Diversão e Arte

Apesar da grande procura, ainda são poucos os modelos interessados em posar nus para estudantes de artes em Brasília

Nahima Maciel
postado em 13/09/2009 10:25
Nove e meia da manhã de uma quinta-feira no Ateliê 2 do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB/IDA). Daiara Figueiroa, 26 anos, chama o professor Sérgio Rizzo, responsável pela aula de desenho e anatomia artística. Pela fresta entre o teto e a parede da sala, ela percebeu o olhar voyeur de um desconhecido. Ficou inquieta por motivo óbvio. Era um funcionário da limpeza curioso com a situação e que foi prontamente repreendido pelo professor. Nua sobre o tablado da sala, Daiara posa para turma de estudantes de artes. Dentro do recinto, ninguém ri ou brinca com a situação. O foco está na anatomia do corpo e em como transpor para o papel o movimento natural das poses de Daiara. Mas fora da sala de aula, a situação atrai olhares nada discretos. "Nunca tinha acontecido comigo", comenta Daiara, monitora da turma e que precisou servir de modelo porque a moça contratada para a função faltou. Modelo posa para turma de estudantes de artes da Universidade de Brasília: nu é fundamental para a técnica do desenhoNo fim da aula, o monitor Elder Spagniol tira do bolso uma lista com mais de 100 nomes rabiscados em caneta e lápis. O papel está rasgado, mas Spagniol faz questão de guardá-lo dobrado na carteira. Tem medo de que alguém tenha acesso à lista na qual constam os nomes de voluntários dispostos a posar nus para turmas de estudantes de artes. A oferta é maior que a demanda, mas como é um trabalho delicado e facilmente mal interpretado, o artista guarda os nomes com muito cuidado. "O modelo vivo tem que ter resistência física e não ter pudor", explica Spagniol. Expressão corporal também conta. Basicamente, o trabalho consiste em ficar nu e imóvel em poses que podem durar de dois minutos a uma hora. Grande parte das pessoas dispostas a posar é estudante e o cachê costuma ser de R$ 40 por hora. Um bico que ajuda muita gente a manter os estudos, mas também pode servir como experiência para estudantes de disciplinas exigentes no controle corporal. "Comecei a posar para entender melhor o meu trabalho", conta Daiara. Estudante de artes, ela posa há mais de um ano e está acostumada, embora algumas vezes sinta um frio na barriga quando percebe um olhar mais direcionado. "A gratificação é muito grande porque existe um diálogo de olhares e de como você vai se colocar para a pessoa." Posar nu pode ser também muito cansativo. "Para escultura, às vezes tenho que ficar 1h30 na mesma pose", conta Tatiana Berioska, 24, também estudante de artes. Há dois anos, quando posou pela primeira vez durante uma aula de desenho na UnB, ela ficou apreensiva com as reações. "Mas com o tempo você começa a perceber que ninguém vai te olhar com desejo, é profissional." Mesmo assim, Ana Santos não gosta de fazer propaganda do bico. Aluna de engenharia florestal, ela aproveita os horários flexíveis para posar. "O confortável é saber que é um trabalho pela arte, mas não dá para falar para as pessoas porque é facilmente associado a sexo." Sexo e sensualidade, no entanto, são as últimas coisas nas quais Taigo Meireles, pintor e professor da Faculdade Dulcina de Moraes, pensa quando contrata modelos para suas aulas ou para trabalhos no ateliê. "Quando desenho modelo vivo e nu tento buscar o autoerótico. É um confronto estar nu consigo mesmo e é muito difícil porque pode não ficar autêntico e acabar sendo sensual. E o sensual é pobre para a arte." Meireles prefere modelos que estudem artes cênicas e, às vezes, desenvolve uma certa obsessão por determinadas figuras nas quais encontra expressividade corporal particular. Quando se encanta com determinada