Escritores, editores e consultores dão dicas sobre como publicar um livro

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postado em 21/11/2011 08:33

Regina Bandeira /Especial para o Correio , Especial para o Correio

Antonio Cunha/Esp. CB/D.A Press

Publicar um livro já foi uma aventura épica, mas os tempos mudaram e surgiram opções acessíveis. Existem várias editoras pequenas que podem fazer isso, mas para seu livro ser vendido, você tem de trabalhar.

Esqueça a imagem do editor compreensível que transforma sua obra num best-seller num passe de mágica. Nem para a autora de Harry Potter foi moleza. Para conseguir um lugar nas cobiçadas prateleiras das livrarias, seu produto terá de ser apresentado nas redes sociais, nas feiras e até mesmo em bares  pela cidade. “Não se compra aquilo que não se conhece. Para ser conhecido, é preciso fazer propaganda e os independentes não têm dinheiro para isso”, resume o gerente e editor da Editora Thesaurus, Tagore Alegria, que sugere técnicas de guerrilha aos autores independentes.

“Comece avisando todos os amigos, familiares e conhecidos sobre seu livro. Depois, faça panfletos, divulgações em escolas ou bares. E não esqueça os livreiros; eles são sensíveis aos autores independentes”, ensina o filho de Victor Alegria, um dos mais antigos editores de Brasília.

A técnica tem dado certo para Gregório Borges. Em 2010, depois de finalizar A batalha do universo inconsciente, o geógrafo de 28 anos enviou cópias de sua primeira obra para as grandes editoras do eixo Rio-São Paulo. Elas o ignoraram solenemente. Insistente, o autor decidiu buscar editoras menores. Encontrou uma que prometia além do pacote básico — revisão e publicação de seus escritos — espaço em feiras e livrarias. Foram parar na Bienal de São Paulo, onde vendeu pouco mais de 60 unidades.

Ao voltar a Brasília, organizou novo lançamento. Para encher o foyer da Livraria Cultura, chamou conhecidos pelas redes sociais. Contou a todos os amigos do Orkut que estava com um livro na praça, fez o boca a boca entre conhecidos e percebeu que precisaria ir mais longe para não ficar restrito a amigos dos amigos. Foi quando decidiu ir pra rua.

“Agora, levo meu livro para grandes eventos, festivais de cinema, de blues, bares da moda. É uma aventura. A gente pode conhecer gente que se interessa por literatura e, de fato, aumentar o número de leitores”, diz, com jeito de veterano. “Mas há noites terríveis. Já fui enxotado de mesa”, pondera o autor, que tem vendido em média cinco livros nas melhores noites.

No entanto, ele não se esquece de fazer a política de boa vizinhança com as livrarias da cidade e deixa sua obra em consignação em várias delas, como na Livraria da Rodoviária, na Dom Quixote, no Café com Letras, no Sebinho e na Livraria Cultura; a megastore acolhe autores independentes, respeitando a lógica de mercado.

Exposição
O que isso significa? Que lá a venda de livros depende unicamente da demanda pelas  obras. “O que vai determinar a permanência do livro na loja ou o tempo de exposição nas prateleiras é sua atratividade; a demanda por ele. Se tivermos interesse em vender o livro, não exigimos sequer CNPJ ou código de barra”, diz a analista de compras da Livraria Cultura do Iguatemi, Maria Hermana.

No ano passado, a compradora até fez um evento com autores brasilienses para impulsionar suas vendas, mas a tentativa fracassou e os independentes devem ser competitivos se quiserem garantir um lugar na vitrine. “Para consolidar a venda, é preciso que o autor ache seu nicho, seus leitores, e saiba vender seu produto de forma adequada. E isso se dá fora da livraria”, avalia.

A caminho do 10º livro, todos produzidos e vendidos de forma 100% alternativa, sem ajuda de uma editora ou distribuidora, o escritor Wilson Lavareda bateu de porta em porta das escolas públicas e particulares a fim de conquistar os professores e garantir a leitura de seus livros pelo seu público — maioria na faixa da sétima e oitava séries. Este ano, 16 escolas adotaram seu livro O beijo, entre elas, o rígido Colégio Militar.

