Cartunista Rick McKee fala ao Correio sobre política, arte e trabalho

O norte-americano que já publicou imagens em mais de 800 jornais, entre os quais o The New York Times e USA Today

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postado em 23/10/2016 07:35 / atualizado em 22/10/2016 23:28

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
 

 

“Como um cantor que tem suas inspirações, quando eu era jovem, gostava dos cartoons de Jeff MacNelly (das populares tirinhas Shoe), do australiano Pat Olifant (criador do pinguim Punk) e de Bill Watterson (da tirinha Calvin e Hobbes). O estilo deles foi o que mais me inspirou”, conta o cartunista Rick McKee, norte-americano que já publicou imagens em mais de 800 jornais, entre os quais o The New York Times e USA Today. Na semana passada, com as eleições norte-americanas pegando fogo (vale lembrar que brincar com os bastidores das eleições é o ganha-pão de McKee), ele esteve em Brasília, para atender aos questionamentos de estudantes, muitos deles saídos da UnB. “Acho que de lá vieram as questões mais difíceis de serem respondidas, tanto no nível da arte quanto às relacionadas aos cartoons. Mas, a bem da verdade, gosto da provocação das perguntas ásperas”, diz McKee, aos 51 anos, durante visita ao Correio.



Entre seus traços, as peças mais proeminentes, leia-se Donald Trump e Hillary Clinton, não lhe interessam, como eleitor. “Ninguém, no Brasil, ouviu dele, mas voto em Evan McMullin: ele trabalhou no staff da CIA e representou a Casa Branca, no Congresso. Quarentão, ele é conservador e não traz consigo toda a gama de loucuras ao seu redor. E ele não vencerá; mas sinto que não tenho lá muitas opções”, diz.

No rol de comediantes (estilo que gosta de ouvir no melhor dos meios ultrapassados, o rádio), McKee não vacila: gosta de Jerry Seinfeld, de Jim Gaffigant e de Brian Reagan. Longe da lida com política, o cartunista, autodidata (mas formado em design gráfico, no Alabama), adere o talento a campos como o do entretenimento e dos esportes, “ramos muito populares”. Segue sábio conselho do amigo cartunista Don Wright: “Você não pode ser duro com os temas, por todos os dias. Insira entretenimento e arte pop, para não cansar os seus leitores. Seriedade, negatividade em excesso, afugenta os leitores”. Ao Correio, deixou as cinco ilustrações que estão nesta página.

O que deve preponderar: palavras ou imagens? A música agora já rendeu Nobel... Isso virá para o cartoon?
Sempre vou defender o peso de uma imagem contra as estipuladas mil palavras deste eterno comparativo. Adoro ler, mas curto demais o aspecto da arte. Não sei se ainda verei os cartoons alcançarem um patamar merecido. Quem sabe algum dia? Sabe, andei em museus de Paris e observei a exposição de cartoons famosos do século 18. Tenho a esperança de que isso avance ainda mais.

Qual seu grande desafio no dia a dia?
Tornar tudo o que faço o mais universal e simples possível é o meu objetivo central. Claro que há tópicos restritos aos norte-americanos, na corrida eleitoral, por exemplo. Mas evito isto: os cartoons mais eficazes são aqueles que tocam a todos. Isso — da comunicação imediata — se concretiza, quando observo, à distância, a produção brasileira, por exemplo.

Qual o grau de correção política do seu trabalho?
É da índole dos cartunistas ignorar o que seja politicamente correto. Se atendêssemos ao chamamento dessa correção, seríamos ineficazes. Muitos colegas não podem se preocupar com a correção política — ela pode ser inimiga da discussão aberta e irrestrita e ainda cercear a liberdade de expressão. Desenho, de fato, aquilo que preciso, mas, se alguém não gostar; não gostou.

Como sentiu o episódio das mortes de criadores de charges do jornal francês Charlie Hebdo?
Para mim, veio numa escala pessoal: conheci, com três meses de antecedência, um dos cartunistas que veio a ser morto. Conversei com ele, passamos um tempo juntos, e, meses depois, ele esteva morto! Foi algo realmente muito chocante: ver alguém que basicamente fazia o mesmo que eu ser morto por causa disso.

Há alvos sagrados para o seu humor?
Não acho que haja elementos que sejam sagrados no que faço. Nunca desenhei Alá, por exemplo — mas isso porque jamais tive motivo para fazê-lo. Claro que já lidei com temas sensíveis. Assuntos emotivos, situações que alcancem raças e religiões são sempre tratados com sensibilidade. O que não quer dizer que virão a ser ignorados. Tenho em conta que o que desenharei poderá deixar pessoas incomodadas ou tristes. Não aposto em situações fora dos limites.

O avanço do feminismo também está parrudo nos Estados Unidos?
O feminismo foi um movimento de idas e vindas nos Estados Unidos dos anos de 1970. Mas, na verdade, acho elas (as feministas), no meu país, muitas vezes, divertidas. Não tanto como já foram no passado. Sigo a filosofia de que as pessoas ocupem os espaços e as posições para as quais venham a estar qualificadas. Nós superamos a necessidade do feminismo nos Estados Unidos. Aliás, vivemos um momento em que, o tema já não desperta tantas reações exageradas e até mesmo é possível brincar, num cartoon, com o feminismo sem maiores problemas.

 

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press


Em quem votaria, como cartunista, e como eleitor? 
O Donald Trump é um verdadeiro sonho para estar no ofício de qualquer cartunista. Ele não apenas diz coisas ultrajantes, fisicamente, ele tem aquele cabelo, leva adiante aquela conduta e aquele comportamento único, ele realmente é divertido. Ele é um grande candidato para qualquer cartunista, mas, como cidadão, não consigo vê-lo com todo esse entusiasmo. A Hillary, por outro lado, tem realmente um problema em professar a verdade. Ela teve problemas, ainda como secretária de Estado, na manutenção daqueles e-mails, teve falhas em administrar informações confidenciais. Há muitas questões que a cercam desde os anos de 1990. Ela também não é muito comunicativa, quando paira, ao redor dela, uma aura de mistério.

Barack Obama sai ileso de críticas?
Não! Sou muito crítico com ele. Acho que o pior ponto dele é o de ser fraco no trato com o terrorismo. Ele hesita em falar do tema, ele é lacunar nas ações a serem tomadas. A falta de tomada de posições se projeta nos problemas que ele tem tido com as fronteiras e com os imigrantes — isso num contexto em que sabemos que os terroristas gostariam de se infiltrar nessas fronteiras. Se esquivar no tocante à imigração é ser fraco na contenção do terrorismo. Ele minimiza problemas graves. Os americanos temem o terrorismo, e esperamos que um presidente seja firme nesse quesito. Tenho muitos desenhos acerca das ações de Obama.

Quando se descobriu um ser político? E como analisa o momento atual, passados os debates da eleição norte-americana?
Desde criança, estive cercado por política. Minha mãe, naquela época, trabalhava numa área conectada ao sistema governamental. Foi na faculdade, fazendo cartoons políticos para o jornal acadêmico, que despertei: tenho que me inteirar da realidade e adotar crenças que me envolvam. Foi nos primeiros anos da faculdade que me tornei este indivíduo político. Quanto ao momento atual, acho que tudo está muito polarizado. Os debates do passado canalizavam temas e traziam bases mais informativas. Os linguistas, aliás, analisavam, no passado, e decretavam: “São candidatos com linguagem de secundaristas, por exemplo”. Descemos a ladeira: acho que agora a linguagem dos candidatos é de quarto ano primário e as coisas se tornaram mais pessoais. O nível de discurso também caiu, agregando até mesmo xingamentos!

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