Exposição de Joseph Beuys traz reflexão sobre educação e democracia

"Res-pública: conclamação para uma alternativa global" chega ao Museu Nacional da República nesta semana e está na cidade até 9 de fevereiro

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postado em 14/01/2014 08:08 / atualizado em 14/01/2014 08:46

Nahima Maciel


É irônico, mas milhares de brasileiros saíam às ruas no mesmo mês em que o curador Rafael Raddi negociava com uma galeria alemã uma exposição de obras de Joseph Beuys. É irônico porque, entre os diversos temas tratados pelo artista alemão, estão a democracia, as relações sociais e as negociações políticas na esfera social. De repente, a proposta de Raddi adquiria um sentido político: a obra de Beuys, datada principalmente da década de 1970, se adequava a um contexto contemporâneo de insatisfação com as instituições. A exposição em si também carregava uma protesto: Raddi não conseguiu financiamento oficial para a mostra, mas convenceu colecionadores europeus e latino-americanos a emprestar 100 obras capazes de resumir a trajetória de Beuys e dialogar com o presente.

Depois de passar pelo Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC) e antes de seguir para a Fundação Proa, em Buenos Aires, Res-pública: conclamação para uma alternativa global chega ao Museu Nacional da República com curadoria múltipla — além de Raddi, participaram os brasileiros Luiz Guilherme Vergara e Wagner Barja (diretor do museu) e as alemãs Claudia Seelmann e Silke Thomas — e proposta política.

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No Rio de Janeiro, a ênfase da exposição foi o meio ambiente. Em Brasília, os curadores decidiram pelo viés político. “Mesmo depois de 30 anos, Beuys é atual porque envolve fatores fundamentais do ser humano: crença, respeito e convívio social”, aponta Raddi. “São temáticas que ele explorava e que são universais.” A exposição não é a primeira de Beuys no Brasil. Em 1979, ele participou da 15ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo e suas obras estiveram expostas no Sesc Pompeia (São Paulo) em 2010. Em Brasília, há 10 anos, a Caixa Cultural exibiu uma coleção de múltiplos de Beuys.

Veracidade contestada

Alguns críticos não conferem muita importância à veracidade ou não do episódio, já que Beuys poderia ter inventado o acidente em uma atitude performática. Para ele, viver era uma arte e qualquer cidadão era, na verdade, um artista. Mas há outro detalhe na trajetória do alemão que ainda permanece obscura. Como oficial da Luftwaffe em 1941, Beuys não era isento de ligações com o nazismo. Em Beuys — uma biografia, Hans Peter Riegel investiga a vida do artista e contesta algumas de suas histórias, além de afirmar que ele nunca se afastou completamente do nazismo e manteve, até morrer, ligação com alguns companheiros nazistas da época da guerra.

É possível, para o biógrafo, que o artista tenha inventado episódios da própria vida para esquecer o sofrimento de uma infância pobre e para poder desenhar uma carreira artística condizente com suas ideias sobre a arte. "Os profissionais da área não se interessam pela parte de cunho pessoal de Joseph Beuys porque o que mais importa é seu legado e a importância das suas posições como artista", explica Raddi.

Dividida em cinco núcleos, a exposição no Museu Nacional reflete essas ideias sem nunca desconectá-las da vida de Beuys. Nas obras do primeiro módulo, o artista reflete as relações humanas e a solidariedade. A democracia é o ponto central do segundo tema. Beuys — que foi um dos fundadores do Partido Verde da Alemanha e, nos anos 1970, já falava da necessidade de preservação do meio ambiente — queria saber qual o destino da vontade do povo no regime democrático. O ensino pauta o terceiro módulo, já que Beuys foi professor da Kunstakademie de Dusserdorf. O meio ambiente é o quarto tema, e aqui entram obras curiosas, como as garrafas de água suja do rio Reno e a faixa de lançamento da campanha "Defesa da natureza". Beuys lutava contra o consumismo e o capitalismo, e acreditava que cada ser humano era responsável por modelar a sociedade e, por isso, devia também ser responsável por ela. "Essa exposição é muito conceitual", avisa o curador, Rafael Raddi.

Res-pública: conclamação para uma alternativa global

Exposição de Joseph Beuys. Curadores: Luiz Guilherme Vergara, Wagner Barja, Rafael Raddi, Claudia Seelmann e Silke Thomas. Abertura hoje, às 19h30, no Museu Nacional da República. Visitação até 9 de fevereiro, de terça a domingo, das 9h às 18h30.

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