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Correio Braziliense

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Registro de algumas montagens de Maurício Witczak são reunidas em livro

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postado em 24/02/2011 08:30

O casal toma o assento no avião imaginário. Decolagem. Os dois, sentados em poltronas no corredor, iniciam um diálogo:

Mulher — Não se esqueça de colocar o cinto de segurança.

Homem — Por quê? Você tem medo de que eu fuja?

Mulher — Você imaginou que conseguiríamos voar juntos por tanto tempo?

Homem — Voar juntos? Mas há um corredor entre nós! Não estamos juntos!

Mulher — Claro!  Você não marcou os assentos, por isso tivemos que sentar separados, lembra?

Homem — É, não marquei. E você perdeu os passaportes.

Mulher — Teria sido fácil buscá-los, se você não tivesse perdido as chaves de casa.

Homem — Se você não tivesse perdido o cartão de crédito, não teríamos perdido o táxi.
Mulher — Eu não perdi o cartão, eu perdi a senha.

Homem — O quê? Você perdeu a senha? Eu não acredito que você perdeu a…

Mulher — E você perdeu… perdeu…é…o… filtro solar

Homem — É perdi mesmo! É perdi também a nécessaire com tudo dentro?

Mulher — (Chocada) O quê? A nécessaire?

A conversa nonsense, que move a narrativa dramática de Caixa preta, saiu da cabeça borbulhante de Maurício Witczak, um dos dramaturgos mais produtivos do Distrito Federal. Em 14 anos de trabalho, ele concebeu 18 textos para o teatro, 11 deles montados em palcos candangos. Hoje, às 21h, no Caribeño (próximo ao Pier 21) é um dia especialíssimo para o autor. Não, não será mais uma estreia teatral. É o registro de algumas dessas montagens em livro, algo cada vez mais raro de acontecer no país. Comédias, dramas e absurdos do amor em seis peças teatrais (Teatro Caleidoscópio e Dulcina Editora) traz, além de Caixa preta, Nós dois no parapeito, Entre oitos paredes, A psicológica do amor, Os sapatos do nó e Estação felicidade — É uma sensação maravilhosa poder ver um produto criativo tão valioso pra mim deixar a efemeridade dos palcos e se eternizar no universo literário. É inevitável não pensar na máxima: “Eu vou... mas as obras permanecerão...”, comemora.

Paulo de Araujo/CB/D.A Press - 3/5/06
Maurício Witczak revê essa obra depois da complexa experiência delas terem sidos montadas. Até chegar ao livro, os textos foram modificados e ganharam maturidade ao longo dos processos de encenação.

— Leituras dramáticas são fundamentais para o primeiro acolhimento da obra. Nas encenações, as contribuições dos atores e da direção podem se tornar a alma da obra dramatúrgica. No meu caso, às vezes, soluções dramatúrgicas mais complexa surgiram desse rico processo. O público também é um outro termômetro essencial para o dramaturgo e faz parte dessa obra orgânica que é o espetáculo teatral.

Nessa energia de troca que surgiu entre Maurício Witczak e o palco, está a figura do amigo e diretor André Amaro, que montou, atuou e dirigiu diversos textos do dramaturgo. No livro, o laço naturalmente se estreita porque o diretor comanda o Teatro Caleidoscópio — coeditor da obra com a Dulcina Editora.

— A afinidade artística com o André é antiga, mas se firmou, em 2005, quando ele e a Wol Nunes dirigiram Caixa preta, um texto que eu considero como um dos mais maduros do ponto de vista literário. Desde então, tenho partilhado com esse grande diretor todas as minhas criações dramatúrgicas, o que me faz crescer sempre.

No livro, Maurício traz o primeiro texto, espécie de xodó, Entre oito paredes, que nasceu de um desafio despretensioso proposto pela atriz Wol Nunes, em 1998.

— Ela pediu para eu escrever uma tragicomédia sobre a solidão e as neuroses contemporâneas. E o filhote nasceu!

Maurício tomou tanto gosto pelo primeiro filho que aliou a busca de inspirações com o trabalho braçal de escrever. Ele costuma dizer que cria a partir de situações banais do cotidiano e de acontecimentos chocantes que geram reflexões sobre a vida humana. Tanto trabalho o fez se associar intimamente à dramaturgia concebida no DF.

— É um trabalho corajoso, porque o caminho da criação original é sempre o da ousadia, mas tem recompensas maravilhosas. Tenho muito orgulho de ser um dramaturgo em intensa atividade e acho que Brasília é sim um celeiro cultural e deve desenvolver todas as facetas da criação artística.
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