Documentário contará a história de homem preso injustamente em 2003

Idealizado pela jornalista Nathalia Ziemkiewicz, o projeto narra a trajetória de Heberson Oliveira, acusado injustamente de violentar uma criança

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 25/03/2014 08:20 / atualizado em 25/03/2014 11:38

 Arquivo Pessoal

Não há como apagar as lembranças cruéis que mudaram a vida de Heberson Oliveira. Era um jovem de 23 anos quando se sentiu livre pela última vez. Hoje, ele se vê obrigado a conviver com o engano cometido, em 2003, pela justiça do Estado do Amazonas. Foi acusado de violentar uma criança. Ficou encarcerado por três anos à espera de julgamento. Na cadeia, sofreu abusos dos colegas e contraiu HIV. Era inocente, mas sair da cadeia não trouxe o alívio esperado. Não conseguia emprego, perambulou pelas ruas e se refugiou nas drogas. “Morri quando me fizeram pagar pelo que não fiz”, declarou.

Em 2012, a jornalista Nathalia Ziemkiewicz escreveu reportagem sobre vítimas do sistema judiciário e penitenciário pela revista Istoé, Histórias que assustam a ONU, que lhe rendeu um prêmio de direitos humanos. Assim, o drama do servente manauara ficou conhecido. Jornalistas se deparam quase diariamente com narrativas chocantes como a do Heberson. O encontro entre o entrevistador e a fonte, geralmente, só é revivido por meio das páginas da reportagem. Entretanto, com Nathalia e Heberson, essa ligação não se desfez mesmo com o passar dos anos e com o fim daquele trabalho que os uniu.

Leia mais notícias em Diversão & Arte

Depois da publicação, a jornalista não conseguia parar de se preocupar com aquele homem. Viu-se em lágrimas muitas vezes com a ideia de que nada poderia ser feito para reverter a injustiça. “Continuei em contato com a defensora pública dele. Em uma viagem a trabalho para Manaus, em agosto de 2013, tive a oportunidade de me encontrar pessoalmente. Falamos de nossas vidas tão desiguais. Aquela história estava diante de mim, me convencendo a experimentar um tacacá e mostrando o fanatismo pelo Timão. Ele também mudou a minha vida, me fez e faz alcançar um Brasil distante da minha realidade. Isso me torna mais sensível e humana, muito além da minha profissão”, afirma Nathalia.

O filme



Em janeiro deste ano, a Procuradoria do Estado do Amazonas se recusou a pagar R$ 170 mil de indenização a Heberson. Assim que soube da notícia, a indignação mais uma vez tomou Nathalia. Escreveu uma carta aberta em seu site. O documento repercutiu na internet e nas redes sociais. “Trabalhei em grandes veículos da imprensa e jamais nenhum texto meu teve 10% da repercussão que a carta teve. Foram 170 mil curtidas. Mais do que isso, tive minha página do Facebook lotada de mensagens de desconhecidos. Eram cerca de 150 mensagens diárias, coisa que durou cerca de 15 dias”, lembra a jornalista.

Ao ler a carta na internet, Fabio Ock procurou a jornalista Nathalia para saber mais sobre a história e, de alguma forma, ajudar. Do encontro, surgiu a ideia do documentário. O financiamento coletivo foi a alternativa para fugir do processo moroso dos editais e, também, estimular a sociedade a fazer parte dessa luta por justiça. “O povo vai bancar. Para mim, é ótimo, porque tenho total independência de discurso. Não teremos interferência de qualquer produtor ou órgão público”, afirma Fabio Ock.

Leia a carta que mobilizou o projeto no site:


Heberson,

Nem sei como te dizer isso. Tateio pelas palavras certas há horas – elas me escapam. Claro que você já foi avisado e até leu no noticiário local, mas eu queria pedir desculpas. O governo do Estado do Amazonas questionou o valor da sua indenização. É, eles acham R$ 170 mil um valor muito alto pelos quase três anos em que você passou na cadeia, acusado de um estupro que não cometeu. Querem pechinchar pelo vírus HIV que infectou o seu corpo após os abusos sofridos atrás das grades. Seu sofrimento está “caro demais” para os cofres públicos. Como se algum dinheiro no mundo pudesse apagar o que você viveu.

