Sanfoneiros mantêm legado de Dominguinhos e Gonzagão no forró pé de serra

O forró resiste e insiste em animar festas país afora com uma nova geração de instrumentistas-cantores

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postado em 05/09/2013 07:51 / atualizado em 05/09/2013 08:22

Adriana Caitano

Karina Santiago/Divulgação


Pouco mais de um mês depois de o Brasil se despedir de Dominguinhos, que deu seu último suspiro no dia 23 de julho, a saudade ainda aperta o coração de fãs e amigos. Mas, enquanto a herança financeira do cantor é disputada pela família, não há briga pelo legado musical do sanfoneiro.

Ao contrário do que fez Luiz Gonzaga, que elegeu o menino Domingos seu substituto ainda em vida, o mestre recém-falecido não apontou um nome único. Ao ouvir pesquisadores e produtores de forró pé de serra, porém, o Correio chegou a dois jovens indicados como maiores candidatos a sucessores do mestre: Cezzinha e Mestrinho.

Além do mesmo talento com a sanfona e a voz, ambos têm em comum a peculiar humildade ensinada por Dominguinhos. “Ele deixou a obrigação de todos nós carregarmos juntos a bandeira do forró, porque música não tem trono”, comenta o modesto Cezzinha. “Herdeiro tem um monte, mas ele era único, ninguém o substitui”, completa Mestrinho.

Ainda que não aceite o título, o pernambucano Cezar Thomaz Silveira, 28 anos, o Cezzinha, é unanimidade entre produtores e pesquisadores. Amigo pessoal e afilhado artístico de Dominguinhos, foi citado pelo mestre como “um baluarte da sanfona”. O apelido que virou nome artístico e a primeira oportunidade em cima de um palco, aos 13 anos, foram dados pelo padrinho, durante um show no Recife. O conselho que mudou seu destino também: “Ele disse para eu colocar a voz na sanfona, que, se não cantasse, não iria chegar a ser tão conhecido, porque a música instrumental não tem tanto espaço no Brasil”, conta o jovem sanfoneiro, que hoje chega a ter o timbre vocal confundido com o do mestre.

Ouça Te faço um cafuné

Cezzinha aprendeu a lição e se destacou acompanhando Genival Lacerda, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, o próprio Dominguinhos e Elba Ramalho, de quem já foi namorado. Agora em carreira solo, o jovem sanfoneiro roda o país divulgando seu primeiro DVD. Amanhã, ele desembarca na capital federal em show em homenagem ao mestre, no Forró Ispilicute. “Sou muito grato a tudo que ele fez por mim e pela música e, se for para segurar a bandeira por ele, farei isso a vida inteira”, vibra. “Ele deixou uma obra viva e obra, quando é feita com amor, nunca vai morrer”.


Marco Vieira/Divulgação

Ritmos
Enquanto a carreira de Cezzinha ganhou fôlego principalmente no Nordeste, Erivaldo Oliveira, 24 anos, o Mestrinho, coleciona fãs no Centro-Sul do país. Ainda que tenha nascido em Sergipe, foi no Festival de Forró de Itaúnas (ES), em 2006, que ele ganhou a admiração dos forrozeiros que cultuam o ritmo em festas nessas regiões. Seu maior público é em São Paulo, onde ele é apontado pelos adeptos do pé de serra como a grande promessa da nova geração.

Na estrada desde os 12 anos, aos 6 ele já sabia tocar Asa branca, maior sucesso de Luiz Gonzaga, por influência do pai, que também é sanfoneiro. “Um dia minha mãe brigou com ele e disse que teria um filho que iria tocar melhor, aí ficou grávida de mim e, desde a barriga, dizia que o mestrinho da sanfona estava chegando, aí o apelido pegou, mas não é verdade na prática”, conta, rejeitando o rótulo que o próprio Dominguinhos confirmou.

Mestrinho já tocou com a irmã e depois rodou o mundo ao lado do mestre falecido em julho, de Gilberto Gil e de Elba Ramalho, com quem ainda toca. Paralelamente, produz grupos de forró, compõe e faz shows solo. No início de 2014, ele lança o primeiro CD, recheado de canções que ele mesmo criou. “O Dominguinhos deixou um legado muito grande e sempre pediu para a gente ter nossa própria personalidade sem deixar a história do forró de lado e eu faço de tudo para honrá-lo”, afirma o jovem seguidor.


Tradição que se renova
Apesar de o país ainda não reconhecer um grande nome como mestre da sanfona no lugar de Luiz Gonzaga e Dominguinhos, especialistas garantem: ela está mais viva do que nunca. Prova disso é que em todas as regiões do Brasil há sanfoneiros que ganham a vida com o instrumento. “Mesmo com a invasão de ritmos que descaracterizaram as tradições, há talentos antigos e da nova geração que a mantêm completamente renascida”, comenta o cineasta Sérgio Roizenblit, criador do filme e da série de tevê O milagre de Santa Luzia, que tratou do assunto, tendo Dominguinhos como apresentador.

Roizenblit passou a última década viajando pelo país em busca de pessoas que tinham uma ligação com a sanfona. O filme foi lançado em 2008, no Festival de Cinema de Brasília e a série homônima, exibida na TV Cultura no ano passado, apresentou mais de 50 sanfoneiros de Norte a Sul do Brasil, a maioria ligada ao forró. “Todas as regiões estão lotadas de excelentes músicos, como Luizinho, Ferraguchi, Pinto do Acordeon, Beto Ortiz, Luciano Maia, Bebê Kramer…”, destaca o cineasta, que não para de citar nomes que admira.

A lista de talentos de gerações variadas que se apresentam em shows de forró pé de serra e festivais de todo o país também é extensa. Pesquisador do ritmo, produtor, DJ e um dos maiores colecionadores de discos de vinil do Brasil, Ivan Dias conta que, mesmo sendo hoje mais restrito a guetos, o estilo tem seguidores muito fiéis, inclusive no exterior. “Ele continua existindo, renovando a cada ano seus adeptos”, diz.

Paulo Rosa, amigo de Dominguinhos e produtor do Canto da Ema, maior casa de forró de São Paulo, atribui a sustentação do ritmo ao mestre. “Foi quem melhor fez com que o forró criado e tocado de forma nordestina e sertaneja passasse a conversar com toda sociedade brasileira, tornando-o palatável para todas as regiões, faixas etárias e classes sociais”, argumenta. (A.C.)

 

Confira o trailer da série

 

Show Cezzinha do Acordeon
Amanhã, a partir da 20h, no Forró Ispilicute (Clube Cota Mil – SCS trecho 2). Ingressos: R$ 25 (R$ 15 até 22h e para profissionais de educação física) informações: (61) 8442 3155. Classificação indicativa 18 anos.

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