Centenário de Herivelto Martins será comemorado em poucos eventos

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postado em 30/01/2012 10:30 / atualizado em 30/01/2012 14:27

Gabriela de Almeida , Maíra de Deus Brito

Há exatos 100 anos nascia no distrito de Rodeio (hoje Engenheiro Paulo de Frontin), no Rio de Janeiro, Herivelto de Oliveira Martins, aquele que viria a ser um dos principais nomes da música popular brasileira. Filho de Carlota de Oliveira e do agente ferroviário Félix Bueno, Herivelto Martins tornou-se conhecido pelas lindas composições e pelo tumultuado relacionamento com Dalva de Oliveira, cantora que dividia o palco com ele no Trio de Ouro, ao lado também de Nilo Chagas.

O pai, Félix Bueno, amava o teatro. E amava tanto que conduziu o filho para a vida artística o ensinando a tocar instrumentos, a se vestir adequadamente e a se comportar no palco. O ensinamento começou cedo. Aos três anos, Félix colocava Herivelto em cima de pequeno tablado para cantar versinhos como “Tenho 3 anos de idade/Nasci para namorar/Toda moça bonita que vejo/Me dá vontade de casar”. Já aos 9, Herivelto compôs o primeiro samba, Nunca mais. No total, foram cerca de 700 composições, entre tangos, sambas, marchas de carnaval, valsas e jongos africanos.

A infância e a juventude se dividiram entre a Barra do Piraí (RJ) e o Brás (SP), mas ele não se adaptou à vida de paulistano e, aos 18 anos, partiu rumo ao Rio. Na capital carioca, passou fome e fazia um bico de barbeiro no Morro de São Carlos nos fins de semana, para bancar o feijão à Camões (um prato de feijão preto com uma colher de arroz no meio), que era só o que ele podia pagar. E foi naquela barbearia da Zona Norte do Rio que o músico conheceu José Luís Costa, o Príncipe Pretinho (autor de Só para chatear, sucesso no carnaval de 1948). O sambista renomado o levou para um ensaio do conjunto de J.B. de Carvalho, grupo em que Herivelto conheceu Francisco Sena, seu companheiro na Dupla Preto e Branco. Depois que Sena morreu, Nilo Chagas entrou em seu lugar e, com a aparição de Dalva de Oliveira, formou-se o Trio de Ouro, que estourou no rádio.

receitadesamba.blogspot.com/Reprodução


Com Dalva de Oliveira, Herivelto Martins viveu um intenso e turbulento amor nas décadas de 1930 e 1940. O relacionamento rendeu clássicos como Tudo acabado, Errei sim, Calúnia, Palhaço e Bom dia (esta, dizem, escrita em uma tampa de uma caixa de sapatos, durante uma fase de enorme dificuldade financeira). Um dia, Herivelto mandou pelo filho Pery Ribeiro o samba-canção Fracassamos para Dalva. Ela gravou a música no seu último compacto. A canção dizia “E quanta coisa juntos nós realizamos. Porém, agora, reconheço, fracassamos”. As brigas eram impulsionadas pela mídia da época, que se satisfazia com as composições e colocava mais lenha na fogueira da dupla de artistas.

Em 2010, a história do casal ganhou ares de ficção na minissérie Dalva e Herivelto, uma canção de amor, de autoria de Maria Adelaide Amaral, com a colaboração de Geraldo Carneiro e Letícia Mey. Em cinco capítulos, a história dirigida por Dennis Carvalho focou no drama vivido por Dalva e Herivelto e terminou com a morte da cantora, em 1972. “O final da minissérie foi bem fiel. Minha mãe pedia para o meu pai ir ao hospital, mas ele não queria ir. Eu, que conhecia meu pai, achava que ele estava morrendo de medo de ver aquela pessoa que ele tanto amou, e ainda amava, se despedir da vida. Ele não queria ver isso”, conta Pery.

“O Herivelto era um extraordinário compositor e um extraordinário ser humano. Infelizmente, aquela história que a TV Globo contou o deixou como o vilão e ele não era nada disso”, diz o escritor Sérgio Cabral, que lembrou um episódio da vida de Herivelto que poucos conhecem. “O Herivelto tinha um problema cardíaco sério e precisava fazer uma cirurgia e não tinha dinheiro, nem plano de saúde. O Chico Anysio soube e entregou a ele um cheque em branco assinado e disse: ‘Só me diz depois quanto foi’. E ele fez a cirurgia. Depois, o Herivelto me contou essa história chorando, emocionado com esse gesto. Além de genial ator e autor, Chico Anysio é uma pessoa muito especial.”

