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Estado de Minas

Sobrevida de pessoas com câncer é mais baixa nos países pobres

Sobrevida global ao câncer aumentou nos últimos 15 anos, mas persistem diferenças regionais, segundo estudo com dados de 71 países. Brasil teve melhora significativa em linfoma pediatra, segundo pesquisadora


postado em 31/01/2018 09:00 / atualizado em 01/02/2018 19:07

Marly enfrenta o segundo tratamento de câncer de mama, que está em remissão: detecção precoce faz a diferença(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Marly enfrenta o segundo tratamento de câncer de mama, que está em remissão: detecção precoce faz a diferença (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


Nos últimos 15 anos, a sobrevivência ao câncer aumentou em todo o mundo, inclusive nos casos de pulmão e fígado, que estão entre os mais letais. Persistem, porém, diferenças regionais, refletindo a disponibilidade e o acesso aos sistemas de saúde, segundo um estudo global divulgado na edição de ontem da revista médica The Lancet. No Brasil, os dados mostram um desempenho irregular: em relação a próstata e linfomas pediátricos, a taxa de pacientes que continuam vivos após cinco anos do diagnóstico melhorou em uma década e meia. Por outro lado, piorou ou se manteve estável nos outros tipos da doença avaliados pelo trabalho.

O Global surveillance of trends in cancer survival 2000–2014 é o maior estudo epidemiológico a investigar os padrões de sobrevivência dos pacientes de câncer, com dados de 37,5 milhões de crianças e adultos de 71 países. Os autores analisaram estatísticas dos 18 tumores mais frequentes, responsáveis por dois terços das ocorrências mundiais, a partir de bancos de dados nacionais. Do Brasil, há informações de seis cidades que tinham registros confiáveis sobre a sobrevida dos pacientes em cinco anos: São Paulo (SP), Jaú (SP), Curitiba (PR), Aracaju (SE), Goiânia (GO) e Cuiabá (MT). “Claro que gostaríamos de ter o retrato nacional, mas, ao menos, conseguimos uma cidade de quase todas as regiões (faltou a Norte)”, observa Gulnar Azevedo e Silva, pesquisadora do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Ela coordena, no país, o estudo Concord, uma iniciativa da Faculdade de Higiene e Medicina Tropical de Londres que conta com colaborações no restante do mundo.

Principal autora do artigo,  Claudia Allemani ressalta as diferenças regionais observadas no trabalho: “Desigualdade ou dados não confiáveis evitam que governos compreendam a verdadeira natureza e magnitude dos problemas de saúde pública criados pelo aumento do fardo do câncer. Isso deixa os governos pobremente equipados para desenvolver planos nacionais que se traduzam em melhorias reais na sobrevivência dos pacientes”.

Enquanto, por exemplo, o Japão registrou taxa de sobrevivência ao câncer de esôfago de 36%, na Índia, esse índice foi de 4,2% entre 2010 e 2014. No geral, os melhores índices nos últimos 15 anos foram registrados em Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Finlândia, Noruega, Islândia e Suécia. Noventa por cento das norte-americanas diagnosticadas com câncer de mama em 2010 continuavam vivas em 2014; já entre as indianas, a taxa foi de 60%, uma das mais baixas desse tipo de tumor. Na Dinamarca, Suécia e Eslováquia, a sobrevida de crianças com câncer no cérebro ficou em torno de 80% no período 2010-2014. No Brasil, menos de 40%.

O oncologista da Oncotek Eduardo Johnson, fundador e chefe do Centro de Tratamento e Pesquisa Oncológica do Hospital Universitário de Brasília (HUB), destaca que, além da desigualdade em relação a outros países, no Brasil, as realidades de pacientes atendidos pelos sistemas privado e público (esse último retratado no estudo divulgado ontem) têm diferenças significativas. “Nós temos dois ‘brasis’, tanto em termos de detecção precoce quanto de tratamento, pois, pelo Sistema Único de Saúde, o paciente não tem acesso aos mesmos medicamentos (que no sistema privado). Esse Brasil mostrado no estudo está muito ruim”, avalia. “Praticamente, não houve melhora no período estudado, apenas no caso de pâncreas, que passou de 3,5% para 9,5%. Mesmo assim, não está bom: estava em um nível subafricano e passou para o de um país mais desenvolvido”, afirma.

