Relançados, 'Piloto de guerra' e 'O pequeno príncipe' têm temática moderna

Obras conversam com a sociedade moderna e os dilemas de conflitos entre civis e militares

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postado em 28/09/2015 10:54 / atualizado em 28/09/2015 11:56

Rebeca Oliveira /

Thevenot Laurent/Divulgação

No ano em que caiu em domínio público, O pequeno príncipe continua ganhando reedições significativas. A história mais famosa do autor francês Antoine de Saint-Exupéry está sendo relançada, agora, pela Companhia das Letrinhas, com aquarelas do próprio autor. Mais que isso: a obra do viajante espacial chega às prateleiras simultaneamente a uma nova edição de Piloto de guerra, lançado inicialmente em 1942, um ano antes da história do principezinho encantar leitores mundo afora. Os dois textos carregam pontos em comum, a começar pela tradução de Mônica Cristina Corrêa, encarregada, no Brasil, pelas obras de Exupéry, missão que recebeu dos herdeiros do escritor mais lido no mundo, perdendo apenas para a Bíblia.

No entanto, a ligação entre os dois livros vai muito além do toque de Cristina. “Elas têm um valor individual, não são continuações. Mas uma pessoa adulta que as lê em sequência consegue ter mais luz sobre a filosofia de Exupéry”, explica a tradutora, pós-doutora em literatura comparada (Brasil-França).

Piloto de guerra
saiu na França em dezembro de 1942, dois anos depois de o país declarar guerra à Alemanha. Ele mostra o contraste entre as duas formas pelas quais Antoine voou: primeiro para entregar cartas, depois, observando um invasor sabotando o próprio país. No livro, vê-se os testemunhos de Exupéry enquanto piloto militar e sua atuação no grupo de reconhecimento aéreo 2/33 entre março e julho de 1940. O pequeno príncipe, por sua vez, concentra a narrativa na relação entre um piloto que encontra um garoto de cachos dourados no deserto do Saara. Na essência, os dois livros carregam o mesmo cerne: a morte.

O pequeno príncipe
De Saint-Exupéry e tradução de Mônica Cristina Corrêa. Companhia das Letrinhas, 176 páginas. Preço: R$ 34,90.

Piloto de guerra
De Saint-Exupéry e tradução de Mônica Cristina Corrêa. Penguin Companhia, 192 páginas. Preço: R$ 24,90.

Ponto a ponto – Mônica Cristina Corrêa, tradutora

O piloto

Saint-Exupéry se engajou como piloto militar, embora tenha começado essa formação em 1921 porque era o que existia na época. Só depois ele fez o curso de piloto civil. Ele não era apaixonado por ser um piloto militar de formação. Ele não segue a carreira militar, foi piloto de correio aéreo, inclusive garoto propagando da Air France. Mas quando ele se engaja, ele luta pela França. Antes de ser um exemplo de militar, é profundamente patriota. Quando percebe o nazismo avançando daquele jeito e vê seu país esfacelado, não consegue pensar nem nele mesmo. Ele estava sequelado dos acidentes mas quis combater, quis lutar pela liberdade, porque acreditava naqueles valores.

A guerra
Naquele momento de guerra, a experiência mais forte é a depressão, a tristeza. Ela faz com que ele se sinta com mais força para entender o sentido da vida, que é profundamente o da coletividade, e não de triunfos individuais. Em Piloto, ele fala do homem como entidade, como responsável por todos os outros. Isso fica à flor da pele. Ele não esta lá porque gosta da guerra. Em vez de falar da violência da guerra, fala da ternura da vida, do que se perde, diz que “a guerra é uma doença”. Isso fica claro quando lembra do soldado de 20 anos que precisa derrubar uma árvore de 300 anos. Em vez de falar da guerra sangrenta, falar mal dos alemães ou qualquer coisa assim, mostra o que os dois lados estão perdendo. São 300 anos de sombra que atravessaram descendências, tradições, relações humanas, o “essencial invisível aos olhos”. É mais do que uma simples relação física com o conflito.

