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Correio Braziliense

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A comédia 'O Shaolin do sertão' dá uma pêia nos estrangeiros

A película ostenta, atualmente, a melhor média por sala nos cinemas do país

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postado em 06/11/2016 07:45

Rebeca Oliveira /

Downtown Filmes /Divulgação

Elementos da cultura regional nordestina com filmes de faroeste e artes marciais. À primeira vista, o casamento pode não fazer muito sentido. Desafiando o status quo e comprovando a competência do diretor cearense de Halder Gomes, a junção de yakissoba com rapadura deu mais que certo em O Shaolin do sertão. Em cartaz há menos de um mês, o filme de luta com viés cômico já foi visto por mais de 150 mil pessoas. Uma espécie de sequência não-premeditada de Cine Holliúdy, outra obra aplaudida de Gomes, a comédia criou empatia com os espectadores principalmente pelo olhar ingênuo — aos moldes de um humor saudosista, como faziam Os Trapalhões. A película ostenta, atualmente, a melhor média por sala nos cinemas do país.

A distância do hegemônico eixo Rio-São Paulo não virou entrave tanto na realização (as gravações foram feitas em Quixadá e Quixeramobim, a 150km da capital, Fortaleza) quanto na distribuição de O Shaolin do sertão, que chegou a 150 salas de outros estados com o mesmo bom desempenho do Ceará, onde ficou em primeiro lugar na semana de estreia, dando uma “pêia” nos concorrentes hollywoodianos. O excelente resultado impulsionou a sequência de Cine Holliúdy, que começa a ser gravado em janeiro de 2017 e deve ser lançado no final do mesmo ano.

Em parte, o sucesso de O Shaolin do sertão tem nome e sobrenome: Edmilson Filho, que protagoniza a película como Aluísio Li. Mestre 5º grau em taekwondo, o ator perdeu quase 15 quilos antes e durante as gravações. Arretado, dispensou o uso de dublês e fez todas as coreografias, até as mais escabrosas. Três vezes campeão nacional da categoria, o cearense de Fortaleza explica que a dinâmica para as cenas é completamente diferente da luta convencional. “Você precisa estudar como receberá os golpes e reagir a eles durante as filmagens”, conta o protagonista.

Edmilson reconhece as comparações com mestres da risada brasileiros, como Renato Aragão, o indefectível Didi Mocó. Mas prefere criar uma identidade própria para cada papel. “Inclusive, artisticamente, um dos maiores desafios na composição do personagem foi dissociar a imagem de Aluísio Li com a de Francisgleydisson, protagonista de Cine Holliúdy”, revela.


Entrevista  / Edmilson Filho 

Como um filme produzido longe do eixo Rio-São Paulo conseguiu obter tanta repercussão nacional? 
Eu e Halder Gomes não acreditamos em um cinema regional. Acreditamos que tudo é regional. Era uma questão de tempo até reconhecerem que são boas histórias, independentemente de se passarem no Ceará ou não. Nós exibimos O Shaolin do sertão em festivais na Ásia e na Europa e ele foi bem-visto. Um filme do interior, do sertão, foi superaplaudido na Tailândia, pois trata de sentimentos universais, que todo mundo tem. É a história de um cara apaixonado por artes marciais, inocente, que não desiste e vai atrás dos seus sonhos. A característica maior pode ser o sotaque ou a forma como a gente encara a vida, mas é para todos. Filmes contados no interior do Texas ou em Nashville, nos Estados Unidos, não são chamados de filmes regionais. Ou aqueles feitos no Leblon, em Ipanema...

Enxerga certo preconceito ao classificar O Shaolin do sertão como um filme regional?
Estamos tentando desmistificar isso. É justamente o contrário. Os filmes de Woody Allen são feitos em Manhattan e não são chamados de regionais. Não sei se é um preconceito ou uma miopia. É preciso que nós vejamos o Brasil ou o mundo pelo potencial das histórias que podem contar, sem enquadrar em uma caixinha. Se toca o coração das pessoas, não tem nada a ver julgar pelo lugar em que foi feito.

A comédia tem um lugar cativo no cinema nacional. Consegue avaliar o porquê? 
É preciso um entendimento importantíssimo: a comédia não pede muito investimento, basta um bom roteiro com bons diálogos e bons atores. Não é preciso R$ 20 milhões para fazê-la. Vamos para o lado da comédia porque responde bem e é algo nacional, como vamos competir com filmes feitos com US$ 200 milhões, como X-men? Não dá... Além do mais, os grandes estúdios, quando chegam ao Brasil, tomam 60% das salas. É um investimento que nosso cinema não tem. A comédia permite um orçamento mais baixo e que a nossa indústria, que ainda está engatinhando, tenha um êxito. É o principal fator. O Shaolin do sertão não deixa nada a desejar tecnicamente, em qualidade visual ou imagens, a nenhuma produção estrangeira. Tem uma fotografia muito bonita, com as belezas naturais do interior do Ceará. É um cenário que geralmente você não vê no cinema nacional, focado na praia de Copacabana.

A fotografia que ressalta as paisagens paradisíacas cearenses foram propositais?
Tudo é pensado. O público tem vontade de conhecer Nova York ou Paris porque as viu no cinema. O cinema trouxe isso, muito mais que a tevê ou a internet. Quando se coloca qualquer visual dentro da sétima arte, inconscientemente, instiga-se a vontade de conhecer aquela locação. Querendo ou não, o filme impulsiona o turismo para o estado do Ceará. Das pessoas quererem viajar e passar por esses locais e, ressalto, fizemos isso mesmo não tendo nenhum investimento governamental por parte do estado. Zero. Houve todo o cuidado com as imagens, com o nome da cidade. Não fizemos isso pelo governo, mas pelo estado, pelo povo. Mesmo não tendo nenhum tipo de apoio, acreditamos que o trabalho feito com qualidade e seriedade gera reconhecimento. Eu e Halder somos de Fortaleza, mas escolhemos Quixadá pelo visual com pedras, caatinga, e essas características geográficas que, para um filme de luta que mistura China, sertão e faroeste, se encaixaram perfeitamente.

Não tem vontade de fazer comédia na tevê aberta, seja em novela, seja em série?
Temos projetos de séries e tevês para canais abertos e de tevê a cabo. Minha agenda depende muito do que é o projeto, só faço o que realmente me identifico. Moro nos Estados Unidos e minha vida lá fora é um eterno vai e volta, uma ponte-aérea entre Los Angeles e Fortaleza. Uma novela em que ficaria oito meses gravando não é algo do meu interesse. Ser colocado como o nordestino servente de pedreiro só para estar no ar não me emociona. Mas no ano que vem, quando terminarmos de filmar a sequência de Cine Holliúdy, pretendo apresentar a minha peça Notas – Uma comédia de relacionamento por todo o país.

As inserções de trechos com aparência de fitas VHS foram feitas para agradar ao público saudosista dos anos 1980?
Sim, nós somos saudosistas. Começamos a lutar por conta desses filmes, e a nossa história deu uma volta, passamos a atuar e dirigir e, hoje, estamos fazendo filmes sobre esse universo. É interessante falar que fizemos um filme de luta e que é visto por pessoas de todas as idades. Eu fui ao cinema esse fim de semana e tinha uma senhora com uns 90 anos se emocionando, rindo muito com a comédia. Quantas vezes se vê uma pessoa de 70, 80 assistindo a filme desses? É um fenômeno e está conseguindo tocar várias faixas etárias.

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