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Escritores representam a literatura brasiliense na Bienal

Novas e tradicionais gerações de escritores representam a literatura brasiliense durante a terceira edição da Bienal Brasil do Livro e da Leitura

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postado em 24/10/2016 08:50 / atualizado em 24/10/2016 14:26

Isabella de Andrade - Especial para o Correio

Entre prosa e poesia, escritores brasilienses persistem na produção literária de boa  qualidade. Ainda que o mercado para iniciantes possa parecer pouco próspero, permanece a vontade de fazer circular a criação local e o cenário independente aparece como um caminho que abre cada vez mais suas portas a jovens escritores. Para representar a força da produção atual brasiliense, 16 autores lançarão suas obras na terceira Bienal Brasil do Livro e da Leitura, o dobro das edições anteriore. Os trabalhos locais terão como palco de lançamento um espaço especial, a Banca 308, relembrando a banca localizada na quadra modelo de Brasília, na Asa Sul, sob o comando de Conceição Freitas. Em suas atividades cotidianas, a banca já tem tradição em dar espaço para os escritores da cidade.

A comissão que selecionou os autores entre todos os inscritos da capital foi formada por nomes conhecidos da cena literária brasiliense: o poeta Nicolas Behr, os jornalistas e escritores Conceição Freitas e José Rezende Jr., além do poeta e escritor Hamilton Pereira.  A Bienal torna-se ponto de encontro entre artistas, criativos e leitores, ampliando a circulação de autores contemporâneos. “Todo evento literário, o encontro entre escritor e leitores, é sempre muito prazeroso. Escrever é um ato muito solitário, que se completa quando você encontra o leitor”, afirma José Rezende. O escritor lembra que, apesar da atual dificuldade do mercado literário, Brasília tem produzido boas iniciativas, como editoras e projetos independentes, entre eles, o Selo Longe e a Editora Outubro. “A cidade é muito nova, então ainda estamos formando nossas gerações de escritores. Fico muito feliz que tem gente nova e boa chegando”, declara.

Entre os selecionados para a edição atual está o escritor Rômulo Neves, com o livro Terminal.  “Para ser significativa, a Bienal precisa ser mais do que um amontoado de estandes. Tem de gerar sinergia, oportunidades e ações integradas”, afirma.

Seu mais recente trabalho, Terminal, é um livro de poemas escritos entre 1999 e 2016, com motivação entre o cotidiano e sua beleza esquisita. Entre as páginas do poeta, povoam uma segunda leitura de uma realidade dada, um significado fora de lugar de uma palavra específica, uma segunda intenção não revelada. “É o modo como experimento um outro mundo, não necessariamente mais bonito, mas igualmente interessante”.

Enquanto isso, a aventureira Mariana Carpanezzi experimenta a escritora confessional em O mundo sem anéis – 100 dias em bicicleta, uma espécie de diário, memória e livro de viagem. Entre as páginas, o leitor pode conferir a história dos 100 dias em que a autora passou viajando sozinha pela Espanha. “Tudo que eu faço é abertamente autobiográfico, e essa confessionalidade, eu acho, é a linha que perpassa e ao mesmo tempo me inspira e motiva a produzir. Tenho uma espécie de angústia em entender minha própria identidade e meu lugar no mundo”, revela Mariana.

Para Carpanezzi, a Bienal faz a literatura se movimentar em grande escala na cidade, possibilitando o encontro entre a cena artística e trazendo à tona o panorama da produção brasiliense. “É como se fosse uma grande tela, temos uma perspectiva da produção local e do lugar dela no meio da criação de outros lugares do Brasil.”

Ainda por dentro dos processos mais interiores, o escritor Renato Fino é outra presença constante entre as conversas literárias brasilienses. Com o livro Gênero eterno, o escritor traz à tona um tema atual e importante e conta a história de Simone, uma professora de filosofia do gênero. “Como escritor, acabo transformando tudo aquilo que sinto em literatura, quem me conhece mais de perto consegue me perceber em alguns pontos do livro”, conta. Para Renato, o processo da escrita surge naturalmente e o livro se apresentaria por si próprio na mente de cada escritor.