Mais dados


Por outro lado, a epidemiologista Gulnar Azevedo e Silva destaca que os resultados podem, na realidade, refletir uma melhoria: a da informação. De acordo com ela, é possível que, nas pesquisas anteriores, a qualidade dos registros fosse inferior, fazendo com que os dados dos pacientes se perdessem depois da fase do diagnóstico, o que mascara a realidade dos números. A pesquisadora ressalta que, no caso dos cânceres de mama e de próstata, a sobrevida dos brasileiros é comparável à de países desenvolvidos. Outro ponto positivo para o país, na avaliação da coautora do estudo, é o aumento na taxa de sobrevivência de crianças com linfomas. “Houve uma melhoria de quase 50%, muito significativa”, observa.



Segundo a epidemiologista, para o Brasil, o estudo tem duas implicações principais. A primeira é a necessidade de ampliar a assistência a fim de garantir que o paciente tenha acesso ao diagnóstico e ao tratamento o mais rápido possível. “A oferta de diagnóstico é o grande estrangulamento do SUS. Perde-se um tempo que o paciente de câncer não pode perder”, diz. “A outra mensagem é que nossos sistemas de informação são ferramentas para monitorar o que está sendo feito e, assim, gerar políticas para melhorar e reorganizar o SUS.”


Nós temos dois ‘brasis’, tanto em termos de detecção precoce quanto de tratamento, pois, pelo Sistema Único de Saúde, o paciente não tem acesso aos mesmos medicamentos (que no sistema privado)”
Eduardo Johnson,
fundador e chefe do Centro de Tratamento e Pesquisa Oncológica do HUB e oncologista da Oncotek

Problemas no diagnóstico


O oncologista Eduardo Johnson ressalta que, nos últimos anos, houve avanços no tratamento de diversos tipos de câncer e que, em termos de saúde pública, o que vai impactar na sobrevida dos pacientes é o diagnóstico precoce. Ele critica o fato de, no Brasil, a taxa de sobrevivência de pacientes de câncer cervical ter diminuído entre 2000 e 2014 (69,3% e 60,3%, respectivamente). “Esse é um câncer do qual se sabe a causa, tem vacina, tem controle. O resultado mostra a necessidade de implementar políticas de prevenção mais efetivas, principalmente no Norte e no Nordeste”, afirma. De acordo com o Ministério da Saúde, em 2016, foram realizados 8,7 milhões de exames Papanicolau pelo SUS, o preventivo de câncer de colo de útero.

Os melhores índices nos últimos 15 anos foram registrados em Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Finlândia, Noruega, Islândia e Suécia(foto: Anne-Christine Poujoulat/AFP)
Os melhores índices nos últimos 15 anos foram registrados em Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Finlândia, Noruega, Islândia e Suécia (foto: Anne-Christine Poujoulat/AFP)


Outra frente preventiva é a vacina de HPV, o maior fator de risco da doença. Dados preliminares do projeto POP-Brasil-Estudo Epidemiológico sobre a Prevalência Nacional de Infecção pelo HPV divulgados em novembro pelo Ministério da Saúde indicaram 54,6% de prevalência do vírus na população estudada, sendo que, em 38,4% dos casos, havia alto risco para desenvolvimento de câncer. Desde 2014, a vacina que previne a doença é distribuída gratuitamente para crianças e adolescentes e, a partir do ano passado, os meninos também foram incluídos. Apesar dessas políticas, Johnson diz que as medidas ainda não são suficientes. “Se fossem, os números não estariam ruins. As pacientes chegam para tratamento em estágios já avançados”, critica.

A detecção precoce foi essencial para que a funcionária pública Marly Leite, 67 anos, tivesse sucesso no tratamento de um câncer de mama diagnosticado em 2002. “Fiz o autoexame, encontrei uns nódulos. Então, realizei a mamografia, que confirmou as alterações. Depois de seis sessões de quimioterapia, os cirurgiões retiraram uma parte da mama e 14 linfonodos”, conta. Curada, Marly passou 14 anos sem pensar na doença, até julho de 2016, quando notou uma pinta vermelha na mesma mama. A mamografia revelou que o câncer tinha voltado. Também graças à rapidez na detecção e no diagnóstico, ela fez o tratamento e está em remissão. Hoje, faz sessões a cada 20 dias com um anticorpo monoclonal, que atua de forma personalizada, bloqueando o gene mutante. “Meu tratamento deu muito certo e estou sempre confiante. Quero morrer bem velhinha e pretendo ver minhas netas se formarem”, diz Marly, avó de três meninas, de 8, 11 e 13 anos. (PO)
 
 

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