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Escritores brasilienses se reúnem para celebrar Drummond

O Dia D - Vida e verso de Carlos Drummond de Andrade homenageia a vida e a obra do grande poeta

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postado em 31/10/2016 08:54 / atualizado em 31/10/2016 11:49

Isabella de Andrade - Especial para o Correio

Rogério Reis/Tyba

Mineiro de Itabira do Mato Dentro, Carlos Drummond de Andrade era um escritor habilidoso ao lidar com o cotidiano, transformando o ordinário em uma matéria extraordinária. Transitava pela escrita sem receios, marcando a produção literária brasileira. Nascido exatamente há 114 anos, o poeta, contista e cronista genial é considerado um dos principais poetas da segunda geração do Modernismo brasileiro. Em sua homenagem, escritores de Brasília se reúnem para o Dia D — vida e verso de Carlos Drummond de Andrade, no Sebinho, evento que cria tradição no calendário cultural da cidade. A data celebra a visão inquietante, a leveza e o vigor da obra de um dos grandes modernistas e sua contribuição para o verso livre, irônico, social e político.

O professor e poeta Alexandre Pilati fará parte da homenagem ministrando uma oficina de escrita poética. O que lhe chama mais atenção na obra de Drummond é a maneira com que sua personalidade se encontra imersa nos problemas do mundo, colocando autor e realidade como parte de um mesmo impasse. “Como professor de literatura, considero Drummond um modelo através do qual faço meus alunos refletirem sobre nossa literatura. Acho que ele ocupa na poesia o mesmo lugar que Machado de Assis ocupa na prosa brasileira”, afirma Pilati.

Drummond se comunica de maneira simples e amigável através de suas páginas, despertando admiração em escritores de gerações diversas. O principal sentimento despertado pela obra do escritor em Alexandre Pilati é a esperança, já que, de acordo com o professor, o autor expõe a vida em sua dimensão mais verdadeira e profunda. “Das piores situações, sua poesia nos ensina a extrair a força para transformar a realidade e sentir por dentro a verdade da vida. Posso dizer que, para mim, a obra mais importante de Drummond é Sentimento do mundo, de 1940. Ela tem poemas belíssimos e intensos, cheios de lições de vida”, declara.

 

Sabrina Moura/Divulgação
 

 

Marina Mara é uma das vozes mais conhecidas da poesia brasiliense e produz, desde 2010, o Declame para Drummond, projeto de circulação de poesia autoral, que neste ano aconteceu ontem. Para ela, o mineiro não era apenas poeta, e sim poesia. Sua postura sempre foi a de abrir espaços para novos autores, como Lygia Fagundes Telles e Cora Coralina. Marina lembra que esta mesma postura cidadã está presente em sua obra, como no livro A rosa do povo, que apresenta poemas escritos entre 1943 e 1945, nos quais o poeta que transforma angustia em engajamento social. A obra favorita é Fala, Amendoeira, que completa 70 anos em 2017. “Conheci este livro por meio de um amigo, ele lia os trechos ao som de um velho vinil e minhas lágrimas trilhavam até o queixo de tanta emoção. Eu sentia que Drummond falava diretamente para mim.”

A poeta destaca o livro A rosa do povo como um dos mais importantes da obra de Drummond, por trazer uma mensagem atual por meio de um texto livre de rimas, métricas e de panos quentes acerca de temas polêmicos. “Ele é imprescindível para o período sociopolítico obscuro pelo qual estamos passando. Leva ao leitor temas polêmicos como corrupção, poluição, entre outros aspectos tão urgentes em nossa sociedade”, afirma. Marina lembra que, neste ano, 163 poetas de todo o Brasil (sendo que, 64 deles são do DF) se inscreveram no projeto Declame para Drummond e tiveram poemas soltos em balões poéticos no encerramento da Bienal Brasil do livro e da leitura.

 

 

Importância
A poeta Cristiane Sobral conta que compartilhará no Dia D um pouco do livro de poemas eróticos do escritor, O amor natural, que lhe encanta pela maneira suave e direta da escrita. No livro, Drummond aborda a temática do amor com naturalidade, sensualidade e precisão. “Falar importância da reflexão sobre os afetos na lavra poética de um escritor, no meu caso, é um tema que gosto muito de desenvolver. O autor vai ao erotismo sem esbarrar na pornografia, é uma intimidade saborosamente compartilhada, com precisão estética. Vale lembrar que sua obra não se perde no calor dos tempos atuais, pelo contrário”, destaca Sobral.

Outra figura conhecida da cena da cidade, João Bosco Bonfim, conta que Drummond lhe ensina um tanto sobre os modos de olhar, com poesia, para a vida. E para isso, não precisa de complexidade. “Neste trecho de Toada do amor, do livro Alguma poesia, ele conclui o poema assim: ‘Mariquita, dá cá o pito, / no teu pito está o infinito.’ Nesses dois versos há um mundo a se explorar, que vai das especulações filosóficas às psicodélicas, passando pelas sensuais e eróticas. Uma beleza essa habilidade dele”.

Para o Dia, Bosco escolheu O marginal Clorindo Gato, com capa de Oscar Niemeyer e ilustrações de Darel, que lembram bem o contraste das xilogravuras dos cordéis nordestinos. É uma história narrada em versos, em quadras. No livro, o autor discorre sobre as nefastas glórias de assassino do personagem e de sua beatificação. “Eu fiquei admirado, quando li: então, é possível fazer poesia a respeito de assuntos tão ordinários? E fazer a santificação de uma pessoa considerada marginal? Penso que essa foi uma de minhas fontes de inspiração para meu Romance do Vaqueiro Voador”. Bosco acredita que a poesia verdadeira vai da piada à dor mais profunda e Drummond faz isso.

 

Arquivo Pessoal

Depoimento
João Bosco, sobre o encontro com os primeiros versos:
“O primeiro Drummond a gente nunca esquece. E o meu primeiro, ainda nos primeiros anos do curso de Letras, foi aquele da Aguilar, papel bíblia, poesia e prosa de 1979. Ainda hoje eu o tenho, com todas as merecidas marcações desses anos. Ele me influencia sempre. Para os primeiros versos escritos; para os não escritos: ‘Não faças versos sobre acontecimentos./Não há criação nem morte perante a poesia’, são versos que me embatucaram um tanto, quando começava um poema a respeito de uma tristeza, um ressentimento, ou uma alegria fugaz. Deixava lá essa emoção cozinhando. E lembrava, de novo: ‘Que se dissipou, não era poesia./ Que se partiu, cristal não era’. É bem possível que, com cuidado, eu encontre uma quantidade de versos que digo meus que foram bebidos — com gosto — na poética de Drummond”.

 

Serviço

Dia D – vida e verso de Carlos Drummond de Andrade
Hoje, às 19h, na Livraria Sebinho.

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