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Correio Braziliense

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Mario Prata e Antonio Prata dividem mesa na Bienal e falam sobre crônica

Pai e filho discutem o gênero durante debate no evento

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postado em 22/10/2016 07:30

Nahima Maciel

 

 

Epitacio Pessoa/AFEP

Foi durante um jantar na casa de Luis Fernando Veríssimo, em Porto Alegre, que o escritor Mario Prata relaxou. Até então, disfarçava quando alguém perguntava sobre o trabalho do filho, Antonio. Mario era fã das crônicas, mas preferia não enfatizar. Afinal, um pai achar o filho um gênio é uma obviedade inevitável. Mas aí, Mario entrou na sala e ouviu Veríssimo dizer a Chico Buarque, um dos convidados do jantar, que havia sido o primeiro a apontar Antonio como um dos melhores cronistas contemporâneos brasileiros. E Mario pôde, finalmente, demonstrar entusiasmo diante da escrita do filho. “Não fui eu quem disse, foi o Luis Fernando”, brinca. Sobre essa relação, ele promete falar bastante no debate Crônica: ontem, hoje e amanhã, marcado para hoje na Arena Jovem Cecília Meireles, na III Bienal Brasil do Livro e da Leitura. Mario terá Antonio como companheiro de debate.

Antonio Prata era criança quando anunciou que seria escritor. Pai e mãe, a também escritora Marta Góes, ficaram apreensivos. Não queriam que as portas se abrissem apenas por conta do sobrenome. Mas Antonio traçou caminho próprio. Enveredou pelo mesmo gênero no qual o pai ficara conhecido e herdou do ambiente familiar um humor particular. A influência paterna, o autor de Nu, de botas acredita ser inevitável : “Influência é uma palavra fraca para falar do legado que um pai deixa para um filho na criação. Metade dos meus genes vieram dele. Antes de eu aprender a escrever, ele me ensinou a falar”.

As semelhanças entre as escritas dos dois são muitas: a irreverência no texto, a relação natural com a literatura, a preferência pela crônica, o humor. “São estilos diferentes de humor, mas os dois trabalham nessa seara”, avisa o filho, que já colaborou com o pai em projetos como a novela Bang bang e na confecção de um livro online. “O Antonio é eu passado a limpo”, brinca Mario, que abandonou um emprego no Banco do Brasil para ser escritor. “Fui criado para ser gerente do banco. Antonio foi criado para ser nada. Ele engatinhou em cima de livros. Ele brinca que ninguém falou para ele que podia ser outra coisa.”

Como o tema do debate de hoje é a crônica, pai e filho devem explorar a história do gênero. Aqui, os dois têm entendimentos diferentes quanto às mudanças sofridas pela crônica. Para Mario, ela se aproximou perigosamente das sessões de opiniões dos jornais. “Hoje, se você pegar 50 cronistas brasileiros, 45 são articulistas, são cagadores de regra”, acredita. Já Antonio acredita que pouca coisa mudou desde Rubem Braga e Paulo Mendes Campos. “A crônica ainda é um texto breve, leve, que deve entreter o leitor. Mudam as referências, claro. Mas não acho que o gênero mudou muito não, acho que o gênero continua muito parecido”, diz.

 

III Bienal Brasil do Livro e da Leitura
Arena Jovem Cecília Meireles - Crônica: ontem, hoje e amanhã

Com Antonio Prata e Mario Prata. Hoje, às 16h30, no Estádio Mané Garrincha. Entrada franca

 

Entrevista: Mario Prata

Você vê muita diferença na crônica que se fazia ontem e a que se faz hoje?
Sim. A crônica perdeu a essência dela. Crônica era uma coisa leve, solta, com tendência mais para a literatura que para o jornalismo. Teve um momento no Brasil, antes de mim, que os grandes cronistas de então, que são os mesmos grandes cronistas até hoje -- Rubem Braga, Fernando Sabino, Antonio Maria, Stanislaw Ponte Preta, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos --, extraíam do nada observações. A característica principal da crônica é transformar o nada em arte. Tem muitas crônicas assim. Aí, depois, ficou um buraco na imprensa brasileira durante umas duas ou três décadas, o jornal não publicava mais crônicas.Tinha uma aqui, outra ali, não como hoje.

Tem a ver com a ditadura, momento político, econômico e social do país?
Quando, em 1990, o Aloisio Maranhão chamou 12 cronistas para escrever no Estadão, foi quando eu fui para o Estadão, em 1993, virou moda. A Folha fez a mesma coisa, o Globo e o JB também, e houve um turbilhão de crônicas. Esse enxame de cronistas, grande parte deles foi mudando para articulista. Se você pegar 50 cronistas brasileiros hoje, 45 são articulistas, são cagadores de regra.

