Para o presidente do Banco Central, em 2019 e 2020, a alta dos preços ficará próxima de 4%

Segundo Ilan Goldfajn, isso permitirá juros mais baixos

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postado em 26/12/2017 06:00 / atualizado em 25/12/2017 23:13

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

A opção do Brasil pela responsabilidade fiscal e por uma política monetária de credibilidade colocou a economia em uma rota de crescimento sustentado. Melhor: com inflação na meta e as menores taxas de juros da história. Mas, apesar de todos os avanços, ainda há muito por ser feito, avisa o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn. Para ele, é preciso que o país ataque suas deficiências e faça os ajustes necessários, a começar pela reforma da Previdência Social.


Na avaliação de Ilan, do ponto de vista inflacionário, o quadro é bastante favorável. “A inflação vai continuar baixa, caminhando para 4% no ano que vem, e caindo devagarzinho ao longo de 2019 e 2020”, diz. Com isso, o consumo das famílias, que tem sustentando a retomada da atividade, continuará a ser um dos principais propulsores do Produto Interno Bruto (PIB). “Uma das consequências da queda da inflação é que permite a redução dos juros”, frisa.

A despeito de toda a confiança, o presidente do BC manda um recado direto ao governo e ao Congresso, sobre a importância de aprovação das reformas para que as boas condições macroeconômicas se mantenham em 2018. “Cabe alertar que cenários benignos não vão ficar para sempre. Por exemplo, o quadro internacional com juros tão baixos. É necessário continuar trabalhando nas reformas e nos ajustes. E, em particular, na reforma da Previdência. É importante para o equilíbrio da economia, com consequências favoráveis para a desinflação, a redução da taxa de juros estrutural e a recuperação sustentável da economia brasileira”, avisa.

Ilan lembra que a taxa básica da economia (Selic) caiu pela metade, saindo de 14,25% anuais em 2016 para 7%. Novos cortes devem ocorrer em horizonte próximo. “Se tudo correr de acordo, mesmo que haja mais incertezas para o ano que vem do que agora, sinalizamos que há uma expectativa de redução moderada, adicional (dos juros)”, em fevereiro. Caso esse movimento se confirme, a Selic atingirá 6,75% ao ano, marcando novo recorde de baixa. Os especialistas mais otimistas acreditam que os juros podem ir a 6,50% em março.

Atuação firme


Chegar a esse quadro tão favorável não foi fácil. O presidente do BC resume 2017 em três resultados importantes: a queda da inflação, seguida da redução dos juros e da recuperação econômica. Nessa ordem. “Não considero esses três fenômenos pouca coisa. Foi uma recuperação macroeconômica considerável”, afirma. Na visão dele, a principal razão para que tenha ocorrido uma “queda significativa da inflação, como não se via há anos”, foi a mudança de direção na política econômica, adotada em 2016 com o governo de Michel Temer. “Além de uma atuação firme da política monetária.”

Isso porque, ao fim do ano passado, a autoridade monetária decidiu levar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que estava em 10,7%, para o centro da meta, de 4,5% em 2017. E esperou a convergência das expectativas em torno de preços menores, antes de começar a reduzir os juros. “Essa postura de política monetária levou, em parte, a essa queda importante na inflação”, assinala.

Outra influência significativa veio dos preços dos alimentos, que despencaram. O índice setorial deve fechar 2017 com queda de 5%. “Só para dar uma ideia, nos últimos oito anos, a média da inflação dos alimentos foi de 8,5%, para cima”, destaca Ilan. Em 2016, houve alta de 10%. “Essa mudança, do ano passado para cá, dá uma diferença de 15%. E contribui para a queda total do IPCA em 2%. De modo que, tirando os alimentos, a inflação seria de 4,5%, e não de 2,8%.”

A visão de continuidade de preços ladeira abaixo fez com que o próprio BC e os especialistas revissem, para cima, as projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano e do próximo. A autoridade monetária elevou de 0,5% para 1% a estimativa de crescimento em 2017 e o mercado fala em 1,1%. Para 2018, a previsão do BC em relação ao PIB saltou para 2,6%. Entre os especialistas, há quem fale em alta de até 4%. “Hoje, a economia cresce mais do que o esperado”, enfatiza Ilan. E reitera que o risco principal que pode travar a expansão da atividade no ano que vem é o governo não insistir no ajuste fiscal.

