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Notícias de uma guerra nada particular

Especialistas latino-americanos concluem: não sobram inocentes no enredo que mistura tráfico de drogas, polícia mal preparada e repórteres distantes da informação. Já as vítimas estão no morro e no asfalto

postado em 31/10/2009 11:36
Cidade do México - A brincadeira de criança servia para apelidar meninos. A depender da estrutura do carrinho de mão, Paulo sugeria os nomes. Um era Fusca, outro Opala, o terceiro, Chevette. Cresceram assim, batizados de veículos da época. Até aquela noite no início dos anos 1980. Ao avistar os policiais na favela carioca, Chevette, então com 18 anos, correu. Foi perseguido e executado ali, na rua, em frente aos amigos. Um dia depois, um jornal noticiou o assassinato: "Bandido conhecido por roubar Chevettes é morto pela PM". "Nunca confiei na imprensa. Aprendi desde cedo que as notícias são dadas de forma errada. Tinha o maior exemplo do meu lado. Chevette não era ladrão de nada. Tinha apenas um apelido de criança, dado por mim", lembra Paulo, sobrenome Lins, autor do livro Cidade de Deus e hoje um dos escritores brasileiros mais conhecidos fora do país. Passados mais de 20 anos, Paulo Lins mantém o descrédito. E escancarou a desconfiança durante seminário de jornalistas latino-americanos promovido pela Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI) na Cidade do México. O evento ocorreu no início da semana passada, poucas horas depois de um helicóptero da polícia ter sido abatido por traficantes de um morro carioca. Com a volta da violência do Rio ao noticiário nacional e estrangeiro, o tema sobre a cobertura do conflito é cada vez mais urgente, e atrasado. O morro, como diz Lins, está distante do noticiário. Os leitores dos jornais recebem as informações incompletas e confusas, como a da execução de um homem com apelido de carro e que acabou representado por um bandido com predileção especial em roubar Chevettes. Desde o assassinato do jornalista Tim Lopes, em junho de 2002, a imprensa deixou de subir o morro. Os repórteres mais intrépidos acompanham o Caveirão, o veículo blindado da polícia fluminense. A pergunta é: seria possível manter a imparcialidade quando, na melhor das hipóteses, o jornalista deve a chance de se manter vivo a um grupo? De cara, não. A cobertura tem um lado, o lado da polícia. As informações estão pela metade. E não há como cuspir soluções mágicas. Se a negociação para entrar no morro não é feita com a polícia, é estabelecida com os traficantes. Saque o primeiro fuzil quem tiver uma ideia apropriada. Armadilhas Como prêmio de consolação, não estamos sozinhos na cobertura errática. "Não me reconheço nas entrevistas publicadas na imprensa", diz o sociólogo mexicano Luis Astorga, que ao longo dos últimos anos dedica-se a estudar o narcotráfico e a violência. Astorga critica inclusive o uso impreciso de termos da imprensa para tratar o tema. No seminário da FNPI, tratou de caracterizar a confusão da mídia como armadilhas semânticas. Um exemplo é a palavra "cartel", utilizada de forma quase cansativa por jornais latino-americanos para definir qualquer organização criminosa, das mais simples e pueris às mais complexas e sangrentas. A palavra narcotráfico é sacada das formas mais distintas possíveis. A polícia associa qualquer tipo de assassinato com o crime. E os repórteres vão atrás. É assim no Recife, em Nova York e em Bogotá. Uma briga de bar com morte pode acabar, pelo menos nos boletins de ocorrência, como um acerto de contas entre traficantes. Tais números servem para confundir ainda mais a análise da violência, sejam esses analistas os leitores, os jornalistas, os acadêmicos ou, o que é pior, os próprios policiais e gestores das políticas de segurança pública. Um erro inicial é capaz de inverter a eficácia de qualquer ação governamental. No Distrito Federal, professores do Núcleo de Estudos sobre Violência e