Curtas do 43º Festival de Brasília foram ofuscados pelos longas-metragens

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postado em 01/12/2010 07:17

Ricardo Daehn , Yale Gontijo

Um ano depois da consagração do curta-metragem Recife frio, eleito o melhor momento da edição de 2009 pela equipe do Correio, o 43º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro frustrou os espectadores que esperavam por novas maravilhas no formato de duração breve. Ao contrário da elogiada (e por vezes polêmica) seleção de longas, que apostou em ousadias, pouco se comentou sobre as produções que abriram as sessões do Cine Brasília. Com raras exceções, os curtas selecionados para a disputa de troféus Candango renderam aplausos burocráticos e certo desdém da crítica, que preferiu se concentrar nas atrações principais.

Último concorrente exibido na mostra, o carioca Custo zero reforçou a impressão de que a safra deixa a desejar. A plateia reagiu sem entusiasmo a uma trama sobre criminalidade narrada em tons de fita policial. A jornalista Maria do Rosário Caetano, que mediou os debates da mostra, não usou superlativos para avaliar o conjunto de curtas. “De médio para bom”, afirmou. O destaque, para ela, foi A mula teimosa e o controle remoto, de Hélio Villela Nunes, sobre a amizade silenciosa entre dois meninos. “É uma pequena obra-prima. Mas não houve um curta extraordinário, um Ilha das flores (de Jorge Furtado), neste ano”, analisou.

Gato do Parque/Divulgação
Para os realizadores, no entanto, a seleção agradou pela diversidade de temas e estilos. “Percebi que os curtas er am muito diferentes uns dos outros. Tinham uma pegada diferente. Sobre os longas, em que a gente viu realmente uma mistura de documentário e ficção, não acho que foram tão ousados”, comentou Fernando Segtowick, de Matinta. Ator do curta-metragem Contagem, Léo Pyrata enxergou uma reviravolta na seleção de curtas desta edição e classificou a curadoria como corajosa. “Essa aposta em filmes mais jovens e mais baratos é muito importante historicamente. A tendência já está surgindo em outros festivais também”, disse.

Para Érico Monnerat, cineasta brasiliense que apresentou Falta de ar, essa foi uma edição generosa para os diretores de curtas. “Foi uma democracia do jeito certo. Incluiu todo mundo e não privilegiou nenhum polo de produção”, destacou, citando como exemplo filmes de Pernambuco, do Pará e do Amazonas. Além da diversidade geográfica da produção, Monnerat acredita que os curtas selecionados apresentam temáticas que se equilibram entre o documentário e a ficção.

Impressão de estilo
Com quase 20 anos dedicados ao audiovisual, Dirceu Lustosa, diretor e técnico em múltiplas áreas de 80 filmes, se entusiasmou nos projetos de curtas que abraçou (como Falta de ar e Braxília), vendo jovens “dominarem o monstro mecânico do set e se adequando à metodologia de trabalho”. Na opinião dele, porém, “os curtas não tiveram a mesma linha de renovação” dos longas. “Os diretores que desabrocharam para o processo estavam em busca da impressão de um estilo. Vi um repertório de imagens criativas, mas em estruturas de narrativas não necessariamente inovadoras”, observou.

Colorista e responsável ainda pelo planejamento de pós-produção e da edição de som de Braxília, que recebeu a resposta mais positiva de público na edição do festival, Lustosa aponta como exemplo a perspectiva de produtos simples e bem acabados. “Tivemos filmes clássicos, como A mula teimosa e o controle remoto, mas que funcionaram muito bem”, pontuou. “Senti a mão dos diretores em busca do próprio tom. Percebi que pudemos sentir vários sotaques nos filmes”, reforçou o pernambucano Pablo Polo (de Café Aurora).

“As ousadias artísticas dos longas foram bem maiores, como a gente percebeu em filmes como A alegria e O céu sobre os ombros, que trouxeram uma série de indagações”, comentou Polo, enfatizando que se tratou de “uma questão de levas”. Ciente da diversidade da seleção, o realizador destacou o manauara Cachoeira (de Sérgio de Andrade), que trouxe indígenas “fora de um estereótipo”. “Apesar de trazer uma relação mística, eles souberam usar com sabedoria a exposição do regionalismo. Dá para ser ousado, mesmo sob a breve estrutura do curta”, disse.

CONTRASTE
» Exemplar único na competitiva entre os curtas-metragens 35mm, a animação O céu no andar debaixo (***) demonstrou o vigor inerente ao gênero, no último dia de exibições no Cine Brasília. Dirigido por Leonardo Cata Preta, a exótica história de amor entre um autônomo rapaz portador de necessidades especiais e uma desconhecida ganhou muito com o inusitado tratamento ácido. Desencontrado, num rascunho de projeto a serviço de trama bastante rasa, Custo zero (H), de Leonardo Pirovano, trouxe uma carga estética retrô ao festival, que foi sacolejado pela inventividade nos longas. Faltou o mínimo de domínio na integração de cenas estanques na fita com ares de raspa do tacho. (RD)

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