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Marcelo Gleiser: 'Temos que ser mestres do nosso tempo'

Professor de filosofia dá entrevista ao Correio, fala sobre os dias de hoje e apresenta o novo livro, 'A simples beleza do inesperado'

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postado em 30/10/2016 07:35

José Carlos Vieira

Eli Burakian/Divulgação
 

"É ao fazer que crescemos; é ao fazer que vivemos”. Essa frase carregada de simbolismo poderia ser proferida por algum monge tibetano cercado de seguidores num templo frio e úmido, mas é de um cientista brasileiro de renome mundial, Marcelo Gleiser.

Professor de filosofia natural, de física e de astronomia do renomado Dartmouth College (EUA), Gleiser acaba de lançar A simples beleza do inesperado, livro que reúne reminiscências e reflexões sobre a ciência e os limites do conhecimento.

“Temos que ser mestres do nosso tempo, abrir espaço para nós mesmos, para estarmos em contato com nossa essência. Isso é tomar conta de você. Cada um tem a sua fórmula: esportes, livros, hobbies...” A de Gleiser é a pesca fly, que usa iscas artificiais lançadas em movimentos harmônicos e precisos na água. Pois foi esse estilo de pescaria que o cientista-escritor adotou como um quadro-negro em que expõe com leveza e profundidade os segredos da vida, da física quântica... “A pesca é um símbolo, no livro e na minha vida. Ela representa a solidão do homem perante uma natureza incerta, perante uma vida incerta, da qual poucos sabemos ou podemos prever.”

Leia entrevista

Quanto do menino que pescou um peixe “gigante” nas águas de Copacabana tem ainda na vida de Marcelo Gleiser?
Muito, e cada vez mais. Diria que a redescoberta da pesca foi um portal para essa minha essência mais pura, a do espírito explorador e generoso da criança que todos temos dentro de nós. De lá para cá, ele só tem crescido.


Como “átomos inanimados viraram criaturas vivas, algumas delas capazes de refletir sobre a própria vida”, como os humanos?
Essa é uma das três perguntas mais essenciais da ciência moderna, ao lado da origem do universo e da mente. É óbvio que essa transição ocorreu, ao menos aqui na Terra. Como, ninguém sabe ainda e, como explico no livro, talvez não seja possível saber exatamente. Mesmo que alguém crie a vida artificialmente no laboratório, não temos como saber se foi assim que se deu na Terra, cerca de 3,5 bilhões de anos atrás.


Você destaca que a curiosidade do homem é o que o leva à frente. Mas hoje em dia somos treinados a não ser curiosos, a aceitar tudo. É possível reverter essa condição?
Com uma educação que promove a curiosidade em vez de castrá-la. Aprender a duvidar é essencial, e é uma forma de se viver a vida, tendo as ferramentas para se pensar criticamente sobre o que ocorre à nossa volta, sobre toda essa informação a que temos acesso. Essa é, ou deveria ser, a missão da educação moderna.


Assim como você destaca a diferença entre o mundo do peixe — o ritmo, os segredos... E o mundo do menino Gleiser... Há quantos mundos no mundo? Há mesmo universos paralelos?
Existem mundos metafóricos, imaginários, e mundos que podem (ou não) ser reais. Existem visões de mundo, como a nossa e a do peixe ou da águia, ou de uma mesma pessoa quando criança e quando idosa. Na filosofia antiga e, hoje, na física moderna, se especula sobre a existência de outros mundos, na verdade, de outros universos, separados do nosso. Como explico em Simples beleza, embora fascinantes enquanto ideia, o desafio aqui é comprovar a existência desses mundos por meio de experimentos e observações, o que, ao menos por ora, permanece impossível.


No estudo da física, qual o sentido da morte?

A física não lida com a morte, e menos ainda com o sentido dela. A questão da morte, sob o ponto de vista científico, tem a ver com o que ocorre com o corpo após a vida. A resposta aqui não é muito acolhedora; voltamos ao que éramos, voltamos a ser parte do mundo, da terra, viramos vários sistemas ecológicos que alimentam colônias de insetos e outros animais, ao menos se formos enterrados. A questão do que ocorre com nossa essência, que acho é o que você quer dizer, não é científica, mesmo se tão importante. Permanecemos relevantes enquanto as pessoas se lembram da gente, nossa vida é a memória que elas têm. Deixar um legado, fazer diferença no mundo enquanto vivos, isso é o que é importante e que dá sentido à vida que temos.


Pai, cientista, professor, marido... como disciplinar o tempo? Como tomar conta de você?
Essa é a questão que exploro no livro e que é tão essencial para uma vida saudável física e emocionalmente. Temos que ser mestres do nosso tempo, abrir espaço para nós mesmos, para estarmos em contato com nossa essência. Isso é tomar conta de você. Cada um tem a sua fórmula: esportes, livros, hobbies... O importante é ter esse espaço, especialmente se nos traz de volta ao mundo natural. Precisamos agora, mais do que nunca, estabelecer uma ponte com a natureza, celebrá-la. Nos esquecemos que viemos dela, que somos parte dela. E isso dói, mesmo que poucos saibam de onde vem essa dor, chamando-a de ansiedade da vida moderna. A ansiedade da vida moderna vem de termos esquecido da natureza, nos cercando de cimento e eletricidade, telas e papel, enquanto lá longe, na serra, tem outro mundo que nos chama, o mundo de onde viemos, no qual evoluímos.


