Erva tradicional na medicina chinesa é cancerígena, diz estudo

Ácidos presentes em ervas da família Aristolochia podem desencadear tumores no fígado, segundo estudo com amostra global de pacientes. As substâncias já haviam sido ligadas a cancros no trato urinário

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postado em 19/10/2017 06:00

 

Alopáticos ou homeopáticos, os medicamentos demandam cuidado durante a ingestão. Os efeitos colaterais de um tratamento descuidado podem ser piores que a condição a ser curada. Um estudo divulgado na edição desta semana da revista Science Translational Medicine detalha essa adversidade. Pesquisadores asiáticos e americanos analisaram amostras de tumores de fígado de pacientes de diferentes países e encontraram mutações provocadas por substâncias presentes em ervas da família Aristolochia, comumente usadas na fitoterapia.

 

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Os ácidos aristolóquicos (AAs), presentes nas ervas, já haviam sido apontados como provocadores de insuficiência renal e câncer de trato urinário. Por isso, produtos à base dessas plantas foram proibidos nos Estados Unidos e na Europa, em 2001, e em Taiwan, em 2003. “Esses ácidos foram vistos como uma toxina renal e carcinogênica em 1990, quando aproximadamente 100 mulheres em uma clínica de perda de peso belga desenvolveram insuficiência renal. Descobriu-se que elas receberam uma erva contendo os AAs. Mais tarde, algumas tiveram câncer no trato urinário”, explica ao Correio Steve Rozen, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade de Duke, nos Estados Unidos.


As moléculas de AAs são danosas à saúde porque conseguem causar mutações no DNA, que podem ativar genes que causam câncer ou desligar os genes que previnem o câncer, segundo Rozen. Para conhecer melhor esse mecanismo, ele e colegas criaram uma tecnologia capaz de identificar as mudanças genéticas provocadas pelos ácidos. “Você pode pensar em seu genoma como uma longa sequência das letras  A, C, G e T,  cerca de 3 bilhões no total. Elas são as ‘instruções’ que dizem às células como funcionar, da mesma forma como um programa de computador diz aos computadores o que fazer”, ilustra.

 

As mutações genéticas ocorrem quando a forma como as letras se dispõem é alterada, uma ação provocada pelos AAs. A análise de amostras de câncer do fígado de pacientes de Taiwan mostrou que 76 das 98 (78%) provavelmente se originaram do contato com os ácidos. Os pesquisadores ressaltam que essa prevalência de mutações associadas à substância mostra que o uso das plantas não diminuiu com a proibição feita pelo governo.

 

Os cientistas também analisaram dados de um estudo global de tumores — Cancer Genome Atlas — e detectaram assinaturas de AAs em 42 de 89 cânceres hepáticos em pessoas da China (47%), cinco de 26 do Vietnã (19%), cinco dos nove de outros países do Sudeste Asiático (56 %), 10 em 209 da América do Norte (5%) e quatro em 230 da Europa (1,7%). “Acho que essa descoberta definitivamente pode ajudar na prevenção do câncer e acredito que é muito importante que as pessoas parem de usar essas plantas”, ressalta o investigador.
Brasil 

A equipe analisou amostras de cinco pacientes brasileiros. Um deles mostrou mutações relacionadas ao contato com os AAs. “O número de pacientes foi tão pequeno que não enfatizamos isso no artigo. Então, quase não temos ideia de como esses ácidos estão relacionado ao câncer de fígado no Brasil, mas sabemos que as plantas que o contêm foram usadas, há muito tempo, como medicamentos à base de plantas no Brasil, como a espécie Aristolochia cordigera”, diz Rozen.


Adriana Castelo Moura, oncologista gastrointestinal do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, avalia que os resultados do trabalho reforçam o cuidado que se precisa ter ao consumir produtos que prometem ganhos à saúde. “As pessoas precisam entender que não podem consumir produtos aleatoriamente porque o que parece ser inofensivo por ser natural pode trazer danos graves, como o câncer”, ressalta. “Temos muitas pessoas que buscam remédios desse tipo para emagrecer. Na internet, há várias opções. Muitas vezes, essas ervas podem estar misturadas a outras, não sendo a planta principal”, alerta.


A médica ressalta que o trabalho internacional pode ajudar a entender as causas dos tumores de fígado, que nem sempre são determinadas facilmente. “Geralmente, esse câncer está ligado ao alcoolismo ou à hepatite B. Se há um paciente sem esses problemas, precisa-se descobrir a causa. Com esse tipo de análise, conseguiremos encontrá-la”, explica. Adriana Moura também frisa que mais investigações são necessárias para entender os efeitos das ervas estudadas. “Pode ser que o uso  em uma quantidade menor traga benefícios, mas isso ainda não foi visto. É necessário esclarecer essa questão.”


Os autores acreditam que a pesquisa renderá outras descobertas interessantes para a área médica. “A etapa número 1 é alertar mais pessoas sobre os perigos de usar ervas que contenham AAs. Também precisamos aprender sobre a prevalência de exposição a esses ácidos e cânceres em áreas do mundo que não foram estudadas extensivamente, mas onde suspeitamos que essas ervas são usadas. Essas áreas incluem a África e as américas Central e do Sul”, adianta  Rozen.

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