modelo, gosta de pintá-la à exaustão. "Para mim, a modelo é imprescindível", diz o artista, autor de Eros e psiquê, série de 10 desenhos realizados com modelo vivo e em cartaz na galeria Objeto Encontrado. "O corpo é como uma paisagem e é indispensável o sentido de doação. O modelo precisa estar presente e doar a intimidade da nudez." E, para tal, a concentração ajuda. Selma Damasceno, 34, posa há dois anos para as turmas de desenho do curso de artes plásticas da Faculdade Dulcina. "A concentração tem que partir de mim. Me concentro no meu corpo com a consciência de estar sendo contemplada. E arte é contemplar", garante a estudante de artes cênicas. Gordinhas A perfeição física não é requisito para contratar um modelo. "Ao contrário, as gordinhas e as mais magras, em que aparecem os ossos, são muito desenhadas. O ideal não é o corpo perfeito, mas um corpo com o qual as pessoas têm comunicação maior", avisa Daiara. No entanto, há poucos homens no metiê. O estudante de direito Luiz Gustavo Alarcon, 28 anos, precisava equilibrar as finanças quando decidiu posar pela primeira vez durante aulas na UnB. Hoje, consegue pagar o dinheiro do transporte para a faculdade apenas com as sessões de desenho. "Se você pensar que o profissional que ganha isso no mercado é raro, então é uma boa grana. Mas se levar em conta que exige não só o esforço, mas o preparo físico para manter a pose, acho pouco", diz Alarcon. A vantagem é que qualquer pessoa pode realizar o trabalho. "Não existe uma preparação técnica ou conhecimento específico. Precisa ser desinibido e ter tempo, porque eles não fazem exigência física." E isso é exatamente o que Fábio Baroli não quer. Seus modelos precisam estar inseridos no cotidiano. Quando encontra alguém que desperte a vontade de pintar, Baroli primeiro convida a pessoa para ser fotografada em um estúdio. O quadro vem depois, como uma etapa seguinte à da fotografia. "É um voyeurismo mesmo. São pessoas do meu círculo, pessoas que costumo ver todo dia. Busco uma espontaneidade, uma intimidade, uma relação que se cria a partir do momento que a pessoa se propõe a participar do processo." Para saber mais - Fama e romance Picasso e Jaqueline, Rodin e Camille Claudel, Di Cavalcanti e Marina Motini, Ticiano e a Vênus de Urbino, Gustave Courbet e Johanna Hiffernan. Modelos, musas e amantes se confundem na história da arte. Mas um fato é inegável. Todos os grandes pintores tiveram suas modelos preferidas, rostos ou corpos capazes de motivar a criação das obras-primas hoje penduradas nas paredes dos maiores museus do mundo. Muitas ficaram perdidas no tempo, como a moça do brinco de pérola do quadro homônimo de Jan Vermeer, mestre holandês do qual pouquíssimo os historiadores conseguiram descobrir. Ou as trabalhadoras anônimas de Cândido Portinari. E até a Monalisa de Leonardo da Vinci, alvo de tantas especulações que até o sexo masculino já foi cogitado como modelo para o mestre renascentista. Mas algumas têm nome até hoje. Berthe Morisot não é apenas o rosto bonito por trás da Olympia de Edouard Manet. Ela também era pintora. E Camille Claudel sem dúvida posou para Auguste Rodin, embora sua fama tenha sido construída em cima da força de suas próprias esculturas. A brasileira Maria Martins, também escultora, pode ter sido a modelo utilizada por Marcel Duchamp para conceber a figura nua de sua última obra, Étant données. Já a ruiva irlandesa Johanna Hiffernan frequentou muitos ateliês na França do século 19. Foi amante de Monet, Whistler e Courbet, que a teria usado como modelo em A origem do mundo. Marina Montini, todo mundo sabia, era a bela mulata das telas de Di Cavalcanti e a vênus de Urbino tem um rosto comum na obra de Ticiano.

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