Em 50 anos, áreas de oceanos sem oxigênio quadruplicaram, revela estudo

Consequência das mudanças climáticas, o problema inviabiliza a vida marinha e a dos homens que sobrevivem do litoral

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postado em 05/01/2018 06:00

Mark Wilson/Getty Images/AFP


Ainda há quem pense que as florestas são o “pulmão do mundo”. Porém, é dos oceanos que vem o oxigênio necessário para garantir a vida na Terra. Ele, contudo, está sumindo do mar. Um estudo publicado na revista Science revela que, nos últimos 50 anos, a quantidade de água com zero O2 na composição quadruplicou. Em zonas costeiras, como estatuários e mares, locais com baixa concentração do elemento aumentaram mais de 10 vezes desde a década de 1950. As perspectivas não são boas. À medida que a temperatura do planeta cresce, a tendência é só piorar, avisam os cientistas.

 

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“O oxigênio é fundamental para a vida nos oceanos. O declínio do elemento está entre os efeitos mais sérios da atividade humana no meio ambiente da Terra”, afirma Lisa Levin, bióloga oceanógrafa da Universidade da Califórnia em San Diego e uma das autoras do trabalho. De acordo com ela, as consequências não são negativas apenas para a vida marinha. No que diz respeito à atividade econômica dependente do litoral, como o turismo e a hotelaria, todos têm a perder, recorda Levin. “As reverberações dos ecossistemas doentes no oceano podem ser estendidas a hotéis, restaurantes, motoristas de táxi e tudo mais.”

O estudo faz parte do projeto GO2NE (Rede Oxigênio Oceânico Global), um grupo de trabalho criado em 2016 pela Comissão Intergovernamental Oceanográfica das Nações Unidas. De acordo com Lisa Levin, o artigo publicado na Science é o primeiro a analisar causas, consequências e soluções para a queda nos níveis de oxigênio nos oceanos e nas águas costeiras. No trabalho, os cientistas destacam os principais riscos desse problema para o oceano e a sociedade, e o que é necessário para manter a saúde e a produtividade das águas do planeta.

De acordo com Vladimir Ryabinin, secretário executivo da Comissão Internacional de Oceanografia, instituição que formou o grupo GO2NE, aproximadamente metade do oxigênio da Terra vem dos oceanos. “Porém, os efeitos combinados do escoamento de nutrientes e as mudanças climáticas estão aumentando o número e o tamanho das zonas mortas no oceano aberto e nas águas costeiras”, lamenta.

Zonas mortas são áreas como o Golfo do México, em que a concentração de oxigênio é tão baixa que muitos animais sufocam e não resistem. Como os peixes evitam essas regiões, seus hábitats ficam restritos e eles se tornam mais vulneráveis a predadores ou à pesca. Mas o problema vai além das zonas mortas, alerta Ryabinin. Mesmo pequenos declínios no nível do elemento podem comprometer o crescimento em animais, atrapalhar a reprodução e levar a doenças ou à morte. O problema também pode desencadear a liberação de químicos perigosos, como óxido nitroso, um gás de efeito estufa até 300 vezes mais poderoso que o dióxido de carbono, além de sulfeto de hidrogênio tóxico. Enquanto alguns animais podem sobreviver nesses locais, no geral, a biodiversidade sofre grande redução.

Aquecimento

O maior culpado pela falta de oxigênio no oceano aberto são as mudanças climáticas. O aquecimento da água dificulta que o elemento alcance o interior do mar. Além disso, à medida que toda a massa aquática fica mais quente, ela segura menos oxigênio. Em regiões costeiras, o excesso da poluição vinda da terra faz com que as algas se proliferem, o que drena o O2, à medida que elas morrem e se decompõem. Para piorar, os animais também precisam de mais oxigênio quando a temperatura da água está maior.

Além do ecossistema marinho, a vida das pessoas na superfície do planeta está sendo afetada, especialmente nos países em desenvolvimento. Pescadores podem ter dificuldade de encontrar outros locais para desenvolver sua atividade quando o baixo oxigênio obriga os peixes a procurar outros habitats. Nas Filipinas, por exemplo, a morte de peixes em uma única cidade se traduziu em perdas econômicas de mais de US$ 10 milhões. Recifes de corais, uma atração turística-chave em muitos países, também podem desaparecer, sem a quantidade necessária de O2.

