SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Cláudio Ferreira lança obra sobre censura das novelas na ditadura

Apesar de o tema parecer antigo, Cláudio acredita que a discussão sobre a censura é atual

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

Reprodução


Foi a dica de um amigo que despertou a vontade do jornalista e escritor Cláudio Ferreira em ir ao Arquivo Nacional estudar a censura nas telenovelas. “Ele já havia pesquisado lá e me disse que existia muito material sobre televisão. Fui e, de fato, era muita coisa”, lembra. Foram seis meses de pesquisa que geraram o livro Beijo amordaçado — A censura às telenovelas durante a ditadura militar. Ele lança a obra hoje, às 17h, no Espaço Cultural Alexandre Inneco, na 116 Norte.

O interesse por novelas, no entanto, já vem de muito antes. “Estudo novelas há 10 anos, é um assunto que sempre me interessou”, conta. No Arquivo Nacional, ele encontrou 157 caixas de documentos sobre a censura em telenovelas no período da ditadura militar. “É uma coisa imensa. E só o índice é digital, então eu passei a manhã toda, em três dias da semana, durante seis meses, para fazer essa pesquisa”, lembra.

Cláudio conta que a pesquisa permitiu concluir que, nas telenovelas, a censura ocorria muito mais em aspectos morais do que políticos. “A primeira grande conclusão é que há menos coisas sobre a parte política, talvez porque os autores já soubessem que era mais difícil de ser liberado e evitassem esses temas”, supõe.

A maior parte do material, constatou Cláudio, trata de assuntos que eram considerados inadequados, segundo os censores, por aspectos comportamentais. “Eram temas relacionados à moral, assuntos de gravidez precoce, adultério, toda a parte sexual, beijo, namoro, sexo antes do casamento... Do material que eu vi, fazendo uma estatística aproximada, uns 70% eram dessa parte de moral e 30%, da parte política”, revela.

Outra surpresa que Cláudio teve foi que as emissoras mantinham salas em que os censores assistiam aos episódios das produções. “Eu achava que as emissoras mandavam o material, as gravações, e depois eles devolviam. O que eu vi é que as emissoras, as sucursais aqui em Brasília tinham uma salinha; os censores é que iam lá”, explica. “Eles mandavam os capítulos escritos, mas mantinham essa sala. Isso é muito estranho, uma coisa é você mandar e nem ver a cara do censor. Outra coisa é ele ir na própria emissora”, comenta.

Casos clássicos
Durante a pesquisa, Cláudio Ferreira pôde analisar também alguns casos icônicos da censura na televisão. Um deles foi Roque santeiro. Escrita em 1975, a novela só foi exibida em 1985 por conta da censura. Cláudio conta que as razões para a decisão de não exibi-la não ficaram claras.

“Nos documentos da censura, não há nada que diga que ela foi proibida. A impressão que dá é que ela foi tão cortada que ficou inviável. Nenhum texto diz explicitamente que foi proibida”, explica. A indefinição, no entanto, deixa margem para dúvidas. “A gente não sabe se foi uma decisão da emissora ou se houve algum documento que não está lá”, conclui.

Outro fato que Cláudio percebeu nas pesquisas foi que a censura se preocupava também com a popularidade do ator. “Em Fogo sobre terra, por exemplo, eles pediram atenção à personagem de Regina Duarte. Eles tomavam mais cuidado com atores populares.”

Apesar de o tema parecer antigo, Cláudio acredita que a discussão sobre a censura é atual. “Hoje você tem uma onda muito conservadora, que muitas vezes tem um desejo de censurar algumas coisas, que censuraria se pudesse. Isso é muito perigoso e é o que acontecia lá, pelas mãos do Estado; uma só visão das coisas determinava o que poderia ou não ser produzido”, acredita.



Beijo amordaçado
Lançamento do livro Beijo amordaçado, do jornalista Cláudio Ferreira. Hoje a partir das 17h, no Espaço Cultural Alexandre Innecco (116 Norte Bl. A lj. 74).

 

 

 

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.