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Maria Valéria Rezende fala hoje, na Bienal, sobre uma escrita periférica

Vencedora do Jabuti investe em histórias cujos protagonistas são excluídos

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postado em 22/10/2016 07:30

Nahima Maciel

 

Karen Ritchie/Divulgação
 

 

Maria Valéria Rezende não é nada sentimental. Ao contrário de Maria, protagonista de Outros cantos, romance lançado no início do ano, Maria Valéria não se entrega a romantismos enternecidos. É, na verdade, prática e objetiva. Mas o pequeno povoado no qual a personagem encontra pouso é exatamente o mesmo no qual a autora viveu durante um período de sua trajetória: uma vila cujos habitantes viviam de tecer redes. Assim como repousam na memória da autora outros tantos detalhes e cenários descritos no romance, o segundo depois de Quarenta dias, com o qual Maria Valéria levou o Prêmio Jabuti em 2015. “Tudo é memória porque a gente nasceu com a cabeça vazia, só que são memórias misturadas, de várias origens, como se você tivesse um monte de peças misturadas e a gente remonta de nova maneira”, avisa a escritora de 73 anos, freira da congregação Nossa Senhora, Cônegas de Santo Agostinho, religiosa engajada em movimentos sociais de base e cuja pena sempre pendeu para o lado daqueles que pouco frequentam a literatura brasileira contemporânea.

Hoje, a partir das 11h30, Maria Valéria conversa com o público no Café Literário da III Bienal Brasil do Livro e da Leitura e lança Quarenta dias. O romance projetou o nome da autora e narra o drama de Alice, professora aposentada que mergulha numa procura obsessiva por um desconhecido.

Os personagens de Maria Valéria estão sempre à margem e nunca em evidência. Ela escreve sobre excluídos porque não se interessa por outro tipo gente. De certa forma, a freira nascida em Santos em uma família de escritores, poetas (ela é sobrinha-neta do poeta Vicente de Carvalho) e oligarcas do café “empobrecidos” gosta mesmo é de falar do que ela conhece muito bem.

Nos anos 1960, depois de integrar a Juventude Estudantil Católica, decidiu entrar para vida religiosa. Para isso, escolheu uma congregação na qual pudesse ficar próxima de comunidades nas quais faltava praticamente tudo. Formada em pedagogia, com mestrado em sociologia, ela passou a trabalhar na formação de adultos seguindo os ensinamentos de Paulo Freire, mestre e mentor com quem conviveu. Maria Valéria fazia parte de um exército cuja missão era equipar as populações mais carentes com instrumentos que possibilitassem a consciência social. Era uma época, ela mesma lembra, na qual havia abertura na igreja para uma interpretação da Bíblia mais próxima do cotidiano do povo.

Maria Valéria escreve desde pequena. Antes de ver seu telefone tocando loucamente e sua caixa de e-mail entupida com pedidos de entrevista por conta do Jabuti, ela já havia publicado alguns livros infanto-juvenis. Foram amigos que a convenceram em mandar Quarenta dias para o prelo. Ela se surpreendeu com o prêmio, ficou constrangida (queria dar o lugar para a escritora Elvira Vigna) e foi dura ao criticar a ideia cultivada no meio literário de que, para ser lido, o escritor precisa estar nos grandes centros ditos cosmopolitas. Porque cosmopolitismo mesmo, ela garante, não existe. Por maior que sejam as cidades, vive-se em guetos, em panelinhas, em grupinhos socialmente homogêneos. Em entrevista, a autora fala da crise política, da igreja no século 21 e da literatura brasileira, alguns dos temas que pretende levar para o debate de hoje.



III Bienal Brasil do Livro e da Leitura
Café Literário – Maria Valéria Rezende. Hoje, às 11h30. Com Mario Prata e Antonio Prata. Mediação: Nicolas Behr. Hoje, às 16h30, na Arena Jovem Cecília Meireles, no Estádio Mané Garrincha. Entrada franca. Entrada franca

Acompanhe a cobertura da III Bienal Brasil também no site e nas redes sociais do Correio. Snapchat (culturacb), Instagram (@cbfotografia), Facebook e Twitter (@correio)