Atualidade da obra
Se você avançar na leitura de Piloto de guerra, percebe que ele fala bastante do êxodo quando vê um monte de gente saindo a ermo, em direção ao nada. Eles pegam tudo que acham em casa. A imagem que vai se construir é muito parecida com o que está sendo evocado agora, com os conflitos que têm levado milhares de imigrantes a procurar refúgio em países da Europa. Na Segunda Guerra, aconteceu a mesma coisa. Aquele monte de gente em desespero, indo para as estradas. Os pilotos viam tudo sem conseguir fazer nada. Ele se preocupava: quem iria alimentá-los? A situação é muito parecida com o que estamos vivendo agora.

O antes, o agora e o depois

É impossível não remeter a essa imagens atuais de imigrantes invadindo a Europa. Ele conta que, na época, o pessoal chegava e eram tidos como vermes na carne morta, limpando o osso. Eles vão embora e quem estava os recebendo não tinha condições de fazê-lo, e aquilo acabava com a religiosidade das pessoas. Esse paralelo é imagético, porque os conflitos são diferentes. No entanto, a história se repete, infelizmente. A motivação era outra, o conflito era outro, mas o que é esse tanto de gente com um monte de tranqueiras, expulsos pela guerra de suas casas, sem saber que vai sobreviver? Nesse sentido, o paralelo é obvio, principalmente de imagem literária que se constrói.

Paralelo
Mas essa situação de êxodo também aconteceu no nosso país. Uma coisa interessante é que, para Saint-Exupéry, os objetos que formavam a tradição de uma casa tem todo um sentido. Quando se enfia tudo em um saco, tudo perde a razão. Essa situação é vivenciada por um retirante que foge da seca e que fica sem casa. Ele fala do ser humano, de nós, de você largar tudo e sair desembestado. Está se perdendo o sentido humano de ter, no sentido de pertencer a uma comunidade. “Não há nada como um pão compartilhado”, ele dizia. Você faz parte de um todo. Esse desmanchar que a miséria provoca é muito parecido sempre, são famílias inteiras que se desmoronam, e que desmoronam aquilo que nos torna humanos. O que nos torna diferentes é a nossa cultura, modo de vestir, pensar, casar, fazer filho, dançar. Isso tudo é um ser, quando se perde isso, não se é mais nada.

Relação com o Brasil

Numa obra póstuma, de 2007, foram descobertos vários textos do Exupéry. Quatro deles foram lançados na França, inéditos. Eles estavam perdidos, eram restos de cartas, de confidências. Em uma passagem, quando ele volta da América do Sul, escreve sobre o Brasil e Argentina. Temos noção da dimensão que os dias aqui significaram para ele. Ele fala que, na América do Sul, reencontrou a juventude. Que tinha se misturado aos costumes do Brasil, aos problemas locais. Está dito com todas as palavras como tudo isso foi significativo para ele. Diria que, de maneira concreta, a fase que ele mais voou aleatoriamente – ou seja, por prazer – foi esse um ano que passou na América do Sul. Depois, ele voa pouco pelo correio aéreo.

Clássico
O pequeno príncipe é um livro infantil porque ele queria que fosse, mas com a concepção que tinha da infância, vivida no começo do século 20. Ele tinha cinco anos de idade em 1905. Ser criança nessa época não é como ser criança agora. A forma como abordamos os assuntos mudou muito nesses 100 anos. Nem ele e nem outros autores, como Pamela Lyndon Travers (autora de Mary Poppins), retiram da criança a parte nefasta e sofrida da vida. Nas fábulas de La Fontaine, a chapeuzinho vermelho foi comida viva, não tinha um final feliz.

Educação

Não era normal subtrair a morte e o sofrimento da educação infantil e do diálogo com as crianças, que antes iam a enterros, a velórios. Hoje, a tendência é não levar a criança ao enterro para ver gente doente, a morte vai virando uma coisa obscena na nossa sociedade. Mas isso é um problema nosso. Ele não trata a morte como algo trágico, mas acredita no espírito de algo maior, do essencial. Hoje, O pequeno príncipe é um trunfo na mão de professores. Traz de volta um tema que não é tratado na infância. A proposta é que os valores da vida sejam enxergados. Mas não é um livro só para crianças. Ele pode ser lido em várias fases da vida e provoca descobertas que são muito mais literárias que filosóficas. Essas só temos quando somos crianças, jovens. Depois, se descobre os artifícios literários.

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