No início dos anos 2000, a atriz Denise Dummont, há 24 anos morando em Nova York, esbarrou com a viúva do maestro Antônio Carlos Jobim, Ana Jobim. Do encontrou casual, nasceria uma grande amizade e admiração mútua. “Fiquei impressionada e inspirada com a maneira como ela lida com a obra do Tom (Jobim)”, confessa anos depois a artista, que, a partir daí, resolveu fazer as pazes com o passado e resgatar a figura do pai, o compositor Humberto Teixeira, coautor, ao lado de Luiz Gonzaga, de clássicos como Assum preto e Asa branca. “Meus filhos foram criados lá fora e não tinham a menor ideia de quem ele era. Eu mesma também não porque quando ele morreu, embora eu fosse apegada a ele, era muito jovem”, lembra Denise, que passou a dedicar-se da produção do documentário O homem que engarrafava nuvens, projeto dirigido pelo pernambucano Lírio Ferreira (Baile perfumado) que estreia em todo o país em janeiro.
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| Denise Dumont aproveita a viagem ao Brasil para divulgar o documentário sobre seu pai, o compositor Humberto Teixeira |
Em Brasília desde terça-feira, onde participa da 42º edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro como uma das integrantes do júri da mostra principal, Denise Dummont fala da emoção de voltar à cidade e das motivações que a fizeram deixar o país no auge da carreira, no final da década de 1980. “Gosto de Brasília, já estive aqui várias vezes, mas é a primeira vez que participo do festival. É uma honra”, destaca. “Fui passar as festas de fim ano com a minha mãe e a vida me fez ficar lá”, conta, referindo-se ao roteirista, diretor e produtor inglês Matthew Chapman, por quem se apaixonou e com quem vive até hoje.
Na época, a atriz colhia os louros, junto com o diretor Hector Babenco e a colega Sônia Braga, do filme O beijo da mulher-aranha (1985), sucesso do cinema nacional que contava ainda com os atores Raul Julia e William Hurt — vencedor do Oscar na categoria melhor ator. “O Hector (Babenco) e a Sônia (Braga) insistiram para que eu ficasse com eles durante a fase de lançamento do filme em Nova York, onde fez bastante sucesso. Fui ficando”, explica. “Meu papel no filme era pequeno, mas tive
críticas boas”, recorda-se a atriz, que teve o privilégio de trabalhar com o mais nova-iorquino dos cineastas: Woody Allen.
O filme em questão era o felliniano A era do rádio (1987), no qual encarna uma cantora exótica com trejeitos de Carmen Miranda. Na ponta, dá uma palinha interpretando o choro de Zequinha Barbosa Tico-tico no fubá. “Ele é uma pessoa muito gentil, me deu toda liberdade de trabalhar, me pedindo que fizesse o que quisesse e que se ele não gostasse me avisava. Não disse nada”, lembra. “É quase uma vinheta, mas apareci tanto quanto a Diana Keaton. Então, não estou tão mal assim, né?!”, ri.
Geração CazuzaMusa de revistas masculinas e rosto conhecido de telenovelas nos anos 1970 e 1980 como Marrom glacê (1979) e Baila comigo (1981), desde 1987 a atriz não empresta seu talento à tevê. “De repente, fazer novela ficou complicado porque é um compromisso de quase um ano”, justifica ela, que, no momento, dedica-se de corpo e alma à produção do documentário que resgata a história e a importância do pai, o compositor Humberto Teixeira. Remanescente da geração rock ‘n’ roll, grande amiga de Cazuza, Denise Dummont admite que o projeto não só promoveu o seu reencontro com a figura paterna, mas também uma aproximação mais aberta com o gênero musical que sacudiu o país nas décadas de 1940 e 1950: o baião.
“É um projeto que me permitiu descobrir quem foi o meu pai. É diferente você descobrir a vida de uma pessoa depois que vira adulto. Passei a ter uma compreensão um pouco maior de quem foi o meu pai. Nesse sentido, foi muito forte essa ‘viagem’ toda”, confessa. “Realmente, o baião não fazia ‘parte do meu show’, como diria o Cazuza. Comecei a apreciar o ritmo aos 40 anos e hoje sou fã total. Escuto não só em português como em inglês, japonês, em qualquer língua”, diverte-se.
Ouça entrevista com a atriz Denise Dummont
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