ENTREVISTA / Maria Valéria Rezende

Sua experiência com os movimentos sociais serviu de base para sua narrativa. Por que escrever sobre isso?
Houve milhares de pessoas que resistiram à ditadura e que queriam fazer uma ação política significativa. O que tínhamos que fazer era ajudar o povo a descobrir sua força, sua realidade, se organizar e se levantar. Foram milhares de pessoas. E a invisibilidade era parte necessária para ter sucesso nesse trabalho: não era para a gente ter protagonismo e dirigir o povo, mas tentar fazer com que gerassem suas próprias lideranças e organizações. Foi um trabalho de grande sucesso, porque os movimentos todos que se levantaram na segunda metade dos anos 1970 vieram de lá. Foi importante para gerar partidos políticos, já nos anos 1980, e foi isso que constituiu a base do próprio PT. Então quando o pessoal diz que o PT acabou e tal, o PT foi um instrumento que cumpriu seu papel. Esperar que fosse uma coisa pura, que jamais tivesse nenhum problema, é puro idealismo maluco. É evidente que toda instituição, na hora que começa a se firmar, também atrai uma série de tentações, pessoas que estão em busca do poder e etc. Todo o processo da comissão da verdade resgatou a memórias dos exilados, dos presos, torturados, mortos, censurados, mas esses milhares de pessoas que mergulharam nas periferias das grandes cidades, nos campos, na zona rural, nós nunca fomos visíveis e invisíveis continuamos. E minha personagem é um pouco uma representação de toda essa gente que, em geral, renunciou a fazer uma carreira profissional de classe média.

É importante falar sobre isso no Brasil hoje, com o momento político que o país está vivendo?
Relembrar isso é essencial. Com a chegada do PT aos governos, os quadros que ele tinha para cumprir as funções vieram dos movimentos, o que deixou os movimentos um pouco mobilizados. Foi um processo muito rápido e você não forma lideranças e quadros em um ano. Para mim, é muito importante lembrar como foi que se construiu um caminho muito positivo, embora o próprio povo talvez não tenha consciência que isso aconteceu. Essa experiência tem que ser lembrada para suscitar novas formas de presença nos meios populares, para suscitar educação política, conscientização, clareza e educação sobre a vida social, econômica e política, o que parece que está em déficit hoje.

Como você avalia essa radicalização que houve no país recentemente?
Temos aí uma questão de concepção da vida social que envolve as identidades das pessoas. Muita gente que foi para rua com Fora Dilma e Abaixo o PT não é gente rica, mas é gente que já foi rica. Durante quase 500 anos vivemos numa sociedade profundamente dividida. Como as pessoas – que eram católicas, liam o evangelho e tinham medo de ir para o inferno – conviviam com condições de extrema exploração dos escravos e, depois, dos trabalhadores? Como, de noite, botavam a cabeça no travesseiro e dormiam? Foi criada toda uma mentalidade com um revestimento religioso de que é a vontade de Deus. E isso estava entranhado também na cabeça do povo. Foi essa a pregação.

Isso mudou?
Quando cheguei no Nordeste e fui viver na zona canavieira, não havia praticamente diferença entre a escravidão e os cortadores de cana dos engenhos e usinas do Nordeste. Mas é muito fácil e rápido você mudar dados econômicos, criar um Bolsa Família e, pelo menos, garantir que as crianças comam. E isso é visível aqui no Nordeste. Os jovens hoje são mais ou menos 20cm mais altos que seus pais. O nordestino baixinho da cabeça chata desapareceu. Aquilo era fome. Isso é um ganho e, para mim, tem que ser visto como investimento que não vai se perder mais. Houve uma mudança física. E o desenvolvimento dos jovens de classe popular é uma coisa irreversível. A menos que se instaure um regime de fome para voltar ao nível de 20 anos atrás. Eu queria chamar a atenção para isso. Escrevi o livro antes dessa crise toda aparecer, mas acho que escritor tem uma antena e que escreve sobre aquilo que está se anunciando.

Esses temas estão ausentes da literatura brasileira contemporânea?
Há uma espécie de ideia geral de que a grande cidade é a grande oportunidade, é o espaço que concentra inteligência, desenvolvimento, que São Paulo é cosmopolita. Acho um grande engano porque ninguém vive na cidade de São Paulo, assim como ninguém vive em Brasília inteira. Só taxista e motoboy é que percorrem essas grandes cidades. Acabam se desenvolvendo pequenos guetos em pequenas áreas da cidade, pequenos setores sociais. E quando a gente vive em cidades menores, a gente vive em contato com outras classes sociais. As pessoas que vão viver nesses lugares vivem dentro de um pequeno meio, convivendo uns com os outros. Eu não aguento mais ler livro em que o protagonista é escritor. Não dá. Como se o mundo fosse feito de escritores. É o escritor que vive frustrado, o jovem jornalista que vive frustrado porque não consegue terminar o romance que está escrevendo sobre um jovem jornalista que vive angustiado porque não consegue publicar o romance que ele escreveu. Ou sobre o jovem jornalista que publicou um livro de poesia que ninguém leu.

