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Cineastas brasilienses: portas abertas para coproduções

Parcerias com produtores estrangeiros facilita a internacionalização dos filmes locais

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postado em 31/10/2016 08:39 / atualizado em 31/10/2016 09:36

Ricardo Daehn

Ricardo Reis/Divulgação
 
Do tratado de coprodução com o Instituto do Cinema e do Audiovisual do Uruguai vieram parte do financiamento e a seleção de técnicos e atores estrangeiros. Entre centenas de projetos da linha Prodecine do Fundo Setorial do Audiovisual, partiu outro apoio para o longa-metragem Mulher do pai — assinado pela gaúcha Cristiane Oliveira e vencedor, no Festival do Rio, de prêmios por direção, fotografia e atriz coadjuvante (Verónica Perrota). Toda experiência com Mulher do pai fluirá em know-how para uma futura produção brasiliense: Ainda temos a imensidão da noite, de Gustavo Galvão, prevista para 2017.

Produtor associado do filme gaúcho e marido da cineasta, Galvão teve outra parceria afunilada na fita: com a assistente de direção brasiliense Naná Baptista. Aprendizado é inerente a qualquer experiência de coprodução, como ressalta Cristiane Oliveira, coprodutora e corroteirista de Ainda temos a imensidão da noite, que contará com apoio também de produtores alemães.

“No Uruguai, com Mulher do pai, notamos um outro modo de se fazer cinema; eles têm outra formação. O mercado de lá não é aquecido; daí a cultura do set de se produzir com poucos recursos. A criatividade é pulsante, e decorre até mesmo da força do sistema educacional uruguaio. Para se ter ideia, o logger (encarregado do manejo de dados digitais de um filme) zelava pela qualidade artística de cada plano. Ele não era só um técnico que baixava arquivo e organizava o hard disc”, observa a diretora.

A vocação natural da história foi o que sacramentou a coprodução para Mulher do pai. Rodado na fronteira entre Brasil e Uruguai, o longa levanta voos para a carreira em festivais internacionais e, por meio de agentes de vendas franceses, terá negociações estrangeiras facilitadas. Já as vindas da produtora Cristiane Oliveira serão mais constantes para Brasília. Ainda temos a imensidão da noite já conta com plataforma econômica sólida: do Fundo de Apoio à Cultura foram reservados R$ 2,1 milhões. Com três semanas de filmagens em Brasília, a produção passará para Berlim.

De grão em grão

“A trompetista Karen (Ayla Gresta), no filme, tem um avô que ajudou a construir Brasília tijolo sobre tijolo, enquanto ela seguirá essa construção, nota por nota, com sua música. Na elaboração do filme, Berlim mostra como Brasília pode ser ainda mais. Quero registrar o sotaque de Brasília, o jeito de falar daqui. O paralelo entre as capitais está no período da Brasília sendo construída, enquanto Berlim era reconstruída. Brasília sugou muito, no modernismo, da Bauhaus, que reflete no urbanismo. Já Berlim refloresceu quando a cultura jovem ganhou voz”, observa o diretor Gustavo Galvão.

O patrocínio para desenvolvimento de projeto, via Fundo Setorial, permitirá requintes como uma corroteirista alemã e a entrada do respeitado Karim Aïnouz, como consultor do projeto. Com sete curtas e dois longas no currículo de 15 anos de carreira, Galvão colocará a cidade do Gama em evidência, na ponte de criação internacional, e contará com estreantes em filmes como Gustavo Halfeld (guitarrista) e Vanessa Gusmão (baixo). “O filme surgiu da ânsia pessoal de entender o que aconteceu com Brasília. Depois da Plebe Rude, da Legião Urbana, que marcaram a cultura, não houve uma continuidade. Acho que Brasília tem tempo para se afirmar como capital cultural também. Nossa cidade ainda tem futuro a ser traçado”, comenta Galvão. Rock experimental, com mescla de jazz e punk, emoldurará a trilha sonora do longa.

Ainda temos a imensidão da noite já fez Gustavo Galvão empregar, do próprio bolso, R$ 20 mil em pré-produção. “Mas, com aporte do FAC, partirei para uma postura mais agressiva para conseguir parceiros e apoios em Berlim. É uma forma de mostrar que meu país acredita no projeto, e serve como um aval. Agora, a gente pode levantar voo”, diz o diretor, entusiasmado.

O cineasta sublinha que a coprodução foi caminho orgânico para o longa. “Um conceito explorado pelos cinemas argentino, chileno e uruguaio, mas que o Brasil ainda não desenvolveu na plenitude. Há, sim, o lado do encarecimento. A burocracia é um monstro, só em remessa de dinheiro para o exterior se gasta 30% de imposto. Mas a coprodução azeita trocas culturais e aquece mercados para exposição de um filme”, observa. “Nosso filme e o novo do Adirley Queirós (leia, abaixo) são casos isolados para o DF. Abrimos caminhos, e espero que muita gente venha em seguida. O próximo passo será mostrar a produção do Distrito Federal para o mundo”, completa Galvão.
 
 
Duas perguntas// Adirley Queirós 
Seu novo filme Mato seco em chamas terá coprodução europeia. Como está o processo de orçamento dele e quais os benefícios na estruturação?
Teremos a participação da produtora portuguesa Terratreme. Eles vieram depois de conferir nossos outros filmes da Cinco da Norte, Branco sai, preto fica e A cidade é uma só. Os representantes portugueses têm até a vontade de fazer esses filmes circularem internacionalmente. Entram com mais elementos de produção, no primeiro intercâmbio, na associação entre Ceilândia e Europa. Com os portugueses, ficará mais fácil vender o longa para a tevê estrangeira, e teremos potencializada a circulação do filme. Portugal aportará R$ 500 mil para filmarmos no Brasil, passado um processo de seleção em que disputamos com 50 outros projetos. Na constituição de orçamento, só teremos acesso aos recursos de fora, com a efetivação do edital do FAC previsto para trazer R$ 1,9 milhão para o longa.

Do que trata e como será o cronograma de Mato seco em chamas?
Será um filme de ação, com ficção clássica desenvolvida em 120 páginas de roteiro. Devemos filmar em agosto de 2017. Mas a pré-produção será montada a partir de janeiro. Haverá uma escolha de elenco complexa, num trabalho a ser desenvolvido em seis meses. Teremos uma atriz central, tipo coringa do filme, mas teremos atrizes saídas do cotidiano: uma feirante, uma cantora, uma aluna de escola pública e ainda uma atendente de posto de gasolina. Será uma aventura, um bang-bang feminino, com a porta de entrada para a trama, numa boca de fumo que some, em quatro minutos de filme. As mulheres entram em cena e mudam a história: tomam de conta. Petróleo será descoberto na Ceilândia, e elas reivindicam, sem didatismo, benesses públicas que poderiam vir com a riqueza do pré-sal e afins.
  

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