Welber Barral: nichos de mercado abrem oportunidades a empresas

Alimentos processados são uma das áreas em que o Brasil tem competitividade, diz ex-secretário de Comércio Exterior

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postado em 28/11/2017 06:00 / atualizado em 27/11/2017 21:30

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press

O empresário de pequeno ou médio portes que queira vender no exterior deve priorizar a busca de nichos de mercado, com projetos estruturados. No momento, há demanda de calçados de alto valor na China e de alimentos processados nos países árabes. Algumas empresas de tecnologia da informação (TI) estão entrando na União Europeia, outras, vendendo tecnologia na América Latina. Os exemplos  foram citados pelo ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral no evento Correio Debate: Pequenas e Médias Empresas — O Caminho para a Exportação.

Consultor requisitado, especialmente sobre negócios com a China, Barral aponta alimentos processados como uma das áreas em que, dificilmente, o Brasil tem concorrência. “Claro que o ciclo é longo, você precisa certificar o produto, registrar a marca, ter um representante, um canal de distribuição, calcular os custos. Dá trabalho. Mas quando falamos de competitividade, sem grandes esforços de marketing, é em alimentos processados que o Brasil tem competitividade natural”, afirma.

Para Barral, a exportação compensa, mas há uma longa lista de entraves que atrapalham as  empresas. “O Brasil não é para principiantes”, cita, parafraseando Tom Jobim. “É um país em que é difícil fazer negócios, em qualquer área.” Sócio da BarralMJorge Consultores, ele critica a ausência de planejamento estratégico, numa política de longo prazo para o comércio exterior, lembrando que  “o Brasil ainda é um país muito fechado”. 

Intervencionismo exagerado, burocracia muito grande, sistema tributário que é o pior do mundo. A lista de obstáculos começa, mas não acaba nesses três itens, destaca Barral. Um gargalo de peso é o fato de o Brasil ter os mais altos custos da América Latina para o transporte de mercadorias, da origem até o ponto de saída para a exportação. Além do crédito escasso e caro, que a pequena empresa não tem condições de  tomar, ou ao qual, simplesmente, não tem acesso. Somam-se a isso deficiências tecnológicas, procedimentos gravosos, barreiras tarifárias e regras instáveis, incluindo a corrupção.

Desafios
 
Segundo Barral, não bastasse a situação política “instável” do país,  que pode travar investimentos e impedir medidas econômicas para favorecer o setor, o comércio internacional tem cara nova. Integração econômica e mudanças tecnológicas, como o e-commerce, desafiam paradigmas estabelecidos há muito tempo. “Há várias mudanças de integração econômicas e tecnológicas que desafiam tudo o que nós conhecemos”, afirma. Hoje, por exemplo, grande parte dos negócios se faz nas chamadas cadeias globais de valor, cadeias de integração produtiva em que um produto tem peças provenientes de centenas de outros países. A relevância crescente do comércio eletrônico e ganhos de competitividade por meio de logística eficiente são outros fatores.

Há um fenômeno chamado “servicificação” da produção industrial. Com isso, serviços de logística, design, marketing, publicidade, transporte e financiamento têm cada vez mais valor para o produto final da indústria, explicou. O efeito principal dessa mudança é que “não existe mais mercado local. A concorrência, agora, é global”, diz o ex-secretário de Comércio Exterior.

Apesar de toda essa modernidade, no Brasil “continua se discutindo como é que tira os impostos da exportação”. Barral vê o risco de um atraso enorme ao país, provocado pelo período eleitoral em 2018. “A história está se acelerando muito. Os avanços tecnológicos se apresentam em uma conjuntura em que há diminuição no crescimento do comércio mundial e riscos de aumento do protecionismo”, assinala.

O especialista diz que pequenas e médias empresas devem exigir das autoridades um sistema tributário “mais simples e racional”. Também devem buscar a redução de custos logísticos, além de maior acesso ao crédito.  “Eu vi uma situação, outro dia, em que uma empresa brasileira ganhou uma licitação lá fora, foi buscar financiamento e o banco disse que ela deveria depositar R$ 10 milhões, aí abriria para ela um crédito de R$ 10 milhões”, conta.

É preciso ainda ter “persistência de longo prazo”, diz o consultor. Isso significa que  não se deve abandonar o que foi conquistado lá fora em função do mais conhecido, que é o mercado interno. “Nos últimos três anos, vi empresa desesperada para exportar. Agora, a situação começa a melhorar internamente e poucas têm um projeto de exportação de, no mínimo, três anos”, comenta.

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