Como você enxerga o Brasil de hoje quando se trata de educação? Onde estamos? Para onde vamos?
Acho que há um trabalho muito interessante hoje feito pelos projetos sociais, civis, que têm origem justamente naqueles movimentos, com o pessoal que se formou exatamente nos movimentos sociais de base que surgiram nos anos 1970. Tenho um monte de amigos que até hoje se dedicam a fazer projetos e que hoje se utilizam muito do meio artístico como meio de educação social, político e de desenvolvimento humano nos meios sociais. Isso é uma coisa. Isso é educação popular, que não é alfabetização de adultos. A questão da alfabetização está ou estava resolvida, não sei agora no que vai dar ou o que vai sobrar. Por outro lado, as portas estão abertas para aqueles que tenham talento, vontade. Conheço um monte de jovens que trabalhavam comigo no interior da Paraíba que são doutores, pós-doutores, professores de federais e vieram de famílias de trabalhadores rurais mal alfabetizados.

E você acha que isso perdura? Agora que há um teto constitucional de gastos para saúde e educação?
Onde você tinha que investir mais, vai ser limitado. É um absurdo tão grande! Enquanto isso, você vê salários escandalosos de um certo tipo de funcionalismo público, do próprio Congresso Nacional. Basta a pessoa ter o mínimo de sensatez e honestidade intelectual, sair da sua casinha e olhar, conviver. Há uma espécie de cegueira ideológica que tem a ver com a própria identidade das pessoas. Conheço pessoas que têm muita dificuldade financeira hoje, mas que são originárias de famílias aristocráticas ou oligárquicas. E onde se salva da humilhação financeira? Dizendo “eu não tenho dinheiro mas sou bem-nascido”. O que isso quer dizer? Que acreditavam vir de uma espécie naturalmente superior que tem a ver com a cor da pele, com o nome, com a riqueza que seus pais e avós tiveram.

É uma mentalidade forte ainda no Brasil?
Eu pensei que estava sendo superada, mas aí vieram esses acontecimentos de 2014 e 2015, aquelas hordas pela rua completamente sem noção. Muita gente que conheço nunca se interessou por política nenhuma, gente que não estava nem aí com política porque não precisava, mas que de repente se vê ameaçada. Porque veja só: o filho de família de classe média alta não tinha nenhuma dúvida sobre seu futuro, por mais ignorante, burro ou preguiçoso que fosse. Hoje tem que enfrentar uma competição muito maior, com gente com muito mais garra, porque chegou ali a custo de muito esforço. O povo que sofreu tanto! Se você pensar no nível de mortalidade infantil nas classes trabalhadoras até pouquíssimo tempo você pode até ser meio darwiniano e dizer que os pobres que resistiram são de qualidade superior. Você não pode dizer isso de quem sempre teve uma vidinha mais ou menos assegurada.

A situação dos excluídos melhorou?
Não tenho nem dúvida. Eles estão lutando para ser incluídos. Com grande esforço e com sucesso em grande parte das vezes. É uma coisa absolutamente idiota achar que qualquer coisa que se invista no povo é gasto. Não é gasto. É o único investimento absolutamente seguro. É a qualidade humana, intelectual, moral do povo trabalhador. E eu não sei escrever sobre outra coisa porque não me interessa.

A Igreja ainda tem uma inserção social importante?
Tem sim. Mas, evidentemente, não tem o mesmo apoio da hierarquia. Você tem aqui e ali uma paróquia engajada, sobretudo o clero diocesano. É muito ruim generalizar, acho que há de tudo. O que acho que é impossível, e não falo nunca, é dizer que a igreja fez isso ou aquilo. Não existe “a igreja” como uma coisa homogênea. A leitura da Bíblia a partir do povo continua muito viva, só que é menos promovida pela hierarquia. Houve, durante o longo papado de João Paulo II, uma sistemática substituição dos bispos por figuras conservadoras. E, depois de tanto tempo, para o novo papa encontrar bispos mais engajados, mais capazes, mais sensíveis a toda uma situação que devolva o cristão leigo e sua militância para o meio do mundo, que o tire e o liberte das sacristias da igreja, não é simples. Nesses últimos 30 anos, houve um entusiasmo com o novo tipo de neopetencostalismo neocatólico que começou a encher igrejas e catedrais na base da cantoria, da cura milagrosa, da liturgia que fez com que se esquecessem documentos fundamentais do concílio Varticano II. Você tinha uma visão de que o evangelho se faz em todos os momentos da vida, envolve sua vida de trabalho, sua participação política, tudo isso. Mas é muito mais fácil você pensar que vai à igreja, fica duas horas, canta, dá um dinheirinho na coleta e está tudo bem. Achar que ser cristão é distribuir sorrisos, palavras bonitas e orações é fácil.


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