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Cidinha da Silva denuncia o preconceito no mercado editorial brasileiro

Escritora conta que os autores precisam recorrer ao próprio bolso para publicar seus livros

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postado em 22/09/2014 08:38 / atualizado em 22/09/2014 10:26

Nahima Maciel

Pierre Gentil/Divulgação

A voz do negro na literatura não é algo recente, mas se tornou invisível. É por conta de um racismo estrutural que levou o Brasil a desenvolver justificativas temporais para legitimar a ausência histórica dos negros em diversos setores da vida social que a literatura afrobrasileira tem pouca visibilidade. A escritora Cidinha da Silva acredita que essa ausência fica ainda pior quando se trata da produção de conhecimento.

“A maranhense Maria Firmina dos Reis publicou o romance Úrsula em 1859. Luís Gama, José do Patrocínio, Cruz e Souza e Machado de Assis, publicaram ainda no século 19. No século 20, João do Rio, Lima Barreto, Lino Guedes e Antonieta de Barros (ambos cronistas), a prolífica Ruth Guimarães, recentemente falecida, deixaram mais de 40 livros publicados, Solano Trindade e Carolina Maria de Jesus também escreveram capítulos significativos da literatura brasileira”, lembra Cidinha, que estará em Brasília na próxima sexta para lançar Racismo no Brasil e afetos correlatos e Baú de miudezas, sol e chuva.

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É a segunda vez que ela vem à cidade este ano. Em agosto, esteve na Universidade de Brasília (UnB) para a II Jornada de Literatura Afrobrasileira contemporânea. Essa produção, embora ausente do mercado editorial de grande circulação, existe e reflete, segundo a escritora, a discriminação racial que ainda contamina a sociedade brasileira de forma geral. “A principal implicação dessa ausência no cenário literário é o silenciamento estético e político de vozes responsáveis pelo redesenho da história e da cultura brasileiras.”

Cidinha conta que, em reação à discriminação do mercado, muitos autores negros optam por desprezar o ISBN, espécie de carteira de identidade do livro, e preferem publicar com os próprios recursos. Para a autora, há um bloqueio imposto pelo mercado e uma sensação de não pertencimento dos escritores negros aos “clubinhos literários” que abrem portas para boas editoras e políticas de distribuição que incluem a venda de livros para o Estado e a participação em feiras e festas literárias. Em entrevista, a autora falou sobre a discriminação no mercado editorial e as alternativas encontradas pelos autores afro-brasileiros.

Leia entrevista completa com Cidinha da Silva

A escrita de Carolina Maria de Jesus é importante para você e para o teu trabalho?

A existência de Carolina e de sua obra é importante para o mundo, para a diáspora negra, para a América Latina e para o trabalho de todos os autores e autoras que lutam diariamente para escrever o que querem, o que acham importante, o lhes dá prazer ou os salva da amargura, do desespero. Carolina escrevia para não morrer, para enfrentar o aniquilamento de sua potencialidade humana, diuturnamente agredida pelo racismo, pela miséria, pela desqualificação do sonho e da vontade de brilho, de realização plena por meio da escrita, manifestadas por uma mulher negra em condição miserável de vida. Eu também escrevo para não morrer, então, Carolina é vital para mim.

Alguns críticos observam que há mais poesia do que ficção sendo produzida por autores negros. Você concorda? E o que isso significa?

