Heroínas transgêneros ganham espaço nas histórias em quadrinhos

Série Alters, criada pelo roteirista Paul Jenkins, apresenta uma protagonista transgênero

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 20/10/2016 07:30 / atualizado em 20/10/2016 09:54

Alters/Reprodução


Charlie Young é um estudante universitário que começa a perceber que seu verdadeiro gênero não é aquele a que nasceu. Ainda sem forças para revelar à família que se sente mulher, Charlie acaba descobrindo que tem superpoderes e é capaz de manipular a gravidade e voar. Nasce, então, Chalice, uma super-heroína. Na identidade secreta, ele pode ser quem é e assume o posto de, provavelmente, o primeiro transgênero protagonista do universo dos quadrinhos, na recém-lançada série de HQs Alters.

Criada pelo veterano dos quadrinhos Paul Jenkis (responsável, entre outras histórias, por A origem, de Wolverine), Alters vai apresentar também outros personagens que descobrem super-poderes e características especiais. Em outra edição, por exemplo, a série vai apresentar um herói que se torna tetraplégico.

Chalice surge no universo dos quadrinhos em um momento em que o desejo de apresentar a diversidade nos personagens é cada vez mais forte. Negros, gays, mulheres, asiáticos, todos eles, aos poucos, foram conquistando mais espaço no mundo das HQs.

A personagem, contou Jenkins, foi inspirada na mãe, uma mulher gay que criou dois filhos e os ensinou valores de igualdade e representatividade. “Se algum dia chegarmos ao ponto em que raça, sexualidade e identidade de gênero não forem assunto, então teremos chegado lá. Isso é minha mãe falando”, contou o autor em entrevista ao The New York Times sobre a série.

O autor contou que sempre planejou ter um personagem transgênero, mas foi só em 2014 que um fã lhe deu a ideia que acabou gerando Chalice: criar um herói que ainda não tivesse feito a transição e só se apresentasse como mulher no traje. “Ela só pode ser ela mesmo quando está sozinha”, resumiu Jenkins. O fã, Liz Luu (hoje assistente executivo do Cartoon Network), cedeu a ideia em troca de aulas com Jenkis.

O próprio Jenkins já havia trabalhado a diversidade em projetos anteriores. Na Marvel, ele criou o personagem Sentinela, um super-herói com esquizofrenia. Apesar de tocar no tema da representatividade, Jenkins garante que não pensou em transformar Alters em uma série com lições de moral. “A coisa mais importante na abordagem deste livro para mim era concentrar nos personagens como heróis e vilões e deixar que essas coisas saíssem durante o processo”, disse.

No Brasil
Criador de Velox, um dos primeiros heróis gays dos quadrinhos brasileiros, Elenildo Lopes destaca a relevância de personagens assim para as HQs. “Eles têm importância extrema. Hoje, pensamos e buscamos uma sociedade mais justa e igualitária, então nada melhor que termos representatividade em todos os campos”, acredita.

Ele vê Chalice também como um passo fundamental para a representatividade se tornar mais forte no universo dos quadrinhos. “Chalice é o novo símbolo do atual e do que o futuro nos reserva para o mundo. Estou muito empolgado com essa nova era dos quadrinhos e suas possibilidades”, valoriza. “Os nossos ídolos, ícones não são e não precisam ser definidos por sua sexualidade, pela cor do cabelo ou por usarem capas ou não. Nada disso importa. O que importa é o interior, as virtudes e o lado humano”, comenta.

Em um momento em que a intolerância ganha contornos fortes, Lopes acredita que é papel da arte levar a discussão a outros níveis. “Quando uma dita minoria se mostra à luz do dia, outra face também aparece: a intolerância. Ocorrem crimes, discriminação. Temos que repudiar esse tipo de coisa, discutir e mostrar por meio da arte essas questões.”

O personagem criado por Elenildo tem uma história próxima à de Chalice. Homossexual, Éron mantém o fato em segredo e só como Velox consegue se aceitar. “Éron não é assumido, mas, quando se transforma em Velox, ele voa livre.” A ideia de criar Velox já era antiga, mas o ponto final para a decisão foi o atentado contra homossexuais em uma boate de Orlando. “Aquele ataque odioso me fez ver que era hora de lançá-lo. Já não podia mais esperar.”

ALTERS
Disponível, até o momento, apenas em inglês, as HQs de Alters podem ser adquiridas em versão digital em http://aftershockcomics.com/alters/. Cada edição custa US$ 3,99.


Três perguntas // Elenildo Lopes
Qual a importância de representar personagens assim nos quadrinhos?
Contar histórias por meio do universo e ótica desses personagens, como de Alters e do Velox, é essencial para que a sociedade veja, leia, discuta e entenda que não existe nada ali além do que todos somos. As diferenças biológicas, sexuais e de pensamento aqui são apenas um detalhe em um universo de semelhanças. É preciso entender e respeitar a diversidade como parte do que somos!

Como surgiu a vontade de criar o Velox?
Eu já tinha pensado no Velox havia anos, em sua base e propósito já com essa ideia de representatividade em mente, assim como todos os meus personagens, mas tinha escrito e definido poucas coisas. Em 2016, vi mais claramente que rumo ele seguiria e seus poderes. O Velox esperava o momento certo para sair da gaveta. Então, aquele ataque odioso em Orlando me fez ver que era hora de lançá-lo. Já não podia mais esperar.

O que você espera que as pessoas possam “aprender” com o personagem?
Possam aprender a respeitar e aprender que a diferença faz parte da nossa natureza e a nossa sociedade e que precisamos de representatividade justamente para isso. A ignorância é o câncer da humanidade. Mas quando temos representatividade e discutimos como sociedade, por meio de várias formas, podemos evoluir.

"A ignorância é o câncer da humanidade. Mas quando temos representatividade e discutimos como sociedade, por meio de várias formas, podemos evoluir"
Elenildo Lopes, quadrinista
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.
 
Luciana
Luciana - 20 de Outubro às 19:46
TRISTE...