Mais crédito


A Selic nos níveis mais baixos da história, segundo o presidente do BC, permite que o Brasil tenha, hoje, juros reais em torno de 3% ao ano. “Ainda é alto. Como, aliás, várias de nossas mazelas ainda existem. Só que nós temos que reconhecer que o ano de 2017 nos trouxe, não só a taxa básica na mínima histórica, mas também o juro real sem precedentes”, frisa. Ele destaca ainda a redução dos juros bancários entre os avanços da atuação do BC. O volume do crédito para as famílias subiu nos últimos seis meses, e a taxa de empréstimo caiu. “Ainda tem muito o que cair, mas são problemas estruturais de longa data”, justifica.“Também atuamos nos produtos mais caros para o consumidor, como o crédito rotativo do cartão de crédito limitado a 30 dias, cuja taxa caiu pela metade. Ainda é alta, assim como o juro real. Mas são problemas de décadas”, diz Ilan.

A oferta dos empréstimos subiu para pessoas físicas, e pouco para empresas. “Somos a favor de juros mais baixos para todos”, afirma. Na busca dessa redução, o BC iniciou uma “simplificação” dos compulsórios, aquela parcela de depósitos que os bancos são obrigados a deixar nos cofres da autoridade monetária. Ilan promete reduzir alíquotas no futuro. “Sabem que há uma exigência de ter um nível elevado de compulsórios, o que aumenta o custo do crédito no sistema. O que pudermos contribuir para a redução do custo, vamos fazer. Mas de forma estrutural, pensando na queda ao longo do tempo, e não como medida de política monetária”, diz.
Segundo o presidente do BC, várias medidas administrativas já foram adotadas, como a criação de um comitê de estabilidade financeira, a duplicata eletrônica e o acordo com o Supremo Tribunal Federal (STF) para o ressarcimento de poupadores de perdas acumuladas com os planos econômicos, fechando “décadas de discussão”. Os avanços da agenda governamental foram outros pontos a contribuir para a recuperação da atividade. “Reforma trabalhista e o teto de gastos ajudaram a reerguer a economia, 2017 nos agraciou. Foi um ano produtivo, tanto em resultados econômicos quanto na agenda legislativa e na agenda normativa do BC. A gente espera que esses progressos permitam avanços sustentáveis ao longo do tempo”, conclui.

Dívida é maior entre emergentes

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

O país deve aproveitar, em 2018, a janela de oportunidade que está em curso na economia, com o ambiente externo ainda favorável, para fazer o ajuste fiscal. A opinião é do economista-chefe do banco suíço UBS no Brasil, Tony Volpon, para quem o país voltará a viver crise similar à de 2015 se não adotar as medidas necessárias. Volpon considera o nível da dívida pública brasileira, o mais alto entre os países emergentes, insustentável.

“Não há país que vá sustentar nível de endividamento deste tamanho”, afirma Volpon. O economista, que foi diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, avalia que, mesmo com o estabelecimento do teto de gastos para o governo, o ajuste proposto é gradual em comparação aos experimentados por outros países. Mas esse ritmo de implementação só será possível se começar agora.

“O fato de estarmos fazendo um ajuste fiscal ainda gradual é possível por estarmos em ambiente externo ainda favorável. Mas isso não vai durar. Então, a janela que teremos para consolidar esse ajuste é pequena”, adverte Volpon. “Se não soubermos aproveitar esta janela, temo que voltemos a enfrentar situação como a de 2015, quando, naquele momento, a situação global era muito adversa e hostil, uma das razões pelas quais aquele governo (da presidente Dilma Rousseff) teve o problema que teve”, diz.

Segundo o ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC, o quadro externo, em 2018, ainda será favorável. “Olhando para 2018, acredito que a gente ainda estará em uma janela positiva. Eu não acredito, nem o UBS, que 2018 será um ano complicado para a economia global. Mas eu temo muito se não tivermos a capacidade de aproveitar isso durante o nosso debate eleitoral”, afirma. Ele acrescenta que é preciso que o país aproveite o momento das eleições para discutir como resolver essa que é “a grande fragilidade da economia brasileira: a situação fiscal”.


Gradual


Volpon diz que o ritmo do ajuste proposto tem aspectos positivos e negativos. “Ninguém está propondo por parte do governo um ajuste como o que ocorreu na Grécia ou com outros países que enfrentaram problemas fiscais muito graves. Acho importante frisar isso, porque tem uma vantagem e uma desvantagem. Por ser gradual, o custo social desse ajuste vai ser muito menor. A desvantagem é que, por ser gradual, parece que não existe nenhum sentido de emergência nem na sociedade nem nos mercados financeiros sobre o tamanho da fragilidade fiscal que nós estamos enfrentando.”

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