Até hoje, como naquele dia em que te entrevistei, sinto minhas tripas se revirarem. Lembro de você contando que tinha 23 anos e trabalhava como ajudante de pedreiro na periferia de Manaus quando o crime aconteceu. Uma menina de nove anos, filha de vizinhos, havia sido arrastada para o quintal durante a noite e violentada. A família o acusou de tamanha brutalidade e a delegada expediu um mandado de prisão provisória para investigar o caso. Você, que não tinha antecedentes criminais. Você, que divergia completamente do retrato-falado. Você, que estava em outro lado da cidade naquele horário. Mas você é pobre, Heberson. Pobres são presas fáceis para “solucionar o caso” e atender o clamor popular. As vozes que te xingaram ainda ecoam?

“Eu morri quando me fizeram pagar pelo que não fiz”, você disse, me matando um pouco também sem saber. Em tese, por lei, você não poderia ficar mais de quatro meses aguardando julgamento na cadeia. Sua mãe, desesperada, pegou empréstimos para bancar advogados particulares. Mesmo sem comida em casa, a dor no estômago era por justiça. Não dava para contar com a escassa quantidade de defensores públicos no país (embora, depois, a doutora Ilmair Faria tenha salvo o seu destino). Enquanto ela se rebelava aqui fora, você se resignava com os constantes abusos sexuais de que era vítima. Alegar inocência sempre foi a sua única arma. De que forma lhe deram o diagnóstico de Aids?

Sabe, querido, eu gostaria de ter presenciado o parecer do juiz na audiência que demorou dois anos e sete meses para acontecer. Deve ter sido um discurso bonito. Juízes usam frases empoladas, especialmente para se desculpar em nome do Estado por um erro irreparável. Onde estava a sua cabeça no momento em que ele declarou que você estava “livre”? Porque eu me pergunto como alguém pode supor que liberta o outro de suas memórias, de suas dores, de sua desesperança, de uma doença incurável. Você continua preso. Tanto que passou anos sem conseguir emprego por causa do preconceito e perambulou pelas ruas sob o efeito de qualquer droga que anestesiasse a realidade. Livre para ser um morto-vivo.

Na sala do meu apartamento, há um troféu de direitos humanos que ganhei por trazer à tona sua história. Olho para ele e enxergo a minha impotência. E os ossos saltados da sua pele. Com vinte quilos a menos, as suas roupas parecem frouxas demais – quanto você perdeu além do peso corpóreo? Imagino se a Procuradoria Geral do Estado (PGE), que negou o pedido da sua indenização, sabe das suas constantes internações decorrentes da baixa imunidade. Será que alguém abriu a porta da sua geladeira e descobriu que, muitas vezes, você passa um dia inteiro tendo se alimentado de um único ovo? Ou será que eles se restringem a documentos e números?

Não consigo deixar de pensar que você foi estuprado de novo. Pelas canetas reluzentes de quem toma essas decisões descabidas. Você levou sete anos para ressuscitar a sua determinação e cobrar os seus direitos. Em parte, motivado pelo apoio das 23 mil pessoas que aderiram a uma campanha virtual pela sua história. Toda semana recebo mensagens de gente querendo saber sua situação, se oferecendo para pagar uma cesta básica ou dar assistência jurídica. Recentemente, um professor criou um grupo que mobilizou mais de mil cidadãos para ajudá-lo até com despesas de medicamentos. Minha última pergunta (eu, que não tenho respostas) é: O que mais nós podemos fazer por você, já que o Estado não faz?

Que o meu abraço atravesse a geografia entre São Paulo e Manaus. Sinto muito, querido.

Nathalia Ziemkiewicz