isolada em 2016 pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC), no Rio de Janeiro, e retirada de um paciente que residia na cidade. “Essa parte é muito importante para o experimento porque fizemos questão de escolher um vírus que causou problemas graves, que já havia se mostrado forte. Dessa forma, conseguimos ter mais certeza da eficácia do coquetel, garantindo mais precisão aos resultados”, ressalta Watkins.

O coquetel conseguiu bloquear a replicação do vírus zika nos animais. Por meio de amostras de sangue dos primatas —coletadas no segundo, terceiro, sétimo, 14º e 21º dia após a infecção —, os pesquisadores constataram que os anticorpos monoclonais evitaram em 100% a replicação do vírus nos quatro macacos que receberam a fórmula protetiva.

“Eu não fazia ideia de que encontraríamos esses resultados e fiquei muito animado quando vi o que aconteceu. No mesmo dia, também realizamos um procedimento igual com outros quatro primatas não humanos. Eles receberam anticorpos que não eram tão eficientes, e esse grupo de cobaias mostrou uma alta replicação do vírus em suas amostras sanguíneas”, conta o pesquisador.

Longa duração

Resultados de testes posteriores também animaram a equipe. Os anticorpos monoclonais permaneceram ativos e em concentrações altas por quase seis meses no organismo dos macacos. Os autores do estudo acreditam que, se usado em humanos, o coquetel poderá ser uma opção para grupos que precisam de uma proteção extrema, como gestantes. “Esse é um tratamento temporário, que pode ser muito eficaz durante um período determinado, como em mulheres que pretendem engravidar e vivem em área de alto risco de infecção. Seria uma opção para uma situação especial”, explica Myrna Bonaldo, chefe do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do IOC e também autora do estudo.

Watkins também ressalta que a terapia de anticorpos monoclonais poderá ser benéfica às mulheres. “O zika não é como a dengue, seus sintomas são mais leves e, às vezes, até nem aparecem em pessoas que contraem a doença. Mas, em grávidas, os danos podem ser devastadores. Esse método é altamente promissor para a prevenção de malformações congênitas e efeitos adversos do feto, que ocorrem comumente nos casos de infecção pelo zika.”

Para Leandro Machado, infectologista do Hospital Brasília, a pesquisa traz resultados animadores. “É uma tática muito interessante, chamada na área médica de imunização passiva, quando você faz com que a pessoa tenha o anticorpo mesmo sem entrar em contato com o vírus. Esses pesquisadores conseguiram ter sucesso com essa medida, impedindo a replicação viral”, comenta.

Mais testes

Segundo o médico, a equipe de estudiosos precisa avaliar outros pontos importantes para o uso dos anticorpos monoclonais. “Ainda é necessário estabelecer o tempo que esses anticorpos terão eficácia no organismo e também se eles podem impedir os danos cerebrais que são causados aos bebês. Por isso, a necessidade de avaliar primatas grávidas também”, explica.O infectologista frisa ainda que o fato de a técnica já ser usada para tratamentos médicos pode facilitar uma futura prescrição contra o zika. “O uso de anticorpos monoclonais é feito no tratamento de tumores, o que mostra que a técnica tem segurança. Isso conta positivamente para um novo uso em humanos”, justifica.

Os cientistas estimam que o coquetel poderá ser comercializado em cerca de dois ou três anos, mas adiantam que mais testes são necessários. A próxima etapa envolverá análises em primatas grávidas e, em seguida, testes clínicos (com humanos). A descoberta já está com pedido de patente nos Estados Unidos.


"Esse é um tratamento temporário, que pode ser muito eficaz durante um período determinado, como em mulheres que pretendem engravidar e vivem em área de alto risco de infecção”
Myrna Bonaldo, chefe do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do IOC e coautora do estudo

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