Sim. Não se trata de uma opinião, simplesmente, é uma informação sustentada por pesquisas. O que a gente pode discutir um pouco é o significado disso. A poesia é algo que povoa nosso imaginário desde a infância. Temos contato com poesia na escola primária. O poeta goza de um certo glamour e idealização e a maioria das pessoas, de maneira estranha e equivocada acha que escrever poesia é uma coisa fácil. Não é! É trabalhoso a vera. Contudo, a pessoa passa cinco, seis anos da vida dela dedicada a um doutoramento, escreve uma tese e quando encontra uma escritora na rua pede dicas para publicar um livro de poesias. O que de melhor ele escreveu na vida é a tese que consumiu centenas de neurônios, mas ela quer publicar os poeminhas que faz para a amada, para os filhos, o cachorro e o papagaio. Esse é um fenômeno generalizado no Brasil, não sei como é em outros países. Há editoras que descartam os originais de poesia assim que chegam, porque são quilos e quilos de celulose grafadas de emocionalismo. Isso porque todo mundo acha que o livro que se deve escrever, além de plantar uma árvore e ter um filho antes da morte, é um livro de poesias. Conosco, negros, não é diferente, a gente acha que escrever poesia é mais fácil do que escrever outros gêneros.

Há muitos autores negros escrevendo e publicando em editoras independentes, mas eles não estão nas grandes editoras. Na sua opinião, o que isso reflete?

Uma parcela desse grupo não quer publicar seguindo as regras do mercado editorial, o poeta gaúcho Oliveira Silveira era exemplo disso. Muitos autores e editoras de literatura periférica (em medida significativa composta por negros) desprezam o International Standart Book Number (ISBN), também como forma de resistência ao mercado. Entretanto, muitas autoras e autores negros publicam com os próprios recursos ou em pequenas editoras por não conseguirem furar o bloqueio imposto pelo mercado.

Por quê?

Isso acontece por vários motivos, entre eles: o não pertencimento de escritores negros aos clubinhos literários, cuja carteirinha abre portas das boas editoras, da política de distribuição eficaz, das vendas institucionais para o Estado, da participação em feiras, festas, festivais e outros eventos literários que garantem dividendos e impulsionam a carreira de quem escreve profissionalmente. Também, porque as temáticas e os recursos estéticos escolhidos pela maioria dos escritores negros são descredenciados em sua literariedade e essa costuma ser uma justificativa para que as editoras bem estabelecidas no mercado não tenham interesse pelos literatos negros.

Na literatura de forma geral, há pouquíssimos personagens negros. Por quê?

Creio que seja porque o grosso da produção literária, em vez de subverter a ordem, tem optado por repetir padrões nos quais as zonas de conforto das elites permanecem intactas ou até se ampliam. O racismo faz com que a humanidade do negro não seja considerada como valor universal, logo, sua história, memória, cultura, ancestralidade, seu jeitão colorido, sua polifonia rítmica, corpórea e verbal não merecem espaço na vitrine universalista da literatura brasileira, refletida no número exíguo de personagens negros e na subalternização dos parcos existentes.

A construção da identidade passa pela literatura? Como?

Creio que existam possibilidades, sim, embora a literatura não tenha obrigação de ser instrumento para isso ou para aquilo. Entretanto, à medida que minha vida, minha história, o povo ao qual pertenço são apresentados de maneira digna, bela, humana, uma representação pautada pela riqueza das contradições humanas em vez da miséria dos estereótipos que aprisionam determinados grupos sócio-históricos, eu me vejo dentro da obra literária, me sinto viva, pulsante, valorizada, e isso pode contribuir para o fortalecimento do meu amor próprio e para uma construção identitária positivada.

Você já sentiu que sua escrita foi discriminada porque é negra?

Sim, inúmeras vezes e em situações bem distintas, por exemplo: quando querem me enquadrar em caixinhas temáticas porque sou negra; quando determinam que a literatura negra deve ter voz única e monocórdia; quando meu texto é valorizado por minha suposta história de luta e não por seu valor estético; quando sou convidada para participar de eventos literários como ilustração do 20 de novembro, explico, a programação ocorre uma vez por mês durante os 12 meses do ano, mas o escritor ou escritora negra só é convidado (quando o é) na data de novembro, mês da consciência negra; quando minha representação sóciorracial tem mais destaque do que meu processo criativo e minha obra; quando a crítica canônica me invisibiliza porque como autora negra não participo do establishment; quando a crítica negra é condescendente com meu trabalho em contraposição ao excesso de rigor ou ao silenciamento impostos pela crítica canônica aos autores negros.