SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

O grupo Los Carpinteros estreia retrospectiva brasileira em Brasília

Coletivo cubano é um dos mais conhecidos e mais importantes da arte contemporânea

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 02/11/2016 07:30

Nahima Maciel


Eduardo Ortega/Divulgacao
 
O coletivo Los Carpinteros nasceu da precariedade. Em um mundo pautado por relações nas quais o consumo tem valor econômico e social importante, o trio de artistas cubanos apresentou uma maneira sóbria, indireta e contundente de falar do cotidiano e dos objetos. O curioso é que Marco Castillo, Dagoberto Rodriguez e Alexandre Zambramo, que hoje não integra mais o grupo, nasceram e cresceram em um regime no qual os objetos, de maneira geral, não eram acessíveis nem estavam disponíveis. Mas a produção dos Carpinteros se tornou um fenômeno na arte contemporânea a partir dos anos 1990. O panorama idealizado pelo curador Rodolfo de Athayde para Los Carpinteros: objeto vital, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil a partir de hoje, traça a história do grupo desde sua descoberta internacional, nos anos 1990, até as produções mais recentes.

O material de trabalho de Dago e Marco é o cotidiano. Objetos presentes no dia a dia servem de ponte para comentários que vão do político ao afetivo. Um trenó de neve feito com madeira recolhida em vários pontos de Havana quando o coletivo ainda não tinha acesso aos materiais industriais do mundo capitalista pode falar de valores culturais como a bizarrice de se cultuar tradições de países frios em meios tropicais, assim como da precariedade da vida diária em uma ilha comercialmente isolada do mundo.

Um carrinho de supermercado em forma de lixeira gigante propõe uma reflexão sobre o consumo, o lixo e o exagero e uma cidade formada com barracas de acampamento em formatos de igreja, prisão, fábrica ou capitólio, tão frágil quanto descartável, carrega um diálogo inevitável com o século 21 e suas metrópoles de países semiperiféricos lotadas de desigualdades e superpopuladas.


Jason Wyche/Divulgacao


Humor
São peças perpassadas por um humor muito refinado e um olhar atento e sensível. Talvez por isso remexeram o cenário da arte contemporânea quando começaram a aparecer, nos anos 1990. Os Carpinteros fazem parte de um boom da arte cubana surgido da crise dos anos 1980, quando os blocos socialistas desmoronaram no Leste Europeu e o isolamento da ilha ficou ainda maior. Para a geração anterior, foi difícil vencer a censura para falar da Perestroika e do fim da utopia socialista.

Mas a geração de Marco e Dago investiu em algo diferente. “Esse movimento colapsou porque o governo cubano fechou a porta para esses artistas: eles nunca puderam expor em Cuba, suas obras foram censuradas”, conta Dago. “Nos demos conta de que, se quiséssemos fazer arte, teríamos que mudar um pouco as regras do jogo e fazer uma arte que não deixasse de dizer coisas, mas nas quais as mensagens fossem um pouco mais encriptadas. Foi o que fizemos. Durante o tempo que vivemos em Cuba, usamos essa linguagem um pouco encriptada, escondida. O importante não era o que dizíamos, mas o que não dizíamos”, lembra o artista.

Em Cuba, o acesso aos materiais era quase inexistente. Diante da precariedade, o grupo trabalhava com ideias e muitos desenhos. Faziam aquarelas como forma de catalogar futuras ideias e, por isso, há muitas na exposição em Brasília. Em 1992, o coletivo expôs na Documenta de Kassel. A partir de então, os Carpinteros começaram a frequentar bienais do mundo inteiro e a despertar a curiosidade de curadores e colecionadores.

Depois de ter obras compradas por museus como o MoMA, Guggenheim (Nova York), Tate Gallery (Londres) e Reina Sofia (Madri), o nome dos artistas passou a figurar no topo das listas de coletivos mais importantes da arte contemporânea mundial. A exposição estreia em Brasília antes de ir para Belo Horizonte e Rio de Janeiro. É a primeira do coletivo na capital e, curiosamente, é capaz de estabelecer um paralelo curioso com a cidade, já que esta é fruto de uma utopia desenvolvimentista típica do mundo capitalista.

A exposição está dividida em três momentos e traz obras de todas as épocas da produção do grupo, desde os tempos de estudantes no Instituto Superior de Arte de Cuba até as aquarelas — que eles nunca deixaram de produzir, mas que hoje já não são para projetos futuros — mais recentes. A primeira parte traz os tempos de Cuba, com obras mais precárias e carregadas de crítica e humor.

Na segunda, o curador Rodolfo de Athayde quis ressaltar a mudança na obra quando os artistas acessaram o mercado internacional e seus meios industriais de produção. Os Carpinteros extrapolam o território, mas não mudam de assunto: o local também é de interesse global e a obra do coletivo toca em cheio a sensibilidade do cenário internacional.

A terceira parte se concentra numa busca conceitual que Athayde classifica como “mais instigante”. Aqui entra o vínculo entre a palavra e a arquitetura, com projetos de pequenos prédios marcados com mensagens. “É um panorama que se centra em momentos importantes nos quais mudam os conceitos de seus trabalhos, é um trabalho muito poético, ligado a coisas mais básicas de pegada mais rudimentar”, avisa o curador. 
 
