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Correio apresenta intervenções líricas em becos e quadras do Plano

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postado em 10/03/2013 07:05 / atualizado em 12/03/2013 12:41

Caroline Maria /Correio Braziliense

Edilson Rodrigues/CB/D.A Press

A canção Nem às paredes confesso, imortalizada pela dama do fado português Amália Rodrigues, não serviu de conforto à desilusão de Luisa, que desabafou no concreto da parada de ônibus do Setor Bancário Norte: “Você me deixou, espero que você morra!!!”. A frase expurga uma dor de cotovelo de identificação nacional, cabível a tantas Luisas, Josés e Amálias país afora.

À semelhança da clássica pichação paulista “Robison, te amo, mas perdi o tesão. Adeus. Renata”, vê-se centenas de missivas amorosas espalhadas pelos becos e paredões candangos: “Eu volto”, na fachada do SG1, prédio tombado da Universidade de Brasília (UnB); “a maldade dá saudade”, em stencil estampado no tapume de uma obra da 402 Norte, ou “passaria uma vida ao seu lado, mas não esta”, das várias intervenções poéticas do Coletivo Transverso, na passarela da 205 Norte.

"Existe uma noção de romantismo na declaração pública do amor. Muitas vezes, as mensagens são tão íntimas que o resultado chega a ser cômico”, observa o publicitário Silvino Mendonça, que coordena as publicações da editora independente Savant e publicou um fanzine intitulado Zine Coração, cujas impressões guardam fotos de pichações relacionadas ao tema. “Por outro lado, me interesso mais pelas mensagens de pessoas frustradas com o romance, é mais fácil de se identificar."

*Leia a íntegra da matéria na edição impressa


Confira entrevista com o Coletivo Transverso

Correio Braziliense — Qual a proposta do Coletivo Transverso?
Cauê Novaes — Trabalhamos com arte urbana e poesia. Procuramos desenvolver uma estética própria por meio da realização de intervenções urbanas autorais. Queremos criar e espalhar poesia pelas ruas e pelo cotidiano das pessoas. A arte urbana é democrática em sua natureza, não está mediada pela compra de ingresso ou pela aquisição de um bem. Existem inúmeras interfaces da arte de rua com áreas como a literatura, as plásticas, a política, a publicidade, a internet. Queremos pesquisar essas interfaces, e desenvolver um trabalho próprio que exponha e amplie o potencial imenso que existe nas ruas para a poesia.

CB — Como e quando nasceu o coletivo?
CN — O Transverso foi criado em janeiro de 2011, em Brasília, em almoços entre amigos em uma república da Asa Norte, começamos compartilhar técnicas e ideias sobre arte urbana. Assim, começamos a criar as máscaras de stencil. Os encontros se tornaram constantes, logo surgiram novas frases e a vontade de formar o coletivo.


Pollyana Sá/ Divulgação


CB — Quantas pessoas envolvidas?
CN — O núcleo criativo do Transverso, responsável pela criação de conteúdo e execução da maior parte das intervenções, além da elaboração de projetos do coletivo, é formado por Cauê Novaes (poeta), Patrícia Del Rey  (poeta e atriz) e a Patrícia Bagniewski (artista plástica). Cada intervenção tem processos diferentes de criação, planejamento, produção, execução, registro e divulgação. Já realizamos mais de 300 intervenções nestes dois anos de Transverso, e hoje temos duas sedes, uma em Brasília e outra no Rio de Janeiro. Nosso projeto mais recente, chamado "Espaço destinado à poesia", propõe que os interessados em colaborar com o Transverso imprimam um de nossos poemas e colem por sua cidade (http://coletivotransverso.blogspot.com.br/). Muitas pessoas já colaboram nas intervenções. Considerando a parte da divulgação, então, este número cresce muito. Nossa página no facebook tem quase 4000 seguidores e constantemente encontramos na internet fotos tiradas por pessoas que não nos conhecem.

CB — Vocês se misturam às pichações da cidade. Como vocês classificam a interferência do Coletivo?
CN — Chamamos nossas ações de intervenções poéticas. Reconhecemos, dialogamos e somos influenciados por outras formas artísticas encontradas na rua.Utilizamos principalmente a técnica de stencil que permite agilidade na aplicação. Apesar da liberdade contida na poesia, a grafia do stencil é fixa, como se fosse um carimbo.


Pollyana Sá/ Divulgação


CB — As pichações caligráficas, em geral, são mais automáticas, contêm erros, não são muito pensadas - o que não é o caso de vocês. O Coletivo já sofreu alguma retaliação por ser muito "racional" ou "programado"?
CN — A arte de rua permanece como um espaço de insurgência de vozes muitas vezes ausentes da mídia tradicional e da publicidade. Acontece que não existe vigilância absoluta 24h por dia e, mesmo se houver, existem pessoas dispostas a se arriscar para dizer o pensam ou para deixar alguma marca nas paredes.A arte urbana contempla o erro, o incompleto, o imperfeito, mas também o singelo, o infantil e o efêmero. E dessa contradição vem uma força expressiva bem particular.

CB — O que vocês acham importante transmitir?
CN — Pra gente, as intervenções são instantes de desvio. São formas de tirar o passante da sua rotina cega. Normalmente, temos olhos viciados. Quando somos surpreendidos por algo novo no caminho, percebemos a cidade como um elemento vivo. Com uma dramaturgia própria que pode ser modificada diariamente. Um poema aberto. Isso faz, com que o passante se insira/aproprie na própria cidade.


Pollyana Sá/ Divulgação


CB — Vocês tem algum trabalho ou manifestação como inspiração e referência?
CN — Nosso trabalho poético dialoga muito com os provérbios, ditos populares e aforismos. São referências nossas, muitas retiradas das ruas, que se somam a outras como o poema-objeto concretista. Somos muito influenciados também pela busca de concisão do haikai, forma poética oriental que no Brasil se traduziu em poemas de três versos, muito trabalhados por nomes como Millôr Fernandes, Paulo Leminski e Alice Ruiz. Entre muitos outros, gostamos de Banksy, Mundano, Fluxus, e Nicholas Behr que é colaborador do Transverso.