 

Valdo Virgo/CB/D.A Press
 

Soluções

Para enfrentar o problema, o mundo precisa agir de três formas, segundo os pesquisadores. A primeira é se concentrar nas causas principais: poluição de nutrientes e mudanças climáticas. Enquanto nenhuma das duas questões é simples de resolver, os passos necessários podem beneficiar tanto os seres humanos quanto o meio ambiente. “Sistemas sépticos e sanitários mais eficientes podem proteger a saúde humana e manter a poluição fora da água. Cortar as emissões de CO2 por combustíveis fósseis não apenas evita os gases de efeito estufa, mas impede o lançamento de poluentes atmosféricos muito perigosos, como o mercúrio”, afirma Lisa Levin.

A outra medida importante é a proteção da vida marinha vulnerável. Segundo a equipe do GO2NE, poupar os peixes de estresse extra é possível ao se criar áreas protegidas ou zonas em que a pesca é proibida em áreas às quais os animais recorrem para escapar do pouco oxigênio. Por fim, melhorar o rastreamento das zonas mortas é essencial, apontam os cientistas. Intensificar o monitoramento, especialmente nos países em desenvolvimento, além de criar modelos para identificar pontos de maior risco são ações importantes na busca de soluções.

“Podemos resolver esse problema”, acredita Denise Breitburg, principal autora do estudo e pesquisadora do Instituto Smithsonian. “Enfrentar as mudanças climáticas requer um esforço global, mas mesmo ações locais podem ajudar a evitar o declínio de oxigênio causado pela poluição de nutrientes”, disse, em nota. Segundo a cientista, na Baía de Chesapeake, o maior estuário norte-americano, a contaminação por nitrogênio caiu 24% graças ao tratamento de esgoto, à melhoria nas práticas agrícolas e a leis bem-sucedidas, como o Ato do Ar Limpo. Lá, as áreas com oxigênio zero praticamente desapareceram.

 

Branqueamento de corais cresce há 40 anos

Os recifes de corais de todo o mundo estão ameaçados pelo aquecimento global, de acordo com artigo publicado na revista Science. Pela primeira vez, uma equipe internacional de pesquisadores mediu a crescente taxa de branqueamento de corais ao longo dos trópicos nas últimas quatro décadas.

 

“O tempo entre os eventos de branqueamento em cada local diminuiu cinco vezes nas últimas três a quatro décadas, desde o início dos anos 1980”, diz o principal autor, Terry Hughes, diretor do Centro de Excelência para Estudos de Recifes de Coral (Coral CoE). “Antes da década de 1980, o branqueamento maciço de corais era incomum, mesmo durante condições fortes do El Niño. Mas, agora, os eventos repetidos de clareamento em escala regional e a mortalidade em massa de corais se tornaram a regra, e não a exceção, no mundo, já que as temperaturas continuam a aumentar.”

 

O branqueamento é uma resposta ao estresse causado pela exposição dos recifes de coral a temperaturas elevadas do oceano. Quando o clareamento é severo e prolongado, muitos dos corais morrem. Leva-se ao menos uma década para substituir as espécies que crescem mais rapidamente. “Os recifes são vítimas de uma era dominada pelo homem, o antropoceno”, diz Mark Eakin, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos. “O clima aqueceu rapidamente nos últimos 50 anos, tornando o El Niño perigoso para os corais. Agora, estamos vendo o surgimento de branqueamento em todos os verões”, alerta.

 

Somente a Grande Barreira de Corais, na Austrália, sofreu quatro branqueamentos desde 1998, incluindo os eventos consecutivos em 2016 e 2017, o que causou danos sem precedentes. “No entanto, o governo australiano continua a apoiar os combustíveis fósseis”, diz Hughes. “Esperamos que nossos resultados ajudem a estimular ações mais fortes, necessárias para reduzir os gases de efeito estufa na Austrália, nos Estados Unidos e em outros lugares do planeta”, conclui. 

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