Para enriquecer a presença poética da Bienal, Lisa Alves lançará Arame farpado, livro de poesias dividido em seis partes e que aborda questões como fronteiras humanas, limites territoriais e fronteiras culturais. A inspiração se encontra no tempo presente, entre as dicotomias humanas, as pessoas e suas pequenas histórias, além das experiências de vida da própria poeta. “Dedico poemas para personalidades que me inspiraram ou me motivaram e há uma variação de Madame Satã a Nietzsche”, revela a autora.

A literatura feita por mulheres também será representada por Paulliny Gualberto Tort, que lança o romance Allegro ma non tropp.  “Precisamos investir na produção contemporânea. A Bienal é importantíssima nesse processo para a cidade”, declara. Nas páginas de seu livro, o protagonista Daniel passa por uma viagem na Chapada dos Veadeiros, possibilitando que os leitores se relacionem ainda mais com as vivências de uma escritora brasiliense.

Vitor Camargo de Melo é autor de Fratura exposta. Em seu livro de contos, Vitor permite que suas narrativas circulem por diferentes lugares geográficos e tempos históricos, além de buscar uma representação da vida urbana e da metrópole. “Em Brasília, a literatura tem uma cara relativamente marginal, e se apoia bastante na produção independente. A galera acaba tendo que bancar muita coisa do próprio bolso, virando produtor cultural também, para conseguir fazer o material circular”, destaca. O autor acredita que o país passa por uma boa safra de escritores e que, de alguma maneira, a produção literária tem conseguido romper barreiras.


Arquivo pessoal
   
“É o modo como experimento um outro mundo, não necessariamente mais bonito, mas igualmente interessante”,
Rômulo Neves

    
Arquivo pessoal

“Tenho uma espécie de angústia em entender minha própria identidade e meu lugar no mundo. Pesquiso a narrativa confessional”,
Mariana Carpanezzi

Arquivo pessoal
  
“Em Brasília, a literatura tem uma cara relativamente marginal, e se apoia bastante na produção independente.”
Vitor Camargo de Melo

Arquivo pessoal
   
“Brasília é habitada por pessoas de várias partes do Brasil, acredito que somos privilegiados por uma miscelânea de criatividade”,
Lisa Alves

 Ana Rayssa/Esp.

“Acho que o livro é um ser vivo que se apresenta pronto na nossa mente”
Renato Fino

 Leopoldo Silva/Divulgação
   
“Gosto de citar o trecho de uma música do Sérgio Sampaio que diz o seguinte: ‘Um livro de poesia na gaveta não adianta nada, lugar de poesia é na calçada’”,
José Rezende

Arquivo Pessoal.
   
“Para incentivar a literatura, precisamos investir na produção contemporânea”,
Paulliny Gualberto

 

Pergunta aos autores:

De que maneira a literatura poderia ser mais incentivada no país e na cidade? Como atrair e se conectar com mais leitores no mundo atual?

 

Mariana Carpanezzi

Passa pelo estímulo à produção e pelo financiamento dos autores para que eles façam livros autorais e corajosos, fora da rigidez do mercado editorial; passa pela distribuição dos livros, que é um problema pra quem produz. Adoraria se existissem residências artísticas subversivas e maravilhosas com financiamento pra que os artistas pudessem trabalhar colaborativamente. Passa pela reflexão sobre qual o lugar do livro no mundo de hoje, e como recolocá-lo dentro dele, não apesar dele. Há muitos vértices possíveis aqui.

 

Lisa Alves

A maneira mais eficaz é através de políticas públicas que façam aumentar os recursos do Fundo de Apoio à Cultura. Hoje em dia temos muitas ferramentas de suporte – a escrita não está mais tão dependente do suporte de papel. O escritor que não cria resistência ao suporte tem uma probabilidade muito grande de atingir vários tipos de perfis de leitores.