O legado

Vítima de embolia pulmonar, Herivelto Martins partiu em fevereiro de 1992, aos 80 anos. A ausência “física” do músico não foi superada pelo legado que ele deixou: composições inesquecíveis, regravadas nos quatros cantos do mundo. Aqui, no Brasil, Gabriel Azevedo decidiu celebrar o ídolo com o projeto Que rei sou eu? — O centenário de Herivelto Martins. Entre os dias 1º e 3 de março, ele e o grupo Casuarina convidam Áurea Martins, Nilze Carvalho e o Moyseis Marques para cantar algumas músicas do compositor fluminense, como Praça Onze, Isaura, Ave-Maria do morro e Segredo.

“A obra do Herivelto tem muita coisa. Ele fez tangos, modas de viola, mas neste projeto priorizamos o samba. Tenho certeza que esse evento, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, dará um ‘start’ nas comemorações dos 100 anos do Herivelto. Resolvemos fazer os shows com esses convidados porque é como se fosse um tributo dessa geração da Lapa para o Herivelto. Mas ainda tem muita coisa para ser feita”, diz Gabriel.

 


A tradicional Banda de Ipanema também homenageará Herivelto no sábado de carnaval, porém, é uma das poucas lembranças previstas para comemorar o centenário. “Já tentamos produzir alguns shows, mas falta subsídio. Um projeto foi aprovado pela Lei Rouanet para fazer uma grande apresentação com a Orquestra Sinfônica de São Paulo e há quase dois anos buscamos patrocínio, mas não conseguimos nada ainda. Um trabalho em homenagem ao meu pai não pode ser simplesmente piano, baixo e bateria. É uma obra muito consistente, que merece cordas, violino, saxofone. E isso tem um custo. Não tenho a pretensão de fazer nada milionário, mas que fosse meio-termo, uma homenagem justa, honesta, sincera e condizente com a obra do meu pai. Acho que o grande público não está recebendo a obra do meu pai como poderia e deveria, o que é lamentável”, desabafa Pery Ribeiro.

» Samba quilométrico

     Em uma noite, no Cassino da Urca (RJ), Sebastião Prata, o Grande Otelo, procurou Herivelto Martins sugerindo uma música sobre o fim da Praça Onze, reduto tradicional das folias cariocas, que iria ser destruído para dar lugar à Avenida Vargas. Otelo chegou com a letra e Herivelto não aceitou por falta de tempo e por achar a letra muito grande. Depois de muita insistência, Herivelto fez uma versão mais “compacta” da obra, composta durante viagens de barca e apresentações em cassinos. A nova versão do samba deu certo e Praça Onze embalou o carnaval de 1942 na voz de Castro Barbosa e do Trio de Ouro.

O que eles dizem   

       “Grande compositor, grande artista e grande personalidade da música brasileira. Herivelto talvez tenha sido, muito antes de Vinicius (de Moraes), o primeiro ‘branco de alma negra do nosso samba’. É imperdoável que a Mangueira nunca  tenha homenageado ele, que deu a ela alguns dos seus mais lindos hinos. Herivelto pontificou nas duas áreas: a música do morro e a do asfalto. Que os seus 100 anos não passem em branco”

 » Ruy Castro, escritor


       “Sem dúvida nenhuma, o maior legado que Herivelto Martins deixou foi sua música. Ele era um cara muito abrangente: fazia sambas falando das escolas de samba, animados, românticos… Ele ficou muito famoso pela polêmica da vida pessoal com a Dalva de Oliveira, mas, independente dessas histórias todas, o que fica de mais importante são as músicas dele, que é uma obra
muito vasta”

» Gabriel Azevedo, músico

» O que ver
     » DVD da minissérie Dalva & Herivelto, uma canção de amor (Globo Marcas)
   »   DVD Programa Ensaio — Herivelto Martins (Biscoito Fino)

» O que ler
   » Minhas duas estrelas — Uma vida com meus pais, de Ana Duarte
e Pery Ribeiro
   » Herivelto como conheci, de Cacau Hygino e Yaçanã Martins
   » O melhor de Herivelto Martins, de Irmãos Vitale Editores

» O que ouvir
   » Nelson Gonçalves canta Noel Rosa e Herivelto Martins (Revivendo)
   » Dois gênios — Ataulfo Alves e Herivelto Martins, vários artistas
(Warner Music)
   » Que rei sou eu?, vários artistas (Atração)

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