Qual a grande lição de vida que uma pescaria pode oferecer?
Existem várias, mas as mais importantes são disciplina e humildade. O pescador que não se prepara, em geral, falha; e o impaciente perde não só o peixe como a experiência do momento, que é o que importa na pesca, especialmente na pesca fly.


No livro, você conecta sentimentos, ações, pensamentos tão díspares, aleatórios, como pescaria, física, filosofia, astronomia... O sentido da vida é buscar ligações, à primeira vista, tão antagônicas ou distantes?
O sentido da vida é buscar por sentido na vida. É viver com intensidade, celebrando a simples beleza do inesperado, das coisas que acontecem por acaso e que definem nossa existência. O encontro inusitado, a notícia que surpreende, a chance que surge. No meu caso, é essa combinação de atividades que dá sentido à minha vida, que me faz acordar todos os dias querendo viver, querendo mais. O que mostro no livro é a coerência dentre todas essas atividades, quando vistas sob a ótica correta; são todas expressões da nossa humanidade, da nossa curiosidade, de queremos entender o mundo e quem somos.


O desconhecido, além de curiosidade, gera também o medo. O homem, muitas vezes, usa esse medo para dominar outros homens por meio de seitas, teorias questionáveis como as ocorridas na Idade Média... O que fazer diante desse dilema: buscar o novo ou ficar nas sombras?
Com certeza buscar o novo, mas munido de uma educação que nos possibilite pensar criticamente sobre as coisas. Esse era um dos objetivos da filosofia antiga, fornecer os elementos racionais para que uma pessoa pudesse se libertar da superstição causada pela ignorância.


Qual o limite da ciência? Qual o limite do homem?
Como explico nos meus últimos três livros, Criação imperfeita, Ilha do conhecimento e, agora, Simples beleza, através de nossos instrumentos científicos somos capazes de ver muito do universo, mas não tudo. Fora isso, quanto mais aprendemos, mais perguntas novas somos capazes de fazer; isso significa que o conhecimento não tem um fim, um objetivo final. Essa é a metáfora da Ilha do conhecimento, cercada do desconhecido por todos os lados. O homem é uma criatura única no universo, mas também com seus limites claros do que pode ou não conhecer do mundo e de si mesmo. Afinal, a ciência é cria nossa.


“Como escreveu no século 19 o naturalista John Muir em seu livro Meu primeiro verão na Sierra, ‘quando tentamos isolar algo, vemos que (o algo) está ligado ao resto do universo’. A física descreve os detalhes dessa interconexão universal.” Por favor explique essa ligação citada em A simples beleza...
Somos feitos dos mesmos átomos que compõem as estrelas, os planetas, e todas as criaturas vivas. O que muda é a composição de cada um; mais hidrogênio, mais carbono etc. A história cósmica é nossa história, somos parte e cria dos processos dinâmicos que geram desde galáxias às estrelas e planetas. Existe uma união profunda nisso, e essa é a percepção que cito do Muir em meu livro.


Fale um pouco de sua “solidão” criativa... Da necessidade de se ter um tempo para observar, buscar harmonias, que “Einstein a chamava de experiência do mistério, ‘a emoção cósmica religiosa’, que, para ele, era a mais profunda que podemos ter, algo de inefável que sentimos ao contemplar a vastidão da Criação.”...
Preciso me isolar para criar, isso é uma coisa que tenho desde garoto, muito antes de ser cientista ou escritor. A pesca era parte isso, um caminho a esse templo da solidão, o contato com a natureza. Continuo nesse caminho, como cientista, escritor e corredor de trilhas. Mas a solidão não é para fugir das coisas, é para me integrar melhor com o mundo e comigo mesmo. Quem medita entende isso bem.


Em seu livro A simples beleza do inesperado, você destaca a diferença da realidade quântica (elétrons e cia.) que“é profundamente distinta daquela vigente no mundo das máquinas a vapor, dos canhões e moinhos, dos carros e aviões, enfim, de todas as máquinas que obedecem a leis mecânicas baseadas no determinismo causal. No mundo do muito pequeno, a realidade desafia o bom senso, misteriosa, indiferente ao que estamos habituados no nosso dia a dia.” Qual seria essa diferença e para onde o “pensamento quântico”, se é que posso falar assim, pode nos levar?
Precisaria de muitas páginas aqui (as do livro!), mas os objetos do mundo atômico e subatômico obedecem a leis diferentes; não existe uma posição fixa, tudo tem um estado inerente de agitação. Essas propriedades revolucionaram o mundo; toda a tecnologia digital que usamos vem delas. Mas a interpretação da física quântica continua misteriosa; sabemos usá-la, mas não entendemos o que nos diz o mundo, ao menos do mundo dos objetos pequenos. Como alerto no livro, há de se ter muito cuidado usando essas ideias fora de seu contexto, como ocorre com frequência em “curas quânticas” que vemos por aí. Isso não faz sentido. O que existe é a mente humana, sua capacidade de empatia com o outro; essa é a cura, que pouco tem a ver com física quântica!

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