Terapia genética recupera 80% da pele de criança com epidermólise bolhosa

Para especialistas, método poderá melhorar outros tratamentos de males hereditários

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postado em 09/11/2017 06:00

A pele, escudo protetor dos humanos, pode sofrer danos críticos e até mesmo irreversíveis. Rara doença genética, a epidermólise bolhosa — epidermolysis bullosa sunctional (JEB) — faz parte das grandes ameaças ao maior órgão do corpo. E cientistas italianos têm testado recursos da intervenção genética para essa complicação. A técnica testada em uma criança com um tipo de JEB renovou quase 80% da pele comprometida, segundo estudo divulgado na edição desta semana da revista britânica Nature.
 

A epidermólise bolhosa é provocada por mutações nos genes LAMA3, LAMB3 ou LAMC2. Essas falhas afetam a proteína laminina-332 — um componente da membrana da epiderme — levando ao surgimento de bolhas na pele, feridas crônicas e até câncer. “As mutações que causam ausência de laminina-332 são geralmente letais no início da vida. Não há cura para JEB e mais de 40% dos pacientes morrem antes da adolescência. Os tratamentos sintomáticos disponíveis só aliviam as devastadoras manifestações clínicas”, explicaram os autores no estudo, que foi liderado por Michele De Luca, professor da Universidade de Modena, na Itália.

De Luca e a equipe basearam-se em tratamentos experimentais realizados em dois pacientes com epidermólise bolhosa. A pesquisa forneceu evidências de que o transplante de culturas epidérmicas transgênicas — grupos de células epidérmicas geneticamente modificadas para apagar a mutação — pode gerar uma epiderme funcional, que leva à correção das lesões provocadas pela epidermólise bolhosa. Nessa ocasião, porém, apenas uma pequena área de pele dos voluntários foi reconstruída.

No experimento atual, os cientistas retiraram células da pele de uma área do corpo sem bolhas de uma criança de 7 anos que sofria com epidermólise bolhosa juncional, um dos tipos mais graves da doença, provocado por mutações no gene LAMB3. A partir dessas células, foram criadas culturas de queratinócitos (células produtoras de queratina), que foram geneticamente modificadas para corrigir a mutação do LAMB3, fazendo com que o gene passasse a se expressar normalmente.

Os enxertos epidérmicos transgênicos criados nessa primeira técnica foram aplicados na ferida da criança, cobrindo completamente a superfície corporal afetada. Ao longo de 21 meses, a epiderme do paciente se regenerou e aderiu firmemente à derme subjacente, se curando totalmente. “Vimos que as células estaminais epidérmicas transgênicas podem regenerar uma epiderme, a tornando totalmente funcional e indistinguível de uma epiderme normal”, detalharam os autores.

Para a equipe, os resultados podem gerar uma nova terapia contra a epidermólise bolhosa, que tem poucas opções terapêuticas. “Diferentes formas de epidermólise bolhosa afetam aproximadamente 500 mil pessoas em todo o mundo. O resultado positivo desse estudo prepara o caminho para uma terapia genética que possa tratar outros tipos da doença e fornece um modelo que pode ser aplicado em outros tipos de terapias combinadas (que envolvem células e modificação de genes)”, destacaram.

Otimismo

O dermatologista Ricardo Fenelon avalia que a terapia proposta pelos cientistas é interessante, mas precisa ser mais explorada para que chegue à clínica. “Ainda é uma técnica experimental, e a análise foi feita em apenas um paciente. Um estudo com um número maior de pessoas é necessário para comprovar a eficácia. Mas os resultados mostram um grande benefício, o que nos deixa otimistas. Quem sabe o uso dessa técnica possa nos ajudar a tratar outros tipos de doenças hereditárias que também formam bolhas”, cogita.

O médico destaca que, no caso da epidermólise bolhosa, uma opção mais efetiva de tratamento resultaria em ganho de qualidade de vida. “É uma doença em que se sofre bastante e que, infelizmente, conseguimos apenas tratar os sintomas. Muitas vezes, a criança não sobrevive porque não temos maneiras de tratá-la”, explica.


Já na infância


Há três tipos de epidermólise bolhosa: simples, juncional e distrófica. Todas se manifestam nos primeiros anos de vida. Quando adultos passam a ser acometidos pelo problema, a condição é chamada de epidermólise bolhosa adquirida, complicação ainda mais rara. Os sintomas podem variar conforme o tipo da doença, porém a presença de bolhas é constante em todos eles.

Hora da ferida interfere na cura

Sabe-se cada vez mais da importância do relógio biológico — mecanismo que regula células do corpo humano por meio de ciclos de 24 horas, influenciando processos como sono, secreção hormonal e metabolismo. Ele também parece estar envolvido na cicatrização de feridas, segundo cientistas ingleses. Após analisar células humanas em laboratório e de voluntários vítimas de queimaduras, a equipe identificou que os ferimentos ocorridos durante o dia se curam duas vezes mais rápido que aqueles que acontecem à noite. Os achados foram publicados na edição desta semana da revista Science Translational Medicine.

Os investigadores utilizaram registros de 118 pacientes e observaram que as queimaduras ocorridas das 20h às 8h levavam 60% de tempo a mais para serem curadas. A média foi de 28 dias, comparada à de 17 dias para os ferimentos que aconteceram entre as 8h e as 20h. “Esta é a primeira vez que mostramos a efetividade do relógio circadiano na resposta às lesões. Pode ser que nosso corpo tenha evoluído para se curar mais rápido durante o dia, período em que as lesões são mais prováveis de ocorrer”, explica, em comunicado, John O’Neill, autor principal do artigo e pesquisador do Laboratório de Biologia Molecular do Conselho de Pesquisa Médica (MRC), no Reino Unido.

Os pesquisadores também descobriram que uma das razões para a cura ocorrer de forma mais rápida durante o dia é a movimentação rápida das células da pele para o local da ferida. Elas são impulsionadas pelo aumento da atividade das proteínas envolvidas no movimento e no reparo celular, especialmente a actina, cujos filamentos atuam como um músculo dentro das células.

Constatou-se ainda que, nas feridas diurnas, havia mais colágeno, a principal proteína estrutural da pele. Os pesquisadores observaram que esse processo deve ser conduzido por um dos relógios circadianos internos: o das células, não o central, que rege todo o corpo. Eles chegaram a essa conclusão ao observar o efeito em células de pele humana e de ratos cultivadas in vitro.

Para a equipe, as descobertas podem ter implicações médicas, como melhora em procedimentos de sutura e cicatrização. “Essa pesquisa, pela primeira vez, mostra como os fatores circadianos são importantes para a cicatrização de feridas. Ao levar isso em conta, além da identificação de novos alvos de drogas, podemos gerar mais eficácia das terapias já estabelecidas”, ressalta John Blaikley, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade de Manchester, no Reino Unido.


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