Essas fronteiras entre o articulista e o cronista estão cada vez mais turvas?
 É, mistura um pouco porque o cara começa e pá, ele cai lá. Eu estava vendo uma entrevista, meio em função de ir para essa mesa em Brasília, com Walter Robinson (editor do Boston Globe que conduziu uma editoria de jornalismo investigativo). É incrível ele falando que, hoje, cria-se um editoria dentro de um jornal ou de uma televisão que eles chama de jornalismo investigativo. Porra, todo jornalista é investigativo! E hoje não tem mais jornalismo investigativo. E hoje é facílimo. Em um discurso, o cara pode falar que construiu 500Km de metrô. Você pode entrar na internet, investigar e ver que construiu 15Km. Mas às vezes, ele fala que construiu 500Km e todo mundo publica. Não se investiga mais. O jornal hoje passou a ter, a cada três páginas, um articulista.


Olhando para a crônica do Antonio, você sente alguma identificação? Como é essa relação literária com teu filho?
O Antonio  é eu passado a limpo. Fui criado para ser gerente do Banco do Brasil. Antonio foi criado para ser nada. O pai era escritor e jornalista, a mãe era escritora e jornalista, o padastro era escritor e jornalista e a gente só andava com escritor e jornalista. Ele engatinhou em cima de livros. Ele e a Maria (Prata, jornalista). Antonio brinca que ninguém falou pra ele que podia ser outra coisa. E um dia ele falou “vou ser escritor”. O que me apavorou, porque é difícil, no Brasil, “filho de”, “irmão de” dar certo na mesma profissão. São poucas exceções. Cito sempre os Veríssimos. E posso citar vários outros que não deram certo. Inclusive jogador de futebol, advogado. Não é só uma coisa da escrita. O Antonio me superou. Sou fã dele. Só que quando ele começou a fazer crônica, eu fiquei com medo das pessoas abrirem a porta porque era meu filho e da Marta. E ficar aquela coisa do “filho do”. E comecei a gostar (da crônica dele). Não imediatamente, mas ele foi pegando um jeito, um estilo. Só que eu não podia falar. Todo pai acha que o filho é um gênio. Mesmo que ele fosse engenheiro, eu ia achar que ele é um puta engenheiro. Aí, me faziam uma pergunta dessas e eu ficava rodeando.

Hoje não tem problema em falar?
Não. Porque um dia estávamos em um grupo pequeno na casa do Luis Fernando Veríssimo, em Porto Alegre, e a Lúcia, mulher do Luis Fernando, fez um jantar pra gente. Uma hora saí da sala e, quando voltei, estava o Chico Buarque e o Luis Fernando Veríssimo discutindo quem tinha dito primeiro que o Antonio era um gênio. Aí eu relaxei. Não fui eu. O Luis Fernando falou que nem sabia o nome dele direito na época, que perguntaram para ele quem eram os grandes escritores de humor no Brasil e ele falou fulano, fulano, Mario Prata, o filho do Mario Prata. Aì pensei “posso relaxar”. Fico muito sem jeito de ficar elogiando, tinha medo de que a carreira dele fosse impulsionada por ser filho meu e da Marta. No começo, o Jô Soares nos convidou duas vezes  para irmos juntos ao programa e ele não quis. E eu entendi perfeitamente. Agora, já fazemos mesa juntos. 

 

Renato Parada/Divulgação
 

 

Entrevista Antonio Prata

Vocês já dividiram mesa de debate antes?
A gente já participou de bate-papos e lançamentos de livros. A gente está pensando em falar um pouco de crônica, que é o gênero que os dois mais praticaram e praticam, falar um pouco da história da crônica, como surgiu, o formato, como a gente trabalha, dar um pouco de informação sobre o gênero.

É muito diferente a maneira como vocês trabalham?
É difícil para mim falar porque estou dentro. Acho que influência é até uma palavra fraca para falar do legado que um pai deixa para um filho na criação. Metade dos meus genes vieram dele. Antes de eu aprender a escrever, ele me ensinou a falar. Então acho que tem muitas semelhanças. Acho que ele tem uma irreverência no texto, uma relação com a literatura que foi muito benéfica para mim.  Nunca achei que a literatura fosse uma coisa diante da qual você tem que se ajoelhar e chegar de terno e gravata. E são características da crônica também como gênero. E tem o humor, que os dois têm. São estilos diferentes de humor, mas os dois  trabalham nessa seara.

Humor era uma  coisa presente quando você era pequeno e adolescente?

Ah era, ele sempre foi muito engraçado. E ainda é. Eu lia, na infância, os livros infantis que ele escrevia. Depois, na adolescência, quando eu morava com ele, eu não lia porque eu via a crônica nascendo, ouvia ele falando da crônica, então quando ele publicava eu já sabia. Ficava meio redundante. Comecei a voltar a ler depois que parei de morar com ele.

Você também já trabalhou com ele na novela Bang Bang. Como funciona essa colaboração?
É difícil trabalhar com pai. O problema é que, além de ele ser  meu pai, sou filho dele. São duas coincidências que dificultam um pouco o trabalho. Quando seu chefe manda  você fazer uma coisa e ele não é seu pai ou seu parente, você simplesmente obedece. Quando é seu pai, você fala “ não pai, vamos fazer de outro jeito”. Você questiona mais. Mas foi divertido.

 

 

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