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Vencedor do Jabuti, José Rezende Jr. lança coletânea Estórias mínimas

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postado em 03/02/2011 08:00

Nahima Maciel

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
O escritor José Rezende Jr. ficou intrigado quando ouviu falar do Twitter. Foi no fim de 2009, e a ideia de escrever ficção com apenas 140 toques parecia desafiadora. Rezende abriu a conta no Twitter, mas acabou atropelado por um convite. Mal teve tempo de aprender o funcionamento do site antes de aceitar escrever microcontos para uma coluna semanal na revista eletrônica Terra Magazine. A prática virou um exercício divertido e cheio de humor, que agora salta das páginas da rede para o papel em Estórias mínimas. Publicada pela 7Letras e com lançamento marcado para hoje no Café com Letras, a pequena coletânea reúne 194 microcontos marcados pelo olhar melancólico e, eventualmente, bem-humorado do autor.

Há temas que não escapam à pena de Rezende. Solidão, amores e desamores, desejo, morte, violência, tempo e envelhecimento perpassam os microcontos da mesma forma que deram o tom aos textos de Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras estórias de amor), vencedor do Jabuti de melhor livro de contos de 2010. “O grande diferencial dos contos normais no meu processo de criação é o tempo de maturação. Até a ideia virar um conto é um demorado. Nos microcontos, o tempo de maturação é curto. Eu sentava no computador e escrevia”, comenta.

O humor está entre os diferenciais mais notáveis da estórias de duas linhas. Houve pouco deste componente nos contos de Eu perguntei pro velho…. Rezende não gosta do humor gratuito, do riso pelo riso, por isso evitava um pouco esse estado de espírito. Nos microcontos, fez concessões. “Não foi proposital, o humor surgiu como um elemento”, avisa. O limite entre aforismos, piadas e verdadeiras micronarrativas está na capacidade de inserir um universo ficcional nos 140 toques. “Minha intenção é contar uma história. Tem personagens. Tem um antes e um depois. E um desfecho.”

O autor gosta de definir as micronarrativas como “alminhas” ,quando se trata de comparar ao conto tradicional. “Meu conto normalmente tem muita densidade condensada. Quando termina, os personagens nunca mais serão os mesmos. No microconto há mais densidade ainda. Tem que manter só aquela chaminha. Tem um roteiro muito reduzido, fica só o esqueleto.”

Viveiros de Castro Editora/Reprodução
Muitos contam também com personagens recorrentes, como a série de 11 microcontos intitulada Solidão, sobre amores desfeitos, ou as historietas sobre matadores e pistoleiros. Rezende encontra espaço ainda para reverenciar autores aos quais dedica certa devoção, como Guimarães Rosa, cujo sertão aparece aqui e ali nas miniaturas de Estórias mínimas. O livro, inclusive, é dedicado ao cachorro Miguilim, companheiro de Rezende em caminhadas matinais pelas superquadras brasilienses, muitas delas frutíferas para as micronarrativas.

Alminhas

Solidão (Nº 1)
Foi embora e não levou nada — só tudo que eu tinha.

Desencanto
Mais de uma hora vestindo-se para ele. Em menos de 15 minutos, estava nua e infeliz.

Tempos modernos
Tinha três celulares e nenhum amigo. E parece que não se relacionava muito bem com os três celulares…

Lupicínio
Doíam tanto as dores do amor que a mãe precisou interná-lo. Saiu curado da UTI, jurando nunca mais amar. Em menos de mês veio a óbito.
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