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Prostituta Gabriela Leite aplaude atriz que dá voz à sua história no palco

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postado em 27/01/2012 13:47

Quando a mulher Gabriela Leite ficou diante da personagem “Gabriela Leite”, sabia que o reflexo era um simulacro. Tinha consciência de que o tipo criado por Alexia Dechamps era uma inspiração à sua trajetória, ao seu jeito de ser, de pensar e se portar. O que ela não tinha dimensionado era a capacidade do teatro de potencializar e transformar essa composição a cada sessão. Na que assistiu em Brasília (a quinta experiência), não se conteve em risos e em emoção quando a atriz, no meio da entrevista, retirou os óculos do rosto, alinhou à frente da visão e avaliou o nível de sujeira das lentes. “Aquele gesto é muito meu. Alexia tem enriquecido essa peça de detalhes que me impressionam a cada vez que vejo”, conta a ativista pelos direitos das prostitutas.
Arquivo Pessoal

Prostituta é mesmo a palavra preferida. Gabriela Leite não é mulher de eufemismo e o termo “profissional do sexo” acaba escamoteando todos os estigmas, que cercam e massacram a atividade ainda fortemente discriminada pela sociedade brasileira. Essas ideias estão em Filha, mãe, avó e puta — Uma entrevista, espetáculo que ocupa o palco do Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). A peça é a extensão do corajoso e essencial livro de memórias da estudante de filosofia, que resolveu se prostituir na Grande São Paulo, tornando-se, tempos depois, a principal voz contra os preconceitos e a supressão de direitos das prostitutas no Brasil. “O teatro tem levado o meu discurso para outro público. Assim como os desfiles da Daspu (a grife) também o fizeram”, comemora Gabriela.

Respeitada no Brasil e no exterior pelo sério trabalho à frente da ONG Davida, sobretudo, em questões relacionadas à prevenção à Aids e DSTs, Gabriela Leite emociona-se quando, ao fim da peça, Alexia Dechamps se levanta da bancada de entrevista e anuncia que a personagem sonha em envelhecer cozinhando numa cidadezinha do interior ao lado do companheiro de amor e vida, o jornalista Flávio Lenz. Sentada próxima a ele na plateia, ela não esconde as lágrimas ao ser chamada para o palco a fim de receber rosas vermelhas e as palmas entusiasmadas da plateia. “Quero agora dar espaço mais a mulher e menos a militante. É difícil, mas estou aos poucos cuidando mais da minha vida particular. Selecionando as viagens, abrindo caminhos para outras mulheres ocuparem a luta.”

Voz de muitas
Gabriela Leite sabe que o Brasil ainda está tateando em algumas das questões cruciais sobre a prostituição no país. É a voz que dialoga com algumas lideranças progressistas do Congresso Nacional para, pelo menos, desarquivar o projeto de lei que descriminaliza a atividade. É ela também que vai à mídia para explicar que abuso sexual de menores e tráfico de mulheres não têm nada a ver com a prostituição em si. São casos de polícia. Está sempre a postos para garantir o direito de ir e vir da mulher, lembrando que, por aqui, se prostituir não é crime. “São muitas batalhas, mas preciso de mais tempo para me dedicar, por exemplo, a escrever.”

A escrita de Gabriela Leite, tão bem posta à boca de Alexia Dechamps, vem da alma, das alegrias e dores da vida, sem vitimização alguma e cheia de orgulho. Daqui a pouco, o livro que virou peça vai se transformar em filme e o discurso da mulher-militante será massificado. Dá um frio na barriga ser tão exposta assim. Mas a experiência do teatro deu uma acalmada. “Lembro-me de ter ficado bem nervosa às vésperas da estreia no Rio, quando encontrei uma produtora que comentou ter ficado chocada com um estupro sofrido por mim. Gente, eu nunca fui estuprada. Depois, entendi que foi uma interpretação dela.”

Aliviada depois da estreia, Gabriela segue a rotina de dormir lá pelas altas da madrugada, acordar bem tarde, se reunir nos botecos de verdade para despachar, fumar os seus cigarros e beber os bons drinques. “Sou uma mulher livre, não gosto que me digam o que tenho de fazer. Decido o que faço da minha vida”, conta. Autônoma, ela enfrentou, nos bastidores do espetáculo, quem a questionou sobre a escolha de Alexia para o papel. Alguns estranham “uma mulher bonita, alta, loira, modelo” fazer essa personagem. “Descobri que ela sofria preconceitos e isso fortaleceu o nosso encontro. Depois, foi ela quem me escolheu, o que acho muito corajoso.”

Doce, amável, sensível, bem-humorada, dona de opiniões fortes e inteligentes, Gabriela Leite tem o dom de cozinhar e de fazer crochê. Recentemente, deu de presente um tapete lindo para Alexia. O tempo que clama para si tem a ver também com a vivência de avó, de mulher e de companheira. De cuidar da saúde, de olhar a natureza e de se orgulhar do passado de puta. “Puta mesmo”, reitera ela, que tem tantos papéis resumindo em um só: o de grande cidadã brasileira.

FILHA, MÃE, AVÓ E PUTA — UMA ENTREVISTA

Direção: Guilherme Leme. Com Alexia Dechamps e Louri Santos. De quinta a domingo, sempre às 19h30, no Centro Cultural Banco do Brasil (SCES, Tc. 2, Cj. 22; 3108-7600). Ingressos: R$ 6 e R$ 3 (meia). Não recomendado para menores de 14 anos. Até 5 de fevereiro.

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