Nível de toxicidade do ar influi no comportamento e pode levar a isolamento

Estudo desenvolvido por cientistas da Universidade de Washington, com a participação de 6 mil voluntários, estabelece pela primeira vez uma associação direta entre a poluição e o estresse psicológico

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postado em 26/12/2017 06:00

Muito se fala da associação entre poluição atmosférica e doenças do trato respiratório. Estudos mostram que as partículas suspensas podem causar e agravar diversas enfermidades pulmonares, incluindo câncer. Porém, recentemente, pesquisadores começaram a investigar a relação da toxidade do ar com outras condições, como obesidade, diabetes e demência. Agora, a lista aumenta, com a inclusão de estresse psicológico. Segundo cientistas da Universidade de Washington, quanto maior o nível de substâncias poluentes, maior o impacto na saúde mental.

O estudo, publicado na revista Health & Place, é o primeiro a usar dados representativos, cruzados com informações sobre poluição, para avaliar a conexão entre toxicidade do ar e saúde mental. “Realmente isso nos coloca em uma nova trajetória quanto aos efeitos da poluição atmosférica. Embora os impactos na saúde cardiovascular e pulmonar já tenham sido bem estabelecidos, essa área da saúde cerebral é completamente nova”, descreve Anjum Hajat, professor de epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Washington.

Os resultados mostraram que o local de residência pode fazer uma grande diferença na qualidade de vida. Os cientistas identificaram determinantes sociais do bem-estar físico e mental, como disponibilidade de alimentos saudáveis em mercados locais, acesso à natureza ou segurança do bairro. A poluição do ar também foi associada a mudanças comportamentais (passar menos tempo em áreas externas, por exemplo, ou se tornar mais sedentário) que podem levar ao isolamento social e ao estresse psicológico.

Com base nas respostas de 6 mil voluntários de um grande estudo longitudinal norte-americano, o Painel de Estudo de Dinâmicas de Renda, os pesquisadores procuraram conexões diretas entra a toxicidade atmosférica e a saúde mental. A equipe se concentrou nas quantidades de matéria fina particulada, uma substância produzida em motores automobilísticos, lareiras e fogões a lenha, além de plantas de emergia abastecidas por carvão ou gás natural. O material particulado (partículas com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro) é facilmente inalado e pode ser absorvido pela corrente sanguínea — por isso, é considerado mais prejudicial que as maiores. Para se ter uma ideia de quão pequeno é, um fio de cabelo humano tem, em média, 70 micrômetros de diâmetro.

Os padrões atuais de segurança para material particulado são de 12 microgramas por metro cúbico. Entre 1999 e 2011 — período examinado pelo estudo —, os respondentes viviam em vizinhanças onde a medição de partículas ficava entre 2,16 e 24,23 microgramas por metro cúbico, com uma média de 11,34. As perguntas com relevância para a pesquisa da Universidade de Washington concentravam-se nos sentimentos de tristeza, nervosismo, desesperança, entre outros, e foram medidas com uma escala de avaliação de estresse psicológico.

A equipe constatou que o risco de sofrer de estresse aumentou proporcionalmente à quantidade de partícula fina no ar. Por exemplo, em áreas com níveis de poluição acima de 21 microgramas por metro cúbico, o estresse psicológico era 17% maior que nas regiões com baixa concentração tóxica (5 microgramas por metro cúbico). Outra descoberta foi que cada aumento de 5 microgramas por metro cúbico na poluição tinha o mesmo efeito na saúde mental que uma perda de 1,5 ano de educação formal.

Impacto

Os pesquisadores controlaram outros fatores físicos, comportamentais e socioeconômicos que podem influenciar a saúde mental, como condições de saúde crônicas, desemprego e excesso de bebida. “Quando os dados foram separados por etnia e gênero, homens negros e mulheres brancas mostraram a mais significativa correlação entre poluição do ar e estresse psicológico”, afirma Victoria Sass, estudante do Departamento de Sociologia e primeira autora do trabalho. O nível de estresse medido em homens negros nas áreas muito poluídas foi 34% maior, comparado a homens brancos, e 55% mais elevado que o verificado em latinos. “Um padrão notável entre mulheres brancas foi o aumento expressivo do estresse, de 39%, à medida que os níveis de poluição passam de baixo para alto”, afirma.

O motivo preciso pelo qual a poluição atmosférica impacta na saúde mental, especificamente entre determinados perfis populacionais, está acima do que foi investigado, pois esse trabalho é observacional, ou seja, procurou encontrar uma relação, mas sem estabelecer causa e efeito. “Por isso, é muito importante que façamos futuras pesquisas nesse tema. Nossa sociedade é segregada e estratificada, o que coloca um peso desnecessário sobre alguns grupos”, observa Sass. Ela lembra, porém, que a poluição pode ser mitigada: “Esse é um problema de saúde com uma solução muito clara, que necessita apenas de políticas para a regulação da qualidade atmosféricas. Devemos pensar nele como um problema que pode ser solucionado”, destaca.

Realmente isso nos coloca em uma nova trajetória quanto aos efeitos da poluição atmosférica. Embora os impactos na saúde cardiovascular e pulmonar já tenham sido bem estabelecidos, 
essa área da saúde cerebral é completamente nova” 

Anjum Hajat, professor de epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Washington

Danos permanentes

Embora os estudos sobre poluição e saúde mental sejam poucos e ainda não apontem a relação de causa e efeito, um trabalho com ratos forneceu algumas pistas sobre como partículas tóxicas no ar podem agir no cérebro. O trabalho foi publicado em 2016 no British Medical Journal por pesquisadores da Universidade de New Rochester. Ratos expostos no início da vida a material particulado, como o produzido por carros, exibiram impulsividade, baixa retenção de memória e dificuldade de aprendizado. Depois que seus cérebros foram examinados, constatou-se, no órgão, danos permanentes, com níveis elevados de glutamato, um neurotransmissor que, em humanos, está associado a autismo e esquizofrenia quando excessivo.
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