Sem recursos
As experiências desses autores revelam que o difícil não é escrever a obra. O desafio maior vem depois. Sem recursos para criar ou pagar a comunicação, distribuição ou divulgação — tudo é feito pelo próprio escritor — é preciso buscar espaços livres e gratuitos. “Meu último livro foi lançado na Biblioteca Demonstrativa de Brasília. Esse é o maior desafio: pedir para que outras pessoas abram espaços para mostrar o seu trabalho”, diz Lavareda, que pediu demissão para viver de literatura. Mas ainda é a esposa quem sustenta os gastos da casa.

Viver da venda de livros também não pagaria todas as contas do escritor e administrador de empresa Álvaro Modernell, 45 anos. Exemplo de autor independente que achou um nicho específico (educação financeira e ambiental), Modernel vem conseguindo boas vendas com suas obras voltadas para o público infantil. Em seis anos, teve 150 mil livros comercializados, sendo as escolas as maiores consumidoras desses títulos. “Viver de venda de livros em um país que lê muito pouco é um desafio. Nessa cadeia produtiva, os autores são os que ficam com a menor fatia da pizza”, alerta.

O que prova o outro desafio dos independentes: para se ter uma obra vendida de forma consistente não basta apenas divulgação, é preciso que o livro — além de bem escrito, suscite interesse no público. J. K. Rowling demorou seis anos para concluir a história de Harry Potter. Apesar de andar pra lá e pra cá com ouro puro nas mãos, recebeu negativa de oito editoras antes de conseguir publicar as aventuras do bruxinho inglês.


O que reforça a tese de que os livros não acontecem por acaso. Apenas como estímulo: as histórias de Harry Potter venderam 450 milhões de exemplares até agosto de 2011, tornando a inglesa Joanne a autora mais rica do mundo.

Um escritor nas alturas
Do alto dos tamancos gregos de madeira, ele atinge 2,12m. É de cima dessa plataforma que o professor e escritor paraibano Paulo Cavalcante divulga o livro O martírio de viventes, seu primeiro romance. A roupa mostra a presença da figura sertaneja. Vestido de cangaceiro, o escritor já vendeu mais de 8 mil exemplares do livro, que está na 6ª edição. Com divulgação independente, ele sai em eventos como feiras de livros, vaquejadas, praias e quiosques. “Fico parado, parecendo uma estátua, e assim acabo despertando a curiosidade das pessoas, que vão se aproximando para ver o que estou fazendo”, explica. Paulo chega a permanecer 12 horas em cima dos tamancos. “Subo na plataforma quando a feira abre e de lá só saio quando fecham as portas”, garante. A criatividade valoriza os acessórios da vestimenta do personagem. Os tamancos, que medem 35cm, servem de marmita. Embaixo da plataforma de aço, ele guarda alimentos para aguentar a maratona, como maçã, castanha e banana. Em 112 páginas, conta a saga de uma família que atravessa uma seca com duração de 21 meses.

 

Prepare-se

Pensar, escrever, editar, revisar, diagramar, publicar, distribuir, lançar. O caminho é longo, mas não chega a ser tortuoso. Abaixo, as dicas dos autores, livreiros e editores para quem quer entrar para o seleto e combativo grupo de autores independentes.

» Leia muito. Participe de oficinas de literatura.

» Faça intercâmbio com outros autores. Na troca de ideias, as críticas e sugestões aparecem naturalmente.

» Edite no máximo mil livros para não ter de entulhá-los na sua casa. Uma tiragem menor também não é recomendável, pois há pouco impacto no valor.

» Ser independente não significa ser amador. A estrutura utilizada na produção do livro deve ser cuidadosa. Se o tema necessitar, busque assessoria de psicólogos, pedagogos, jornalistas. A distribuição é uma área complexa.

» Faça uma lista das livrarias da cidade e converse com donos e gerentes, a fim de tentar mobilizá-los. Algumas livrarias, como a Cultura, enviam relatório trimestral das vendas e depositam os valores na sua conta.

» No esquema de consignação, tenha uma tabela com a quantidade de livros que cada livraria ficou para controlar a vendagem e garantir que os créditos sejam pagos corretamente.

» Mexa-se! Divulgue seu livro nas redes sociais —Facebook, Twitter, Orkut.

» Faça um blog. Vá a escolas ou instituições que tenham a ver com o tema de seu livro.

» Participe de feiras de livro, de ciclos de debates
e palestras.

» Leve seu livro para grandes eventos, festivais
e bares da moda.