Sueraya Shaheen/Divulgacao
 

Entrevista: Marco Castilho
 
Como encara hoje a dimensão transterritorial que as obras do grupo adquiriram? Mudou alguma coisa?
Sim, claro, muda sua noção de pertencimento, sua maneira de ver as coisas, mas não necessariamente temos que entender nossa transterritorialidade como a obra que se globalizou ou que deixamos de nos interessar por problemas locais. Ao contrário: aprendemos a enfocar os problemas locais com  uma distância importante. Mais que nunca, estamos fazendo análises de problemas culturais, de problemas pensados de maneira filosófica e não protocolar. A transterritorialidade teve um impacto na parte material da obra porque tivemos muito mais acesso aos materiais. Em Cuba havia uma limitação. Mas isso, ao mesmo tempo, nos deu oportunidade de nos aprofundar em alguns assuntos.


Que materiais não eram acessíveis? 
Os materiais sempre estiveram em nossa cabeça. O que acontecia é que, estando em Cuba, não podíamos fabricar. Nós produzíamos utopias e transformávamos em aquarelas. Tudo que planejamos durante anos em Cuba pudemos fazer depois porque criamos um banco de ideias. E essa falta de materiais nos fazia trabalhar com outros materiais. Assim, criamos uma metodologia de trabalho. Se não tivéssemos tido essa falta de materiais nunca teríamos desenhado tanto. Não é tanto que o material mudou e sim que materializamos nosso sonhos. Uma vez que deixamos Cuba, pudemos ter acesso aos materiais que sonhávamos.


Na tua opinião, que aspectos dos trabalho fez com que o mundo olhasse para as obras?
Viemos de um lugar totalmente diferente. Cuba é latino-americana, mas com uma realidade mais próxima do Leste Europeu. Não crescemos com uma relação material com as coisas como a de um brasileiro. Para vocês, o consumismo sempre esteve aí. Podiam não ter o dinheiro, mas a possibilidade sempre existiu. Nós aprendemos a viver com austeridade e a valorizar outros aspectos. A nossa relação com o mundo material é diferente. E uma vez que pudemos viajar e ter acesso ao mundo começamos a manipular isso de uma maneira diferente de alguém que viveu toda sua vida em um país capitalista. Temos uma maneira particular de nos obcecar com determinados temas e materiais. Mas não sei por que as pessoas se interessaram por nossas obras. Temos a capacidade de falar às pessoas que cresceram em um universo capitalista com uma visão de seu próprio mundo com uma distância.
 
 
 Entrevista: Dagoberto Rodriguez
 

As obras dos Carpinteros devem ser lidas como poesia?
Totalmente. Acho que a maior parte da nossa obra é como uma poesia. Sempre nos interessou muito o movimento da poesia concreta e temos muita influência do monopólio cinematográfico que havia em Cuba nos anos 1970 e 1980, um movimento muito forte do monopólio político em Cuba. Nós estamos conscientes dessa influência porque a maioria de nossas obras são portas, são mensagens muito rápidas e pequenas. As obras são sensíveis, toda a poética vem da nossa sensibilidade e da combinação desses elementos. Através disso organizamos todo o discurso.

A subversão dos objetos e o jogo de significados são importantes para o trabalho do grupo?
Sim, claro. Nós construímos nossa linguagem variando a linguagem que nos rodeia e os espaços que nos rodeiam. Assim, fazemos sempre uma reflexão sobre o espaço no qual vivemos. Vivemos entre Madri e Havana. Temos um estúdio em Madri e outro em Havana. Passamos quatro meses por ano em Cuba e o resto na Europa. Nunca perdemos a conexão com Havana.

A influência política é óbvia? 
Sim. Tem uma carga política e social muito forte. Nas primeiras obras exploramos uma maneira de fazer arte muito  convencional. Naquele época, em Cuba, não se fazia muita pintura. Nós quisemos remeter a pinturas tradicionais em temas de arte, nos interessava ser diferentes em relação ao que se fazia em Cuba naquele momento. E fazíamos tudo isso conscientes de que havia um contrato completo com o que estava acontecendo na arte em Cuba: tudo que se fazia em Cuba nos anos 1980 era muito experimental, contestatória, era bastante diferente. A geração de artistas anterior à nossa foi muito censurada, toda a obra que faziam estava ligada à queda do campo socialista no leste da Europa.

E como o contexto político influencia o trabalho dos Carpinteros hoje?
Havana e Cuba são uma espécie de cenografia na qual a nossa obra acontece. E segue sendo, mesmo vivendo fora de Cuba, até porque já vivemos muito tempo em Havana, mais tempo do que vamos viver em outro lugar. Nossas peças são, de alguma maneira, um testemunho da nossa existência, do cenário onde estamos, da nostalgia, tudo isso está contido nas obras.

Como será o futuro da ilha para você?
Cuba está dando alguns passos, caminhando para uma economia um pouco mais aberta. No entanto é muito cedo para saber o que vai acontecer. É uma pergunta que nos fazemos, todos os cubanos. Posso dizer que não há mudanças grandes, são mudanças feitas com muita cautela e não sabemos, honestamente, o que vai acontecer. Tenho muitas esperanças. Sobretudo na geração de jovens: eles não têm nenhuma conexão emocional, ou têm uma conexão emocional diferente, com o processo social da revolução. Creio que esses meninos são o motor impulsor das mudanças em Cuba. É uma geração jovem e eles não levam tanto em conta o passado, estão vivendo mais em função do presente, nem se interessam tanto pelo futuro, mas o presente sim, isso interessa muito para eles.
 
 
 
 
 
 
Los Carpinteros: objeto vital
Exposição do coletivo formado por Marco Castillo e Dagoberto Rodriguez. Visitação até 15 de janeiro de 2017, de quarta a segunda, das 9h às 21h, no Centro Cultural Banco do Brasil Brasília (SCES, Trecho 02, lote 22) 
 
 
 
 

publicidade

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.

publicidade