Uso de smartphones a noite pode prejudicar cérebro em desenvolvimento

O uso de smartphone e tablet durante a noite tem levado crianças a dormir menos do que o recomendado, mostra estudo inglês.

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postado em 15/10/2017 08:00

Valdo Virgo/CB/D. A Press

Não faz muito tempo, o que deixava as crianças insones era o medo de monstros debaixo da cama. Hoje, a ameaça é outra, e quem fica assombrado, na verdade, são os pais. O uso de smartphones e tablets está roubando um tempo precioso do sono de meninos e meninas. Justamente eles, que precisam dormir mais que os adultos, pois o cérebro está em pleno desenvolvimento. As consequências são muitas e negativas: faltas na escola, queda nas notas, dificuldade de concentração e memorização, entre outras. Sem falar em impactos mais graves, como aumento do risco de pensamentos suicidas, no caso dos adolescentes.

“Muitas crianças não estão tendo a quantidade de sono que acreditamos ser saudável, e sabemos que dormir menos do que o necessário tem impactos negativos sobre muitos aspectos acadêmicos e físicos. Precisamos levar o sono mais a sério e, do ponto da saúde pública, temos de disseminar a ideia de que, da mesma forma que sabemos que crianças não devem fumar e precisam de uma boa alimentação, dormir é parte de um estilo de vida saudável”, afirma a psicóloga Anna Weighall, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Leeds, no Reino Unido. Há três dias, ela apresentou, na conferência anual da Sociedade Britânica do Sono, os resultados de uma pesquisa que comprova o que diz.

O estudo foi feito com 1,1 mil crianças britânicas de 6 a 11 anos. Os pesquisadores descobriram que 36% dormiam oito horas ou menos por noite, sendo que, para essa faixa etária, a recomendação é de 10 horas de sono. Houve casos piores na amostra: um em cada sete meninos e meninas dormia sete horas ou menos. De acordo Weighall, ao comparar esses dados com os hábitos dos participantes, descobriu-se uma forte associação entre a falta de sono e o acesso a celulares e tablets. “Se a criança não tem a tecnologia no quarto, ela vai se desligar dos aparelhos antes. Então, haverá um intervalo maior entre o uso da tecnologia e a tentativa de dormir. Isso dará a ela, provavelmente, uma hora e meia ou mais de sono, o que faz uma grande diferença”, diz a psicóloga.
Os pais das crianças participantes responderam a questionários em que, além dos hábitos de sono dos pequenos, descreveram a rotina familiar e falaram sobre o desempenho acadêmico dos filhos. Mais uma vez ficou clara a associação, diz Weighall. As crianças que dormiam menos que o recomendado faltavam mais aulas e tinham notas mais baixas. Além disso, elas se queixavam de cansaço durante o dia, dificuldade de concentração e memorização. Vinte e nove por cento das que dormiam pouco disseram à família que tinham insônia porque estavam preocupadas com as tarefas da escola e 16% revelaram que a dificuldade de cair no sono se dava por preocupação com bullying e amizades.

O médico do sono e psiquiatra da infância e da adolescência Rafael Vinhal, do Instituto Castro e Santos, afirma que, embora a pesquisa tenha sido realizada na Inglaterra, ela é numericamente expressiva e reflete a realidade mundial. “Podemos extrapolar esses dados para o Brasil, especialmente quanto ao uso de tablets e celulares”, diz. Ele destaca outra importante informação da pesquisa: 40% dos pais entrevistados admitiram que dormiam pouco, e um quarto deles dormia cinco horas ou menos por noite. “A má higiene do sono é um problema de toda a família. Os pais estão sendo permissivos e coniventes ao deixar as crianças levarem celular e tablet para o quarto. Esses são casos de insônia por falta de limites, por falta de rotinas e de regras claras dentro de casa”, critica.

Maus exemplos


Presidente do Departamento de Saúde na Escola da Sociedade de Pediatria do DF, Fabiana Mendes lembra que, se os pais não derem o exemplo, as crianças continuarão usando a tecnologia na hora em que deveriam estar dormindo. “Os pais chegam à noite em casa e ficam no tablet ou no celular. Eles dão o mau exemplo, e as crianças repetem o que estão vendo”, diz. De acordo com a pediatra, estudos já calcularam o tempo que as mídias eletrônicas roubam do sono dos pequenos. “Neste ano, foi publicado um trabalho na Scientific Reports mostrando que, a cada uma hora de uso de tablet por dia, há redução de 16 minutos de sono. Pode parecer pouco, mas não é. O impacto é muito grande”, afirma. “São 16 minutos a menos de pleno funcionamento do cérebro. Dormir é apreender. Muitas vezes, quando estamos com um problema, nós dormimos e, ao acordar, temos a solução. Imagine uma criança, cujo cérebro está se desenvolvendo. O impacto da falta de sono sobre a concentração e o aprendizado é enorme e pode ser irreversível”, alerta.

Além da influência nas habilidades associadas à vida acadêmica, a falta de dormir afeta outros aspectos da vida da criança. Segundo Rafael Vinhal, já se comprovou que a privação do sono aumenta a ansiedade e a irritabilidade, elevando, inclusive, o risco de depressão. Nos adolescentes, o psiquiatra afirma que, inclusive, isso pode desencadear ideação suicida. Outro impacto negativo é que, no caso dos jogos, trocar a cama por eles tem potencial de deflagrar a dependência em games, uma condição que já é considerada transtorno psiquiátrico pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, obra de referência da área.

Deixar de dormir à noite por qualquer motivo é ruim. Porém, Vinhal explica que, no caso dos eletrônicos que emitem luz, é ainda pior. A iluminação desses aparelhos estimula o cérebro, além de inibir a produção da melatonina, um dos hormônios do sono. “Se a criança está usando a tecnologia perto da hora de dormir, isso vai atrasar o sono, mesmo quando ela desliga o aparelho”, concorda Anna Weighall. Para evitar esses problemas, a pediatra Fabiana Mendes recomenda que os pais mudem suas rotinas, deixando os equipamentos de lado à noite; instituam brincadeiras e atividades mais tranquilas, como a leitura, e não permitam que os pequenos tenham tevê no quarto, nem levem para o ambiente celulares e tablets.

"A má higiene do sono é um problema de toda a família. Os pais estão sendo permissivos e coniventes ao deixar as crianças levarem celular e tablet para o quarto. Esses são casos de insônia por falta de limites"
Rafael Vinhal, médico do sono e psiquiatra da infância e da adolescência do Instituto Castro e Santos

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