Sono tem efeito semelhante ao da embriaguez, alerta especialista

"Depois de nove horas dirigindo sem dormir, o risco de acidente é grande", afirma o diretor do Centro Multidisciplinar de Sonolência e Acidentes, Marco Túlio de Mello

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postado em 10/05/2017 16:15

Minervino Junior/CB/D.A Press
 
 
No Brasil, motoristas que dirigem com sono são responsáveis por 42% dos acidentes de trânsito. Marco Túlio de Mello, diretor do Centro Multidisciplinar de Sonolência e Acidentes (Cemsa), explicou a relação entre a fadiga dos motoristas profissionais e o uso de drogas. “Os motoristas começam a usar entorpecentes para aguentar ficar sem dormir e entregar a carga mais rápido”, disse. Segundo ele, o cansaço geralmente fica mais forte logo após o almoço e na madrugada. “Depois de nove horas dirigindo sem dormir, o risco de acidente é grande. Depois de 12 horas, o risco dobra. E depois de 19 horas na direção, o cansaço toma conta do motorista, que fica sonolento e age como se estivesse bêbado”, completou. 

Mello lembrou que dirigir durante todo o dia e toda a noite traz consequências a curto e a longo prazos. “A curto prazo, ocorrem alterações no humor. As pessoas ficam mais irritadas, podendo ocorrer perda de memória, atenção, concentração e reflexo. A longo prazo, o sistema imunológico cai, fazendo com que o indivíduo fique mais vulnerável à infecções. Também ocorre perda de massa muscular”, assinalou.

Após a obrigatoriedade do exame toxicológico, houve uma queda na renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) entre motoristas das categorias C, D e E. “Tivemos uma fuga de quase 600 mil motoristas que optaram por não renovar sua CNH, o que demonstra a fiscalização efetiva e o uso de entorpecentes durante as horas de trabalho”, afirmou o especialista. Ele acrescentou que os motoristas de táxi também deveriam ser testados, pois cumprem jornadas de trabalho tão extenuantes quanto as dos caminhoneiros.“O número de mortes nas estradas é uma grande preocupação. Quando começamos a banalizar as mortes no trânsito, isso passa a ser um problema, pois ficamos com a sensação de que as coisas acontecem e não fazemos nada”, afirmou.

A dica de Mello para aqueles motoristas que querem cumprir seus prazos sem comprometer o sono é estarem atentos aos sinais do corpo e respeitar a necessidade de descanso. “Cada pessoa tem um tempo de sono específico. Algumas ficam satisfeitas com menos de seis horas de sono, enquanto outras necessitam dormir mais de nove horas para repor as energias. No geral, a média de sono da população é de sete horas e quarenta minutos”, esclareceu. 

Sonômetro

Para avaliar o cansaço nas estradas, a equipe de Mello desenvolveu um sonômetro. O instrumento, que parece uma balança, mede os movimentos do corpo. Os dados são enviados para a equipe, responsável por analisar a fadiga e a sonolência por meio do equilíbrio. Para o especialista, o equilíbrio do condutor está relacionado ao tempo de sono. “A legislação antiga (Lei 12.619/2012) era melhor, pois priorizava o descanso do profissional. A nova lei (Lei 13.103/2015) aumenta o risco de acidente quando diminui o tempo de descanso”, opinou. O aparelho pode ajudar a identificar o nível de cansaço dos motoristas em uma blitz, por exemplo. 

O sonômetro ainda está em fase de testes e a polícia não pode multar ninguém com base nos resultados aferidos por ele. A função, por enquanto, é educativa. De acordo com o Ministério da Saúde, quase 9 mil motoristas perdem a vida, a cada ano, porque dormem ao volante.

Além do sonômetro, existem aplicativos que monitoram o sono para garantir a segurança do motorista. O Actiwatch, um relógio de pulso que monitora o sono dos motoristas, utiliza o mesmo software da Nasa para organizar a escala dos astronautas e evitar acidentes no trabalho.  O aparelho demonstra quantas horas o usuário precisa descansar. 
 
Minervino Junior/CB/D.A Press
 

Pontos de Parada querem mais apoio

Caminhoneiros passam mais de 200 dias por ano nas estradas. Dirigem aproximadamente 11 horas por dia, rodam mais de 10 mil km por mês e não têm locais seguros para descansar. “O posto é a segunda casa do caminhoneiro, pois é ali que ele dorme, toma banho e se alimenta. Mas nem sempre conseguimos dar o nível de segurança que eles precisam”, lastimou Giancarlo Pasa, diretor da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis).

Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press
Conhecedor da situação nas estradas, Giancarlo, que é filho de caminhoneiro, defendeu medidas de proteção para os profissionais, como uma política de incentivo à implantação de locais de descanso para os motoristas, bem como de combate à cadeia de consumo de drogas. Hoje, para permanecer em estacionamentos de postos de combustíveis, é necessário pagar ou abastecer no local. Quem não tem condições financeiras, precisa se arriscar em locais alternativos. Ele defendeu ainda que junto com as leis devem vir medidas de proteção para os profissionais das estradas e reivindicou mais segurança, “que são os membros mais fracos de uma engrenagem”. 

Giancarlo relembrou que nas décadas de 1970 e 1980 havia o uso de rebites, comprimidos classificados como anfetaminas que atuam no sistema nervoso central diminuindo o sono e deixando o usuário “aceso”. Quando aconteciam acidentes nas estradas, os funcionários que trabalhavam nos postos de combustíveis é que costumavam socorrer as vítimas até que o atendimento médico chegasse. De lá para cá, ele enfatizou que “o narcotráfico está dentro das rodovias, e não só na vida dos caminhoneiros, como no roubo de cargas.” Ele contou que, certa vez, na hora de pagar a conta no posto, um caminhoneiro sofreu um ataque cardíaco. No caminhão que ele dirigia, foi encontrada cocaína. 


Descanso

A Lei 13.103/2015 considera como local de descanso rodoviárias, alojamentos, pousadas, hotéis, postos de combustíveis e pontos de parada. Pela nova Lei dos Caminhoneiros, o governo deve adotar medidas que ampliem a quantidade desses espaços e conceder incentivos para a iniciativa privada implantar esses locais de descanso. A cada 24 horas trabalhadas, o caminhoneiro tem direito a 11 horas de descanso, sendo oito delas ininterruptas.  
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