Paradise Sorouri tenta, pela música, denunciar a repressão no Afeganistão

"É muito difícil ser mulher no Afeganistão e mais ainda ser uma cantora", conta Paradise, em entrevista recente ao site Colherada Cultural.

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postado em 27/07/2014 15:46 / atualizado em 29/07/2014 17:12

Adriana Izel

Classic Photography Group/Divulgação
Nascida no Irã, mas criada no Afeganistão, a jovem Paradise Sorouri desafia há 6 anos a cultura do país em que vive. Ela formou ao lado do namorado Ahmad Marwi o duo 143 Band. A dupla surgiu enquanto o casal ainda estudava e costumava cantar para os amigos da escola. A ideia dos dois era fazer música, em fari e em dali (dialetos afegãos),que representassem duas situações: a primeira, que descrevesse a verdadeira sociedade e os problemas do Oriente Médio, e, a outra que falasse sobre o amor e os sentimentos cotidianos para dialogar com pessoas de qualquer lugar no mundo.

Inspirados em artistas como Rihanna, Jennifer Lopez, Marcelo D2 e Eminem, o sonho de criar uma banda e cantar hip-hop poderia ser completamente natural para os dois se estivessem no Ocidente. O problema é que Paradise Sorouri, que acabou se tornando a primeira mulher a cantar rap no Afeganistão, vive em um país que foi comandado por sete anos pelo Talibã, um regime que proibiu a produção de música, cinema e televisão. Além disso, impôs uma realidade triste para as mulheres, que não podem trabalhar fora de casa, precisam usar a burca e, caso sejam vistas nas ruas desacompanhadas de um homem, podem ser ofendidas, açoitadas, espancadas, apedrejadas e até estupradas.

“É muito difícil ser mulher no Afeganistão e mais ainda ser uma cantora. As pessoas te chamam de prostituta, ameaçam e dizem que você é uma pessoa terrível”, conta Paradise, em entrevista recente ao site Colherada Cultural. Desde que iniciou a carreira, ela tem sido bastante criticada no país. O namorado costuma ser chamado de cafetão e ela chegou a ser atacada por cinco homens enquanto caminhava na rua. Ficou inconsciente e quase morreu. Na época, decidiu fugir para o Tajiquistão.

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No entanto, no ano passado, voltou ao país. O motivo do retorno é que Paradise percebeu que poderia, por meio da música, denunciar a repressão feminina afegã e atingir atenção internacional. Durante o período em que esteve refugiada, escreveu canções para contar o episódio que quase lhe tirou a vida; o uso frequente de ácido para desfigurar o rosto das mulheres; e as diversas proibições femininas.

Assim surgiu o rap Faryade Zan (O grito da mulher, em tradução livre). “Minha música desta vez é sobre a história de uma mulher, uma mulher afegã em sua terra natal. Eu quero ser a voz de uma mulher, nem mais nem menos. Eu exijo meu direito, até quando eu devo ser uma escrava da tirania? Não existem direitos humanos para todos? Por que eles querem que eu seja menor que os homens?”, diz a letra da canção, uma das mais conhecidas do 143 Band.

Insegurança

“Claro que ficamos com medo, mas esse pensamento não vai me impedir de continuar”, garante a rapper à publicação. Com o sucesso, a garota evita sair de casa e, nas raras situações em que caminha pelas ruas, faz o uso da burca. “O comportamento dela justamente revela a insegurança em buscar ajuda e amparo nas instituições públicas do país. Ela procurou uma estratégia particular para tentar se defender. Uma alternativa que poderia ser interessante seria a da união das mulheres afegãs, numa verdadeira rede de solidariedade a Paradise, de maneira a manter ativa e viva a visibilidade da causa”, defende a professora da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB), Noemia Garcia.

Apesar de não ter o apoio afegão, Paradise e o namorado têm conseguido repercussão mundial após o lançamento do primeiro disco The first time (A primeira vez, em tradução livre). Das sete faixas do álbum, quatro falam sobre a situação política e social do Afeganistão. Entre elas, Nalestan (A terra do choro, em português), que retrata a realidade das primas da jovem: “Eu queria correr, mas fui esfaqueada pelas costas. Eu queria pensar, mas fui espancada na cabeça. Queimaram meu rosto em nome do Islã e caí em desgraça em nome da vingança. Jogaram ácido em mim e me venderam, pois minha alma já estava morta”.

No ano passado, a 143 Band chegou a se apresentar no Brasil. Eles participaram da Festa Literária das Periferias (Flupp), no Rio de Janeiro. Em outro países, como França e Estados Unidos, o duo também tem fãs e, por isso, pretende entrar em turnê mundial em breve. Mesmo assim, deixar o Afeganistão não está nos planos do casal. “Amo o meu país e quero paz. Ela virá muito em breve, tenho certeza”, sonha.
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