 

Rômulo Neves

O fundamento da literatura é o interesse genuíno pelo livro. E esse interesse, na maioria das vezes, nasce no período escolar. Assim, ao lado do exemplo familiar (pais que leem incentivam, mesmo que indiretamente, seus filhos a lerem), o estímulo escolar e, portanto, a relação dos educadores com os livros, é fundamental. Regredindo até esse momento seminal, concluímos, por óbvio, que o principal incentivo à leitura é um bom ensino, bons professores e um ambiente estimulante são as chaves desse processo. Investir na formação e na reciclagem de professores seria fundamental. É esse professor que conseguirá, pela proximidade com o repertório dos alunos, acender essa fagulha e conectar o livro a jovens leitores que, um dia, se tornarão leitores adultos.

 

Vitor Camargo de Melo

O mercado editorial ainda é difícil, restrito. O livro no Brasil é caro e ainda há relativamente poucos leitores no Brasil. Além disso, lê-se muito mais autores estrangeiros do que nacionais. Os escritores no Brasil não encontram um cenário muito amigável quando resolvem investir na carreira. Falando de ficção, acredito que o caminho para se conectar com mais leitores hoje, no Brasil, passa pela questão da linguagem. Muitos escritores brasileiros se conformam com o fato de que não serão lidos pelo grande público e se engajam em experimentações muito sofisticadas de linguagem. O que é de uma qualidade artística sensacional, mas dialoga com um público restrito de acadêmicos e intelectuais. Talvez uma retomada da importância de se trabalhar a trama, e não só a linguagem, seja um caminho interessante.

 

Renato Fino

A própria internet já um caminho para angariar, buscar leitores para a sua escrita. Mas eu escrevo porque sinto uma necessidade imensa, sinto a literatura como uma atividade muito íntima, particular. Então não me preocupo tanto com essas conexões. Acho que o incentivo à leitura começa em casa e na escola, mas acredito que esse é um processo natural. Eu mesmo, sou muito ligado à literatura e não vivenciei isso na infância, adolescência. Penso que talvez tenha que facilitar o acesso, mas esse incentivo acho complicado de pensar, pois acredito que é um caminho muito natural. Quem gosta de ler vai ler, quem gosta de fazer outras coisas vai procurar outras coisas. Comigo o caminho foi esse, bem natural, não veio de parte nenhuma. Não acredito muito em incentivo institucional, acredito que tem que ser um apego interior do próprio ser que vai ler com o livro e a leitura.


Brasilienses na Bienal

1. Arame Farpado, de  Lisa Alves
Lançamento: 27/10, às 18h30

2. Terminal, de Rômulo Neves
Lançamento: 24/10, às 20h30

3. Fratura Exposta, de Vitor Camargo de Melo
Lançamento: 22/10, às 20h30

4. Joaquim 1954, de Vicente de Paulo Siqueira
Lançamento:  23/10, às 20h30

5. Um Balão, na Europa de Cristóvam Naud
Lançamento: 29/10, às 20h30

6. Crônicas, e Outros Escritos de Luiz Philippe Torelly
Lançamento: 29/10, às 18h30

7. Depois das, Cinzas de Alex Almeida
Lançamento: 28/10, às 20h30

8. Zelumen, de Renato Fino
Lançamento: 25/10, às 20h30

9. Allegro Ma Non Troppo, de Paulliny Gualberto Tort
Lançamento: 26/10, às 20h30

10. A Menina Tagarela, de Giulieny Matos
Lançamento: 23/10, às 18h

11. Minha Cidade, de Ana Neila Torquato
Lançamento: 24/10, às 18h30

12. O Mundo sem Anéis – 100 dias em Bicicleta, de Mariana Carparezzi
Lançamento: 26/10, às 18h30

13. O Povo da Lua, de Renato Alves
Lançamento: 27/10, às 20h30

14. Uma Luz na História, de Nina Tubino
Lançamento: 25/10, às 18h30

15. Uma Gota de Sangue, de Débora Paraíso
Lançamento: 28/10, às 20h30

16. A Sombra daquela Garota, de  Rafael L. Ferrari
Lançamento: 22/10, às 18h

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