Na cidade, autores de língua espanhola comentam produção hispano-americana

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postado em 29/06/2011 10:19

No Brasil, é comum encontrar traduções de modernos clássicos da literatura hispano-americana, de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, ambos vencedores do Prêmio Nobel de Literatura (em 1982 e 2010, respectivamente). O que não é fácil achar nas prateleiras são as produções mais recentes de escritores em língua espanhola. “Se considerarmos figuras como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Carlos Fuentes, a literatura hispano-americana é uma das mais importantes e influentes dos últimos 50 anos”, destaca o professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília (UnB) Enrique Huelva. Segundo ele, poucas obras de hoje são traduzidas para o português, o que representa “um bloqueio para a troca de experiências culturais”.

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

O 1º Encontro Brasiliense de Escritores Hispano-Americanos, realizado este mês na Embaixada do México, como parte das atividades da Semana do Espanhol em Brasília, reuniu escritores de países como Chile, México, Espanha, Venezuela, Colômbia e República Dominicana. “Nós trouxemos elementos para as pessoas interessadas em enriquecer o conhecimento do idioma”, diz Alejandra Latapi, conselheira de assuntos culturais da Embaixada do México. Quarta língua mais falada no mundo (por 450 milhões de pessoas, segundo o livro The Ethnologue: languages of the world), o espanhol perde apenas para o mandarim (1,051 bilhão), o hindi (565 milhões) e o inglês (545 milhões).

Uma das participantes do evento foi a mexicana Cristina Rascón. Nascida em Obregón, em 1976, ela é mestre em política pública comparada pela Universidade de Osaka, no Japão. Publicou quatro livros, entre contos, metaficção e ensaios sobre economia, mas nunca teve uma obra lançada no Brasil. “Quando escrevo economia, tenho que ser racional. Quando escrevo literatura, tenho que ser passional. Uma coisa enriquece a outra. Minha formação em economia me ajuda a construir personagens mais verossímeis”, comenta a autora.

Em 2010, Cristina lançou Puede que un sahuaro seas tú, com lendas criadas por ela. No conto que dá nome ao livro, uma menina segue com a mãe pela estrada e observa os cactos altos. Ela lembra que a avó lhe dizia que cada cacto (sahuaro) tem um espírito, uma alma humana. Para encontrar o próprio sahuaro, basta saber a verdade sobre si mesmo. A menina então parte para buscar esse cacto no meio do deserto.

Diversidade
De acordo com o catalão Fernando Martínez Laínez, designar um conjunto de obras como literatura em língua espanhola é generalizar. “Cada país tem suas características, que diferem bastante”, comenta o autor de 70 anos, que em 2007 lançou Lobos hambrientos, sobre o fenômeno guerrilheiro para a expulsão das tropas napoleônicas durante a Guerra da Independência Espanhola. O anterior, Escritores espías (2004), é um livro de não ficção sobre grandes escritores que decidiram ser agentes secretos.

Já o venezuelano Juan Carlos Chirinos critica o “complexo patriótico, antiquado” que separa a criação da península espanhola dos outros países que falam espanhol. “Isso não faz sentido. Literatura são livros, e não orgulho”, afirma o escritor nascido em 1967, em Valera, cidade dos Andes venezuelanos, hoje morador da Espanha. “Não acredito nessa separação porque ela não existe. É um conceito imposto de fora a um conglomerado de países que tem uma parte da história em comum, mas não toda.”

Para Chirinos, o termo hispano-americano pode ser prejudicial à medida que simplifica a diversidade de culturas. “Todos os que escrevem em espanhol são escritores da minha terra, porque nessa literatura não existem mais fronteiras. E todos me influenciam, até quando não quero escrever como eles”, conta o autor, fundador da revista eletrônica La Mancha, que reúne publicações de escritores espanhóis e venezuelanos.

Juan Carlos Chirinos é autor de Alejandro Magno, el vivo anhelo de conocer (2004); Albert Einstein, cartas probables para Hann (2004); La reina de los cuatro nombres. Olimpia, madre de Alejandro Magno ( 2005); Miranda, el nómada sentimental (2006). Nenhum de seus livros foi publicado no Brasil.

 

Duas perguntas - Juan Carlos Chirinos

Como a Espanha influenciou a sua obra?
A viagem a Salamanca foi um reencontro com as raízes hispânicas, sem o qual eu não poderia ter decidido escrever ficção. Madri é a minha cidade favorita. É uma torre de onde observo, compreendo e critico o mundo. É uma cidade que se molda com facilidade aos novos pensamentos e os deixa fluir.

Como o senhor começou a escrever biografias? Qual é a sua favorita?
Sou um apaixonado pela História e por Plutarco. Por isso, escrevo e leio biografias. Me interessam muito os personagens sobre os quais escrevi, mas se tivesse que escolher um, ficaria com Francisco de Miranda, precursor da independência no meu país, porque me identifico com sua vida de imigrante e viajante.

 

Duas perguntas - Fernando Martínez Laínez

Em quais países o senhor morou e como eles influenciaram sua obra?
Vivi na Argentina, em Cuba, no Uruguai e na antiga União Soviética, o país que mais influenciou a minha obra. Não só pelo passado literário, mas também pelos ecos da Guerra Fria, que influenciaram autores ligados ao romance negro ou ao de espionagem.

Quando começou a escrever?

Escrevo desde que comecei a ler, uma vez que sempre gostei de anotar os livros que estou lendo. Escrevo por algum impulso instintivo. Escreve-se porque se sente a necessidade de fazê-lo.

 

 

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