Segurança (Nevis), da Universidade de Brasília (UnB), sugeriram que os policiais civis detalhassem os tipos de homicídio. Se descobriu com isso que 30% dos assassinatos tratavam-se de acerto de contas. A cada 10 mortes, portanto, três estão relacionadas diretamente com as drogas. É um número alto, sim, mas um pouco mais preciso. Serve pelo menos para que repórteres desconfiem de informações de autoridades. Nem tudo é drogas, ora. A saída, pelo menos na forma de avaliar a própria cobertura, pode estar na ponte com a academia. "As investigações acadêmicas se aproximam do jornalismo de investigação", diz o antropólogo norte-americano Philippe Bourgois. Um ponto importante: não trato aqui de jornalistas que simplesmente entrevistam relatórios oficiais e os publicam, como se fossem assessores de imprensa. Não, Bourgois - que estava no seminário da FNPI para falar sobre as experiências da academia no tema narcotráfico - não pode e nem quis ser comparado a esses "repórteres investigativos". Desde os anos 1980, ele trabalha e vive em bairros tomados pela pobreza, crack e violência, como o East Harlem, em Nova York. "Meu propósito, ao submergir nos bairros, foi me afastar do juízo moral para entender a lógica das organizações investigadas." Crônicas Os estudos de Dennis Rodgers, antropólogo da Universidade de Manchester, tratam de gangues e de desenvolvimento na Nicarágua. O envolvimento acadêmico do professor com as pandillas chegou a tal ponto que ele criou o codinome de Chele. Ao entrevistar uma autoridade policial - um homem completamente desinformado sobre a verdadeira periculosidade dos integrantes da gangue -, foi questionado se ele, o pesquisador, conhecia um tal de Chele. Sendo o próprio Rodgers o suposto arruaceiro, preferiu dizer que não. O professor chegou à Nicarágua em 1996 na tentativa de buscar o rastro da revolução sandinista e acabou encontrando a violência nas organizações juvenis. Ao longo da pesquisa de mais de 10 anos, percebeu o aspiral de violência no interior dos grupos e como isso se refletiu na mudança de hábitos de consumo e nos tipos de armas. O que se percebe nos trabalhos de Rodgers e Bourgois é uma tentativa de contar histórias de dentro dos grupos. E isso não significa serem mais corajosos do que outros pesquisadores ou jornalistas. Significa apenas o esforço para mostrar outros pontos de vista, como faz a fotógrafa norte-americana Donna de Cesare (www.donnadecesare.com), professora da FNPI, que, a partir de personagens, consegue retratar a violência e toda a dor que ela traz para os envolvidos. Donna trabalha com um número reduzido de publicações na tentativa de se cercar de editores de confiança. "Os repórteres estão muito ocupados em ver as histórias. Estão sempre nos escritórios dos políticos, no ar-condicionado, nas entrevistas coletivas", diz o escritor e jornalista mexicano Javier Valdez, correspondente do La Jornada na violenta Culiacán. "A cidade precisa ser tratada como personagem. Ela está viva, palpita", emenda Valdez. No caso de Culiacán, o próprio Valdez relata: "O saldo de apenas uma semana e meia é de cerca de 40 execuções, entre elas uma dezena de agentes locais e federais, um deles decapitado, quatro repórteres agredidos por uniformizados e mais de 10 narcomensagens colocadas em diferentes pontos da cidade." Muda o país, muda o tipo de violência e até pode mudar a cobertura da imprensa. Mas a morte, como as nuvens de Culiacán, é feita do mesmo chumbo. Na escola A Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano (www.fnpi.org) foi criada e é presidida pelo escritor Gabriel García Márquez. Com sede na cidade colombiana de Cartagena das Índias, promove, desde 1995, seminários e cursos para repórteres e editores. Os jornalistas são selecionados a partir do perfil e do tipo de cobertura e, na maioria dos casos, recebem contrapartida financeira para participar dos encontros.

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