Bactérias encontradas em pacientes com asma apontam cura para a doença

A gravidade da doença poderá ser identificada pela análise do microbioma pulmonar. Método ajudará tratamentos personalizados

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postado em 08/11/2017 06:00 / atualizado em 08/11/2017 02:23

Estudos têm mostrado o quanto a diversidade de bactérias no corpo humano pode influenciar no surgimento de enfermidades, como o diabetes e o lúpus. A microbiota do intestino tem sido o alvo desses estudos, mas um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos desconfiou que o mesmo processo poderia estar relacionado à asma. Ao analisar a composição de micro-organismos presentes nos pulmões de pessoas com a complicação respiratória, eles não só confirmaram a hipótese como descobriram que o tipo do microbioma pulmonar pode ajudar a identificar a gravidade da doença. Os resultados, publicados na revista PLOS ONE, poderão contribuir para a criação de tratamentos personalizados mais eficazes e até impedir que se chegue à condição crônica da asma.

Autora principal do estudo, Patricia W. Finn conta que entender melhor mecanismos ligados aos transtornos respiratórios era algo que a desafiava havia algum tempo. “Tenho um interesse antigo no desenvolvimento de alergias e asma. Com o advento de tecnologias que nos permitem identificar milhares de espécies bacterianas que colonizam nosso corpo, resolvemos analisar a relação entre essas bactérias e a resposta imune asmática”, diz a também pesquisadora da Universidade de Illinois.

Finn e a equipe analisaram um grupo de pacientes com idade entre 18 e 30 anos e asma leve ou moderada. Os pesquisadores usaram um exame semelhante à colonoscopia e testes de função pulmonar, como o sopro, para chegar a dois fenótipos de asma: AP1 e AP2.

O AP1 tem como características a presença de citocinas T helper (Th1), que são pró-inflamatórias, o aumento da bactéria enterococcus (ligada à asma) e a atividade normal nas análises de função pulmonar. Pacientes com esse fenótipo têm a asma leve. O AP2 denuncia a condição mais grave da doença respiratória, mostrando citocinas pró-inflamatórias em quantidade aumentada, alta presença de bactérias relacionadas à pneumonia e desempenho anormal em testes de função pulmonar.

Segundo Finn, a asma é conduzida principalmente por um processo inflamatório, alvo da maioria das terapias disponíveis. E as bactérias contêm e produzem pequenas moléculas que podem aumentar ou diminuir essas inflamações. “Isso nos diz que a microbiota tem uma relevância ainda maior do que se pensava, se tornando um biomarcador em potencial para a asma”, ressalta David Perkins, também autor do estudo e professor de medicina e cirurgia da Universidade de Illinois.

Para os autores, os resultados reforçam as evidências de que indivíduos com doenças crônicas mais comuns, como a asma, seriam beneficiados se submetidos a terapias mais específicas. “Nem todos os asmáticos são semelhantes em suas reações clínicas, imunológicas e agora, como mostramos, em seu comportamento microbiológico. Isso significa que as novas intervenções devem ser direcionadas a subtipos de asma para melhorar os resultados dos pacientes. Esses achados podem constituir a base para a medicina personalizada”, defende Finn.

Novos desafios

Tanto no fenótipo AP1 quanto no AP2, as associações entre a composição do microbioma e a presença de citocinas inflamatórias específicas diminuíram após o tratamento com a inalação de corticosteroide, uma terapia comum da asma. Para os pesquisadores, por meio dos novos biomarcadores, os médicos poderão identificar o tipo de asma e tratá-la com terapias específicas, prescrevendo, inclusive, a ingestão de probióticos.

“Essa diferenciação poderia realmente ajudar em um tratamento personalizado, com o uso de um probiótico que auxiliasse a pessoa que tem asma, mas muito ainda precisa ser estudado para que essas suspeitas se confirmem”, ressalta Bruno Acatauassu Paes Barreto, especialista da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI). Segundo o especialista, a avaliação da microbiota pulmonar tem sido abordada também em estudos de alergias, como a dermatite atópica.

Os investigadores reconhecem que muitas perguntas sobre a microbiota pulmonar e sua relação com a asma ainda precisam ser respondidas. A intenção deles é analisar principalmente a composição bacteriana de crianças, já que a asma é um problema que se manifesta geralmente nessa etapa da vida. “Estamos estudando ativamente a microbiota perinatal em relação a uma doença alérgica posterior. A intenção é entender não apenas como a microbiota influencia a doença depois que ela se manifestou, mas como essas bactérias podem originar a enfermidade”, adianta Finn.

"Isso significa que as novas intervenções devem ser direcionadas a subtipos de asma para melhorar os resultados dos pacientes. Esses achados podem constituir a base para a medicina personalizada” 
Patricia W. Finn, autora principal do estudo e pesquisadora da Universidade de Illinois




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