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Publicação: 31/10/2011 08:35 Atualização: 31/10/2011 10:43
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Tributos em várias cidades
O Rio, cidade que abrigou o poeta por mais de cinco décadas, também preparou suas homenagens. Além da leitura na ABL, o Instituto Moreira Salles, na Gávea, preparou seu Dia D. O projeto tem a curadoria de Eucanaã Ferraz e Flávio Moura, e inclui a participação de diversos famosos e anônimos lendo poesias de Drummond. Na capital fluminense, livrarias, escolas e universidades também prestarão loas à lírica de Drummond. Os tributos se espalham ainda por São Paulo, Belo Horizonte, Itabira (MG)
e Paraty (RJ).
Poemas
Ausência
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais
de mim.
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Três perguntas // Armando Freitas Filho
Severino francisco
O carioca Armando Freitas Filho, considerado um dos maiores poetas brasileiros vivos, começou a ler Carlos Drummond aos 15 anos e nunca mais parou. Ele classifica a poesia de Drummond como a sua segunda pele e fala sobre a perenidade da poesia do vate mineiro.
Podemos falar de Carlos Drummond à queima-roupa?
É sempre melhor falar de Drummomd à queima-roupa, ele sempre está à flor da pele. Drummond é a minha segunda pele.
E por quê?
Por que a sesnbillidade dele não é cerebrina; é epidérmica. Quando eu tinha 15 anos, ganhei um disco do meu pai em que no lado A havia Manuel Bandeira recitando os poemas dele e, no lado B Carlos Drummond. Bandeira era considerado o grande poeta, que de fato era, e Drummond, um poeta encrencado. Acho que a grande façanha intelectual de minha vida foi ter passado do lado A para o lado B. Nunca terminei, ler Drummond é uma tarefa infinita. Agora mesmo, estou escrevendo um texto e preciso consultar Drummond nas minhas estantes caóticas para ver com que palavras ele descreve determinadas situações.
O que considera mais espantoso em Drummond?
O fato de que ele é um poeta multifacetado. O texto que abre o seu primeiro livro chama-se Poema de sete faces. Mas ele foi modesto, pois tem muitas mais faces e interfaces. Há um verso dele que expressa muito bem essa condição: "De todos os prismas de uma joia/Quantos há que não presumo?! Representa não apenas as multifaces de sua poesia como também de sua personalidade humana, que era interessantíssima. Sou um dos poucos que o conheceram e ainda está vivo.
O que era interessante nele do ponto de vista humano?
Ele era um supermineiro, reticente, irônico, driblador. Drummond é um verdadeiro Garrincha. Sempre falava com ele ficava surpreendido com algo. Certa vez, ele me disse que um poeta só tem o livro na mão quando sabe os poemas que começam, jogam no meio e fecham o livro. Isso, na verdade, a vida de um escritor nos vários livros que ele vai compondo.
Por que você afirmou que os livros de Drummond se parecem com a Bíblia?
Na verdade, eu diria que os livros dele são uma bíblia. Na minha juventude vivendo na casa de uma família católica havia um livrinho chamado A imitação de Cristo. Os meus pais diziam que ha hora em que estivesse aflito e abrisse o livro encontraria um consolo e uma resposta. Sempre fiquei na dúvida porque o conteúdo era muito genérico. Mas nos livros do Drummond você encontra mesmo as respostas para os sentimentos e os dilemas humanos.
Poderia dar um exemplo?
Quando o Drummond morreu, eu e o Hélio Pelegrino fomos entrevistados no cemitério. Eu disse que Drummond era maior do que o Brasil. O Hélio declarou que não se entenderia como gente sem a poesia do Carlos. Ela traz a qualquer pessoa que a leia a fundo uma visão da vida mais geral e da mais imanente. Drummond passa do trivial para o metafísico em um átimo. No poema Nudez, ele escreve: "Não cantarei amores que não tenho/ e quando tive nunca celebrei./Não cantarei o riso que não rira e que se risse ofertaria aos pobres." Mas no verso seguinte, ele diz: "Minha matéria é o nada". Num estalar de dedos, ele nos lança no ar rarefeito da transcendência.
Guimarães Rosa disse que lia alguns autores pela literatura, mas Clarice Lispector, era pela vida. É possível dizer o mesmo de Drummond?
Clarice e Carlos Drummond foram um casal perfeito, ele com o olho azul de bola de gude e ela com aquela beleza asiática. Se morassem na mesma casa, iam passar voando um pelo outro. Mas, na verdade, a gente lê os dois tanto pela literatura quando para a vida, pois são bifrontes. Assim como a gente não lê Grande Sertão: Veredas apenas pela peripécia linguística, mas também pelo drama humano do amor impossível.
A poesia de Drummond anunciou e prenunciou um mundo terrível de desumanização e de maquinização do homem. Como vê o confronto da poesia dele com o nosso mundo pós-moderno?
Acho que a poesia dele se sai muito bem no confronto porque foi escrita para sempre. Ilumina o que é mais cotidiano e menos excepcional. Você lê um poema como A bomba e parece que foi escrito hoje.
Que poema ou verso de Drummond representaria melhor para você os tempos que estamos vivendo?
O poema A flor e a nausea. Ele diz: "Melancolias, mercadorias espreita-me". Mas destacaria o verso final sobre a flor que vara o asfalto: "É feia, mas é uma flor, furou o asfto, o tédio, o nojo e o ódio. " É um verso matador. Se Drummond fosse toureiro, teria matado o touro.
Dia D – Homenagem a Carlos Drummond de Andrade Hoje e amanhã, a partir de 18h, no Sebinho (406 Norte, BL. C; 3447-4444). Entrada franca. Classificação indicativa livre.
VEJA A PROGRAMAÇÃO COMPLETA:
Segunda:
18h – Pocket Poético com Hugo Lacerdda (voz) e Jéssica Macoratti (piano)
19h – Conversas sobre a poesia de Drummond – Professores Alexandre Pilati (Unb) e Luiz Carreira (acasa – Escola Contemporânea de Humanidades)
20 – Declamação de poemas de Drummond – com Hézio Teixeira
Terça:
18h – Declamação do poema "O caso do vestido" – Jéssica Naara, Fernanda Silva e Verônica Silva
19h – Exibição do filme "O poeta de 7 faces" – do diretor Paulo Tiago
De
até
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