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Clarice Freire lança seu segundo livro 'Pó de lua nas noites em claro'

De família de escritores, a pernambucana Clarice Freire chega ao segundo livro e tem mais de 1 milhão de seguidores nas redes sociais

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postado em 17/10/2016 09:43

Reprodução/Facebook

O sobrenome não nega, a pernambucana Clarice Freire vem de uma família de escritores. Filha de Wilson Freire e prima de Marcelino Freire, Clarice despertou, desde cedo, o desejo de também ela se tornar autora. Para compartilhar o que escrevia e desenhava, Clarice resolveu criar uma página no Facebook, Pó de lua. Ela não esperava muito, mas logo viu a página crescer e atingir números astronômicos. Ela tem hoje mais de 1 milhão de seguidores na rede social.

O sucesso na internet chamou atenção e levou Clarice para as páginas dos livros. Pó de lua, lançado pela editora Intrínseca, abriu as portas para a literatura e os desenhos de Clarice em formato físico. Agora, ela lança mais um título, Pó de lua nas noites em claro. Em conversa com o Correio, a escritora falou sobre  trabalho, a influência da família e o sucesso na web.

Pó de lua nas noites em claro
Clarice Freire. Intrínseca. 208 páginas. R$ 39,90.

Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal


» Entrevista // Clarice Freire


O que mudou desde o primeiro livro (em 2014) até este?
Investi muito na prosa neste segundo livro, o que foi uma novidade, pelo menos nas páginas impressas. Desde o início, escrevo muita prosa ou no meu blog ou no blog da Intrínseca (tenho uma coluna quinzenal), mas ainda não havia dado vida a ela em um livro, digamos assim. Fiz isso misturando o texto corrido com a poesia desenhada e dando a todo o livro, assim, uma veia narrativa. Foi um trabalho muito gostoso de fazer, além de desafiador. Gosto de dizer que os dois livros são retratos diferentes da mesma alma, porque foram feitos em momentos distintos. A minha escrita muda junto comigo, porque ela é a minha forma de conversar com o mundo. Portanto, mudou bastante. Nesses dois anos vivi coisas belíssimas, mas também dificílimas e desafios únicos em minha vida. Minha escrita e meu traço foram encontrando, junto comigo, uma forma de transformar vida em arte. Dor em poesia. Beleza em traço.

Que influência teve o fato de vir de uma família de escritores?

Influência total. Meu pai (Wilson Freire) e meu primo (Marcelino Freire) foram minhas primeiras grandes referências. Um escritor, um poeta, não eram seres distantes e inexistentes. Meu pai me mandava sempre completar as suas poesias quando estava compondo com Antônio Nóbrega, lá em casa, para que eu não atrapalhasse e eu levava aquilo a sério. Meus pais nunca economizaram quando o assunto era arte e livros. Eles me incentivavam muito. Ia o tempo inteiro para as peças de teatro e saraus de poesia de Marcelino e os shows de Nóbrega. Isso foi se construindo ao lado de minha personalidade, a arte era parte da minha vida normal. Hoje entendo a riqueza que isso foi para mim.

Você já disse que tem insônia e isso que influenciou no livro. De que maneira  afeta a literatura?

A madrugada é meu momento de escrever. Durante o dia, tudo é muito barulhento e existem milhares de solicitações, fico muito dispersa. Quando as ruas se calam e a boca se cala, o pensamento fala. Eu preciso do silêncio e da solidão para me ouvir. Costumo dizer que o dia me dá toda a poesia e durante a noite eu consigo digerir, ruminar, tirar o máximo do que ele me deu. Durante muito tempo me senti culpada por preferir as madrugadas, já que as pessoas “normais” funcionam em horário comercial. Quando percebi que era ali o meu lugar de encontro comigo mesma, passei a tratá-la como meu melhor horário de trabalho. Normalmente, escrevo de madrugada e, durante o dia (meio da tarde), transformo tudo em desenho. Mas alguns desenhos aparecem na madrugada também.

O novo livro tem essa temática da noite. De alguma forma, acredita que sua literatura ganhou tons mais noturnos, mais densos?
Talvez sim, a noite tenha deixado minha literatura com um ar da noite, mas não totalmente. Os últimos dois capítulos do Noites em claro, por exemplo, são dedicados ao amanhecer, ao Sol. No Pó de lua, no capítulo da Lua Cheia, coloquei todos os poemas “sem gravidade”, que falam sobre luz, dia, brilho, calor, alegria. Tenho fases como a Lua, como diria Cecília Meireles, e muitas delas são totalmente ensolaradas. Mas acho que sou uma pessoa de mergulho, não gosto muito da superfície. Talvez venha daí um sentimento de densidade.

Como foi para você ver seu trabalho ganhando reconhecimento na web?

Uma grata surpresa! Confesso que não imaginava ter na internet um espaço tão grande para poesia, literatura. Ainda mais em 2013, quando houve, digamos assim, a maior expressão do meu trabalho. Não existiam perfis autorais com essa relevância na internet, além do Eu me chamo Antônio, que tive também a grata surpresa de descobrir. Para mim, foi uma alegria ver tanta gente curtindo e compartilhando poesia brasileira na internet e isso, claro, acabou mudando a minha vida.

Que importância teve para você toda a exposição nas redes?
Teve a importância de divulgação, de fazer meu trabalho conhecido e de eliminar barreiras. Não existe distância para a internet e isso é maravilhoso!

A internet te influencia também na maneira de escrever? Ou é só uma forma de divulgar e mostrar o trabalho?
Influencia mais na forma do que no conteúdo. Algumas vezes condenso a poesia em um formato que fique legível no celular, coisa que não acontece nos livros, onde me espalho em páginas duplas e até em sequências de páginas duplas. Os versos curtos vieram muito do meu curso, pois sou formada em publicidade e propaganda, onde tive que aprender a dizer muito com pouco e acho que isso foi perfeito para a internet. Obviamente, não me limito a isso e continuo com meus versos maiores e minha prosa, inclusive muito presente neste segundo livro.

Você tem uma maneira poética e também leve de tratar as coisas. É uma escolha consciente ver (ou escrever) o mundo por esse viés?
É uma escolha orgânica, eu acredito. Demorei um pouco para encontrar a “minha voz”. Foi um caminho de descoberta pessoal. A voz do meu primo, do meu pai, dos escritores que admiro, são únicas, mas deles. Demorei para entender isso. Pensava: “Não vou escrever, nunca serei tão boa quanto fulano” e, de fato, nunca serei tão boa quanto ninguém, mas quanto eu mesma. E aí me senti livre para falar o que queria, da forma que queria, dando vida e importância ao que me era caro, da forma que me sentia verdadeira. É uma escolha sim, mas uma escolha de me encontrar e ser fiel a mim.

O que você costuma ler? E o que te influencia?
Costumo ler poesia: Neruda, Cecília Meireles, Manoel de Barros e outros. Amo Adriana Falcão e o Jostein Gaarder. Eles me influenciam muito, porque me tocam. Tudo que me toca a alma me influencia. Tudo mesmo.

Como é a sua relação com o público, até por essa proximidade que a web propicia?
É uma relação fantástica! A web realmente proporciona sim uma proximidade maravilhosa. Sei em tempo real o que sentiram, de quem lembraram quando leram o que publiquei. Isso não tem preço. Com as viagens da turnê de lançamento dos livros, pude abraçar, olhar nos olhos e ouvi histórias lindas, tocantes, deles com o meu trabalho. É incrível ouvir das pessoas sobre até onde o meu trabalho chegou, lugares inimagináveis para mim! Sempre que posso, vou até eles e sempre é edificante.

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